XXIX – Da última noite de treinamento de Oscar.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.
XXVII – Do encontro com o Catariano.
XXVIII – De mais dias de calmaria.

 

Na quarta feira, Oscar demorou mais do que o usual para aparecer em casa. Mefisto voltou de sua expedição diária antes da chegada de meu pupilo, e perguntou-me em qual cemitério treinaríamos naquela noite. Falei que iríamos para o cemitério no qual havia expurgado o Errante alguns dias antes, e ele balançou a cabeça, em aprovação. Disse que cuidaria da casa, e que caso recebesse alguma visita, ele responsabilizar-se-ia por hospedá-la enquanto eu não voltasse. Eu não receberia visitas naquela hora, dificilmente eu recebia visitas durante o dia, quem diria à noite, mas agradeci sua disposição.

Oscar chegou logo em seguida. Preparei alguns instrumentos, fizemos uma rápida refeição, e partimos em direção ao cemitério. Ele ficava um pouco longe de casa, mas andávamos a passo rápido. Pouco conversamos, até que chegássemos ao cemitério. Ele perguntou-me como seria o treinamento, e disse-lhe que pretendia melhorar sua resistência, para que conseguisse usar mais encantos e passar mais tempo lutando. Acreditava que, àquele ponto do treinamento, era mais importante para ele do que manipular almas.

Afinal, se as Artes Ocultas resumissem-se apenas à alquimia de criação de servos, seria uma ciência facilmente dominável. Pudera, Oscar aprendera seus conceitos básicos em questão de semanas. A parte que tornava-a difícil era a manipulação de almas vivas entre os planos, já que não era simples chamar uma alma, e menos ainda quando se almejava uma alma em específico. Chegamos ao cemitério, e Oscar logo desenhou um de seus círculos no chão. Admirei-me um pouco de sua disposição ao treinamento.

Conseguia perceber uma concentração enorme de energia no pigmento que ele havia posto sobre o solo, sua aura arroxeada começava a tornar-se indigo. Perguntava-me o porque dele estar acumulando tanta energia logo de cara, mas não quis atrapalhar seu desenvolvimento. Em pouco tempo, a aura de seu círculo passou a ser de cor ciano, e Oscar só parou o fluxo de entropia quando a cor do círculo passava de verde a amarelo.

– Bom trabalho, Oscar – eu disse, tão logo saiu de seu estado quase meditativo – mas por que fluir tanta entropia de uma só vez? Assim vai gastar todas as suas energias.
– Não, Fausto, não mesmo. Eu andei treinando por conta, olhe o que eu já consigo fazer!

Oscar então liberou toda a energia que estava em seu círculo. Tampas de túmulos de gesso e pedra começavam a romper-se, seguidas do estalar seco e agudo da madeira de caixões. Se não haviam mobilizado-se todos eles, poucos seriam os cadáveres daquele cemitério que ainda restavam em seus túmulos. Logo todos encaminharam-se à minha frente, organizando-se à direita e à esquerda de modo que havia apenas uma espécie de corredor que interligava eu e meu discípulo por entre a multidão de corpos inertes, que eram gradualmente reconstruídos por Oscar.

Pouco demorou, surpreendentemente, para que a fileira de corpos estivesse quase perfeitamente reconstruída. Oscar não parecia nem um pouco cansado, ainda mantinha-se em pé, aparentemente pronto para repetir o esforço. Caminhava em minha direção, passando entre as duas muralhas de servos que havia recém conjurado. Os servos, por sua vez, tendo suas funções cognitivas restauradas, avançavam no mesmo passo lento e regular de meu pupilo, assim como hienas seguem o líder da matilha.

– Devo admitir, meu jovem, que estou surpreso com seu resultado. Não havia apresentado-te tão bem em nosso último treinamento.
– Como eu disse, Fausto, andei treinando por conta.
– E fizeste um ótimo trabalho, Oscar. Devo confessar que possuía muitas dúvidas sobre teu sucesso como um usuário, mas em pouco tempo fizeste algo que mesmo eu, no estado que me encontro nesta época, teria dificuldade em fazer.
– É mesmo, Fausto?
– Sim, garoto, não exagero ao dizê-lo. Pelo modo como lidaste com a energia, e a facilidade com a qual trouxeste todos estes corpos de volta à atividade, creio que já tenhas superado teu mestre.
– Me dá orgulho ter superado meu próprio mestre.
– E a mim, ainda mais. Nenhum discípulo chega aonde chega apenas por próprio mérito. Treinar alguém que supere a mim mesmo não deixa de ser uma grandiosa honra, caso Oscar.
– Imagino qual não será sua honra ao ver o que guardei para o final. – disse ele, antes de fazer um sinal com a mão, ao qual seus servos continuaram avançando em minha direção.
– Mal posso esperar, Oscar – falei, sem até então perceber o sorriso maligno que formava-se em sua face.

Continuei, por alguns minutos, sem entender o que acontecia. Fui cair em mim tão somente quando o primeiro servo, parecendo sedento por sangue, agarrou-se em meu antebraço. Consegui desviar-me de seu golpe com uma rápida esquiva para trás, e mal pude fazê-lo, outro membro de seu exército atacava-me pelo outro flanco. Corri para trás de uma pequena capela, sabendo que venceria-os em questão de velocidade, e logo peguei o pequeno bastão de pigmento que trazia no bolso de meu capote e comecei a traçar um círculo entrelaçado no chão.

Puxei de lá a espada de cabo longo, a mesma que Mefisto havia utilizado contra meus servos, e escalei a capela, com cuidado para não ser visto por Oscar. Havia, pelo que pude ver, uma quantidade imensa de cadáveres recompostos procurando por mim nos cantos do cemitério, e eu teria de segurá-los apenas com minha espada. Não teria estamina o suficiente para trazer meus próprios servos à tona.

Procurei diminuir tanto quanto pudesse o ritmo de minha respiração, assim demoraria mais para cansar. Perguntava-me como Oscar havia sido capaz de trazer todas aquelas almas à tona, sendo que mal tinha conseguido recompor servos. Decidi descer, pensando que apesar de ter uma quantidade imensa de estamina se comparada à minha, não havia nada que Oscar pudesse fazer além de recompor mais servos para si.

Logo que desci pelo mesmo lugar onde havia subido – escalar e descer capelas não era algo relativamente difícil de ser feito – haviam dois cadáveres esperando por mim. Emitiram seus grunhidos pútridos antes de correr em minha direção, e rapidamente me desfiz deles ferindo suas pernas. Eles continuavam tentando arrastar-se, com seus braços e seu resto de quadril, em minha direção. Avancei cemitério adentro, por trás das capelas, tirando a mobilidade de qualquer ser que tentasse atacar-me. Eu já começava a ofegar, meu vigor físico não era mais o mesmo de antigamente, e ao mesmo tempo, não era claro para mim como Oscar havia realocado tantas almas para nosso plano.

Quando eu já estava cansado, minhas pernas ardendo do cansaço e minha respiração descompassada como as batidas de meu coração, parei sob uma capela que parecia segura. Comecei a pensar, enquanto o ritmo de meu corpo desacelerava, sobre como teria sido possível que Oscar tivesse dominado um conceito tão complicado em tão pouco tempo. Minha estamina estava no fim, eu precisava absorver energia e tentar meu último recurso. Quando comecei a concentrar-me, percebi um rastro de material supercondutor na direção dos muros do cemitério. Ele devia ter preparado alguma armadilha para mim, e talvez aquela fosse a última vez que eu treinaria Oscar, ou qualquer outro de meus pupilos, que fosse.

Advertisements