XXX – Da aparição de Mefisto.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.
XXVII – Do encontro com o Catariano.
XXVIII – De mais dias de calmaria.
XXIX – Da última noite de treinamento de Oscar.

 

Minha respiração voltava ao normal, eu já poderia correr por mais um pouco de tempo. O material supercondutor que eu havia sido capaz de detectar intrigava-me, eu imaginava que tipo de armadilha aquele garoto havia preparado para mim. Talvez ele não tivesse treinado meramente sozinho, talvez tivesse mais de um professor, ou talvez fosse algum usuário experiente tentando acabar comigo.

Seja qual fosse a hipótese correta, eu não poderia passar mais tempo parado. Continuei minha corrida pelos arrabaldes do cemitério, dessa vez com um olhar um pouco mais aguçado. Estranhava-me que, apesar dos gritos em agonia de cada um dos servos de Oscar que ia ao chão, nenhum dos outros servos ia a seu auxílio, nem mesmo a seu encontro, sobressaltado pelo chamado de seu semelhante. Enquanto andava o mais rápido que conseguia, decepando as pernas e esquivando-me das investidas dos servos de Oscar, que tentavam a todo custo parar-me, vi com o canto de meu olho um mausoléu que se sobressaía ao redor das pequenas capelas fúnebres: era sustentado por uma única alta coluna em sua base, e sobre ela, túmulos expandiam-se como ramos de uma árvore. Ele possuía, calculei, pelo menos o dobro da altura das outras capelas do lugar.

Corri na direção dele, antes de raciocinar que ele ficava em uma área aberta do cemitério, em que eu não teria onde me refugiar. Antes que pudesse perceber, estava cercado por eles, e tive que abrir meu caminho entre talhadas e empurrões. Nem assim, vendo seus companheiros caírem a seu lado, aqueles lacaios mudavam seu curso para atacar-me. A maioria continuava andando em círculos ou em linha reta. Minha maior dificuldade foi derrubar os quatro servos que encontravam-se simultaneamente perto dos degraus de ferro que permitiriam que eu subisse a grande coluna de concreto.

Depois de decepar as pernas de dois deles, rechaçar o terceiro com o cabo de minha espada e, em um rebote da lâmina, decapitar um quarto, comecei a subida que quase esgotou minhas forças. Lá em cima, pude descansar por alguns momentos. Percebi Oscar sobre um dos túmulos, observando calmamente a tentativa de chacina que ele havia instaurado. Tentei novamente despertar entropia ao redor de mim, para tentar identificar o que fora feito daquele material supercondutor, e, focando em meus pensamentos, acabara de descobrir, quase inconscientemente, como Oscar conseguira invocar um exército tão grande em tão pouco tempo. Ele não havia trazido nenhum tipo de alma à tona: aqueles corpos eram tão pouco quanto autômatos, que apenas agiam conforme seus instintos: fome, segurança, medo.

O que confirmou minha descoberta, além da ausência de empatia deles que evidenciava a favor dela, foi o fato de que não havia entropia nenhuma além do mínimo possível para manter o corpo humano funcionando partindo daqueles corpos. Almas são compostas pelo acúmulo de uma quantidade considerável de entropia, geralmente assumem no mínimo um espectro de cor ciano. As cores de uma concentração de energia funcionam análogas ao espectro de ondas de cor, exceto que tons de violeta indicam menores concentrações de energia, e tons vermelhos, maiores. Os servos de Oscar não possuíam nem mesmo um brilho transparente.

Poderia ter sido esta a descoberta que salvou minha vida, não fosse outra coisa que descobri sentindo a entropia do lugar: reconheci, mesmo de olhos fechados a figura me era tão clara quanto se houvesse sido exposta à luz, o círculo que Mefisto usava para concentrar sua energia. Seu traçado de padrões circulares era presente desde as primeiras lendas que eu havia lido sobre o Errante dos Múltiplos Planos, e eu o tinha decorado em minha mente. Mefisto havia passado por aí antes, e deixara sua marca no lugar. Tão logo abri meus olhos, pus-me em pé. Parecia estar apto a lutar contra um contingente dez vezes maior.

– Oscar! Não mais me enganará com seu teatro infantil! – gritei em sua direção.
– Vai saltar daí, ó decrépito Fausto? Se poupar da vergonha de ser morto tirando a própria vida?
– Acreditas mesmo que és capaz de derrubar Fausto com seu exército de autômatos, garoto insolente? Precisará de cem vezes mais do que isso.
– Esses seus gritos não me dizem nada, desça e lute!
– Admito que não estou em condições de lutar fisicamente, mas vais precisar muito mais do que um exército de corpos para derrubar-me. – E depois de bradar, percebi o quão pretensioso havia sido meu discípulo, além de haver traído a confiança do próprio mestre.

A raiva que tomou conta de mim induziu-me a imediatamente carregar o círculo supercondutor de Mefisto. Suas esferas concêntricas entrelaçadas por arcos simétricos eram o círculo mais eficiente de todos em matéria de concentração de energia, círculo que eu tentava replicar desde o início de meu treinamento, inspirado por suas lendas. Em questão de segundos, havia carregado o círculo de Mefisto até o espectro amarelado, não sabia se por minha raiva ou talvez por alguma fonte de energia que ele própria havia deixado naquele cemitério.

– Oscar, confiei em ti tanto quanto pude, mas agora não és mais um discípulo. Fez-te meu inimigo, e não pretendo deixar-te em vantagem.
– Pode vir com tudo o que tem, velho, você não está em condições de lutar.
– Pois saiba, Oscar, que as Artes Ocultas não são simplesmente maquiar cadáveres sem alma. Se é isso que pretendes, poderia fazê-lo em um necrotério.
– Cale a boca e lute como o Fausto que eu imaginava, velho decrépito!
– Lutarei, garoto, lutarei como um verdadeiro ocultista, e não como alguém que manipula meros títeres – e libertei a energia do círculo de Mefisto.

Eu tinha pistas para encontrar, nos planos paralelos, as almas dos corpos reanimados por Oscar. Os próprios corpos ainda eram os melhores indícios. Partindo disso, e com a altíssima reserva de energia entrópica de Mefisto, não foi difícil trazê-las de volta, cada uma das centenas de almas em seu respectivo corpo.

– Oscar, este é o poder das Artes Ocultas. Nós não brincamos com mortos, nós desafiamos a morte, nós renegamos a existência de uma morte – direcionei-me a meus servos, agora totalmente aptos a lutar, e gritei na voz mais altiva que pude – senhoras e senhores, à sua frente está o homem que violou as leis da natureza e tirou vosso corpo de vosso eterno descanso. Mostrem sua gratidão a ele, eu vos ordeno.

Pude ver a fisionomia antes desafiadora de Oscar tornar-se, num lampejo, na expressão de mais puro medo, e desejei compadecer-me dele.

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