XXXII – De um conveniente encontro.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.
XXVII – Do encontro com o Catariano.
XXVIII – De mais dias de calmaria.
XXIX – Da última noite de treinamento de Oscar.
XXX – Da aparição de Mefisto.
XXXI – Da Ressurreição Inferior.

Pude ouvir, de olhos fechados, um barulhento estrondo cortando o silêncio da noite. Ao mesmo tempo, um clarão acendeu-se diante de mim, de modo que se meus olhos estivessem abertos, provavelmente minhas retinas teriam queimado. Poderia jurar que não encontrava-me mais no plano material, e quase temia por minha alma, em sua falta absoluta de energia, quando percebi que minhas pernas ainda doíam e meu corpo ainda parecia mais pesado do que elas suportariam.

Era o mais claro sinal de que eu estava vivo. Covarde como fui, abri meus olhos devagar, apenas para dar de cara com uma espécie de barreira, pouco maior do que a bala cujo alvo era eu. Parecia, a barreira, feita de pura luz, apesar de seu brilho alaranjado pouco lembrar o grande clarão que havia passado anteriormente de fronte a meus olhos. Fosse obra do próprio acaso, fosse algum bendito interventor, eu havia sido defendido.

Saí de trás da barreira, ainda com medo que ela fosse desfazer-se, tornando o tiro a encontrar seu alvo principal. Avistei, à minha frente, ninguém menos que Oscar. Suas duas armas, uma para cada uma das mãos, estavam no chão, mas o maior impacto visual era com certeza causado pelo próprio Oscar.

O garoto estava desfalecido, suspenso no ar. Suspenso por grossas correntes trançadas que saíam do chão. Haviam cinco tranças: uma em cada um de seus pulsos e tornozelos e uma entrelaçando-lhe a cintura e terminando em volta de seu ombro, a poucos centímetros do pescoço. Aquele modo de utilizar as correntes, eu havia reconhecido no mesmo momento, embora ainda me recusasse a acreditar no que via.

Não havia engano: usar técnicas de enforcamentos com correntes que brotavam da terra era algo extremamente original, mesmo o campo das Artes ser extremamente intuitivo, talvez até previsível. A única pessoa que eu vira usando este tipo de técnica fora também a última pessoa que eu havia tido a honra de ensinar.

– Margarida! – gritei, mesmo sabendo ser improvável que ela estivesse naquele lugar. – Que bom que vieste!

Mesmo pensando que não receberia em hipótese alguma qualquer tipo de resposta, surpreendi-me ao enxergar um traço de movimento com minha visão periférica. Quando virei-me tentando enxergar quem fazia tal movimento, tive a última prova da qual precisava.

– Eu bem que avisei ao Plínio que não deveríamos esperar uma festa de recepção.

Era Margarida, a quem eu havia ensinado logo antes de Oscar, e, de todos os pupilos que cheguei a ter, a pessoa em quem eu depositava maiores expectativas. Mas não estava só: ao seu lado, estava aquele que havia tirado minha calma em primeiro lugar, que havia feito-me lembrar o que era o medo. Trazia, acompanhando-a, o homem de monóculo, de recorrente aparição em minha vida nas semanas anteriores. O mesmo homem de monóculo que agora estendia a mão amigavelmente a mim.

– Prazer, senhor Fausto, Margarida falou muito de você. Me chamo Plínio, e fico feliz de ter chegado a tempo.
– Eu esperava te encontrar com um pouco mais de dignidade – falou Margarida, em seu habitual tom quase zombeteiro, e sua habitual característica de manter o bom humor qualquer que fosse a situação.
– Olá Margarida, é um prazer, Plínio. Permitam-me perguntar como encontraram-me, em primeiro lugar.
– Pois é, mestre – ela acentuou a palavra mestre de um jeito quase sarcástico – teria sido mais fácil se você não tivesse marcado um compromisso na noite que eu avisei que estaria chegando.
– Avisaste-me, Margarida? Não fiquei sabendo de tua chegada de modo algum.
– Com certeza, mas desculpe, esqueci que o todo poderoso Fausto não precisa ser comunicável. Você deixou de receber cartas também?
– Não recebi carta alguma além das contas referentes à minha casa, Margarida. Caso tivesse recebido, haveria feito maiores preparativos para tua visita.
– Quanto tempo faz que você não busca correspondências, Fausto?
– Oscar buscou-as para mim há umas duas semanas, e não havia nada lá além de contas.
– Oscar é esse cara que te atacou? É, tá tudo explicado, eu te perdoo, Fausto. O Plínio tem algo a te dizer também.
– Plínio! Quero que saibas, antes de tudo, que alguém semelhante ao senhor trouxe-me receios imensuráveis durante esse pouco tempo.

Mal terminei de pronunciar tais palavras, ambos desataram a gargalhar. Provavelmente o objeto da chacota seria eu, mas resolvi não manifestar-me até que ambos decidissem parar de rir.

– Meu caro Fausto, peço desculpas se te assustei. Acreditei que deixar-te sozinho em uma área com uma manifestação de entropia tão grande quanto essa não seria uma boa decisão, então mantive um olho em você.
– Não entendo, eras realmente tu que vi partir no mesmo navio de Margarida?
– Sim, meu caro. Acontece que nós da Nobreza nos preocupamos com os nossos companheiros ocultistas.
– Nobreza? Então és um usuário das artes nobres?
– Ao seu dispor, Fausto.
– Então o que usaste para seguir-me era uma mera projeção astral, suponho?
– Para entender o que era, Fausto, você deveria antes estudar a fundo as Artes Nobres. E eu realmente espero que você o faça. Mas de fato, usei uma espécie de projeção astral para chegar até sua área.
– E por isso eu não era capaz de interagir com você.
– Exatamente, minha projeção encontrava com você, mas não podíamos conversar porque ela se limitava à visão.
– E como me defendeste?
– Aquilo foi uma simples barreira de energia. Como você deve saber, as Artes Nobres trabalham com energia pura. Não é a técnica mais eficaz, mas foi o que eu consegui fazer naquele pouco de tempo.
– Rapazes – Margarida interrompeu nossa conversa – vocês não acham melhor deixar para conversar amanhã? Daqui a pouco já vai ser dia, e temos uma bela bagunça para limpar. Inclusive aquela aí – apontou para Oscar, ainda inconsciente.

Concordamos em adiar nossa conversa, e, com um pouco de energia proveniente do bondoso Plínio, realizei uma purificação em Oscar. Depois, com a ajuda deles, desci-o da prisão de correntes de Margarida, e, com Oscar sempre sendo vigiado, fizemos o melhor que podíamos para honrar a memória dos que foram trazidos à tona por Oscar em seu ataque, cujos motivos ainda eram um mistério.

Mesmo exausto por causa da luta, e visando apenas um banho quente e um bom descanso assim que chegava em casa, sentia-me revigorado. Desconfiava que o motivo que os trazia de volta à minha cidade, até mesmo pelo fato de Margarida ter adiantado seu retorno, era no mínimo sério, mas não conseguia me preocupar com isso agora. Margarida estava de volta, eu não mais deveria treinar Oscar – e admito que sentiria um pouco sua falta – e eu havia descoberto que meu maior suposto inimigo era na verdade um grande aliado.

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