XXXI – Da Ressurreição Inferior.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.
XXVII – Do encontro com o Catariano.
XXVIII – De mais dias de calmaria.
XXIX – Da última noite de treinamento de Oscar.
XXX – Da aparição de Mefisto.

Comecei minha descida ao chão uma vez que percebi que Oscar, em meio aos servos que agora obedeciam a mim, estava já subjugado. Aproximei-me dele, que me olhava com um misto de medo e cólera, parecia capaz de matar-me, se tivesse em condições para tal. Como eu desconfiara, Oscar havia trazido de volta tão pouco quanto corpos inertes, usando-se da ressurreição inferior, que como o próprio nome já dizia, era considerada inferior quando comparada à ressurreição de alma.

Isso porque a ressurreição inferior tratava-se de reanimar apenas um corpo físico no plano material, sem nenhum tipo de comunicação com outros planos. Era simples de efetuá-la, bastando restaurar algumas funções cognitivas básicas de uma horda. Servia para produzir um batalhão ostensivo e possivelmente letal com relativamente pouco esforço. O problema dela era que não funcionaria contra usuários mais experientes. Outra coisa digna de que vós saibais, é que esta técnica costumava ser aprendida instintivamente por iniciantes nas Artes Ocultas, em uma falha tentativa de criar servos tão eficientes quanto aqueles com almas.

Por isso, chamávamos Ressurreição Inferior apenas quando era utilizada conscientemente pelo usuário. E pelo medo no rosto de Oscar, ele estava perfeitamente consciente do ponto fraco de sua técnica, além de saber exatamente o que aconteceria caso ele fosse descoberto. E agora, estava cercado pelos corpos que ele mesmo havia preparado para a batalha, porém habitados cada um por sua própria alma, e estavam coléricos com sua insolência. Oscar debatia-se por sua vida.

– Fausto, faça eles sumirem!
– Não és tu o grande mestre dos mortos, Oscar? Ou não treinaste sozinho essa parte?
– Eu vou morrer!
– E não era o que pretendia fazer comigo, jovem? Eu deveria compadecer-me de ti?
– Você está entendendo errado, Fausto!
– Eu entendi o que eu precisava, Oscar. Se quiseres conversar comigo, sabe onde estou.

Virei minhas costas para Oscar e a multidão enfurecida de mortos. Mal eu pude aproximar-me do círculo supercondutor que havia usado para trazer todas as almas à tona, ouvi um estrondo que cortou a muralha de som formada pelos brados incessantes de meus servos. Oscar atirava contra eles com uma pistola, numa tentativa ignóbil, exceto por tiros que danificavam o cérebro dos servos, de defender-se. Horrorizava-se cada vez mais ao começar a entender que não se podia matar quem já era morto.

Sentia minhas pernas cansadas, e minhas costas doíam, provavelmente da escalada. Contei exatos doze tiros disparados pela pistola de Oscar, normalmente elas não possuem além disso, e depois preparei-me para exilar as almas de volta aos planos paralelos. Oscar estava indefeso, e eu deveria fazê-lo em nome da honra entre os usuários das Artes Ocultas, antes que minha energia acabasse. Juntei o resto da entropia do círculo de Mefisto, expandi minha energia até a massa de corpos, e consegui, sem uma quantidade tremenda de esforço, exilar todas as almas que ali estavam, exceto por mim e por Oscar. Apesar disso, mal conseguia me manter em pé ao terminar, havia muito tempo que não lutava naquele ritmo. Além de fora de forma, eu estava despreparado.

A fisionomia de Oscar tornou-se menos grave. Ele andava por entre os corpos, em minha direção. A energia do círculo de Mefisto havia esgotado-se completamente depois do exílio em massa. Ele vinha até mim, com um meio sorriso. Apesar de sentir-me fraco, pretendia qualquer coisa menos ser subjugado, e acreditava que ele não mais seria audacioso àquele ponto.

– Vais tentar algo além disso, ingrato Oscar?
– Não pensei que fosse te ver nesse estado, mestre. A gente já sabe quem é o melhor por aqui.
– Atacaste-me covardemente com uma técnica de pouco valor, e se eu não tivesse interrompido meu contra ataque, já estarias morto. De fato, sabemos quem é o melhor entre nós.
– O melhor é quem não tá a ponto de perder o chão depois da luta.
– Continue acreditando ser o melhor Oscar, mas ainda não me convenceste. Ademais, tenho certeza que não aprendeste esta técnica sozinho. Não em tão pouco tempo, não de forma honesta.

Oscar recuou alguns passos. Seu olhar novamente era assustado, eu começava a desconfiar que ele não havia simplesmente descoberto aquele modo de utilizar as Artes Ocultas. Talvez ele tivesse algum contato de outra sorte, alguém que iniciasse-o em um modo impuro de fazer uso das Artes, paralelamente a meu treinamento.

– Oscar, ninguém progride tanto em tão pouco tempo, e de forma honesta, como eu já disse. Resta a ti que assuma o que fez, e talvez poderei pensar em perdoar-te e aceitar-te como meu pupilo novamente.
– Não quero mais que você me ensine, Fausto. Não confio num mestre que esconde de seus discípulos.

Tive certeza, neste momento, de que Oscar estava sob a tutela paralela de algum outro mestre, e que o dito mestre provavelmente não possuía um senso muito correto de ética. Afinal, ninguém ensina a Ressurreição Inferior em tão pouco tempo. Oscar enfiou a mão em um bolso, e, com sua mão livre, sacou outro revólver. Apontou diretamente a mim, no mesmo gesto que havia usado para tirá-lo.

– Se você é o verdadeiro Fausto, o Fausto que possui força bruta suficiente para derrotar qualquer outro bruxo nesse mundo, defender um tiro não vai ser transtorno nenhum para você.

Eu conseguia ouvir a respiração trêmula, transparecendo em sua fala arrítmica. Conseguia ouvir o ruflo do vento das plantas que ficavam nas proximidades do cemitério, conseguia ouvir passos ao longe. Tive a certeza de conseguir ouvir, também, o som da bala entrando na agulha antes que fosse disparado um tiro contra mim. Afirmo-lhes que, embora aparente ser um fator quase teatral, pude ver o movimento decidido do dedo de Oscar no gatilho do revólver, antes de fechar meus olhos por puro instinto. Nem mesmo as Artes Ocultas podem defender o frágil corpo humano contra o poder de uma arma de fogo, ainda mais quando atacado covardemente.

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