XXXIII – Dos motivos da vinda de Plínio.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.
XXVII – Do encontro com o Catariano.
XXVIII – De mais dias de calmaria.
XXIX – Da última noite de treinamento de Oscar.
XXX – Da aparição de Mefisto.
XXXI – Da Ressurreição Inferior.
XXXII – De um conveniente encontro.

A caminhada de volta à minha casa foi tranquila: o suprimento de energia que me foi dado por Plínio foi suficiente para que eu conseguisse, sem maiores dificuldades, completar o percurso. Plínio carregava o corpo inconsciente de Oscar em suas costas, sem dificuldade alguma. Margarida, expansiva e simpática como era, não deixava que a conversa parasse em momento algum.

Contava-me de sua viagem, logo no início da qual encontrou Plínio, o homem de monóculo, e de como sua estadia fora interrompida justamente pelo tipo de energia que Plínio foi capaz de sentir – fora o tato, seus sentidos compunham tudo que suas projeções astrais poderiam emprestar-lhe – proveniente de Oscar, e de como, depois de postar a carta a partir do outro continente, de modo que ela fosse entregue o mais rápido possível, os dois já começavam seus preparativos para a viagem de volta.

Deveriam ter chegado antes, disse Margarida, mas o voo de ambos acabou por atrasar. Margarida contou-me de como gostara de ter viajado de avião, e pretendia repetir a experiência, e continuamos conversando sobre banalidades e assuntos corriqueiros até ser mencionado Mefisto.

– Ei Fausto, quem era aquela pessoa que tava na sua casa? Parecia um bom partido para mim.
– Garanto que ele já tem uma idade avançada demais em relação à sua. – eu rebati, rapidamente, o comentário de Margarida.
– É mesmo? Ele parecia extremamente jovem.
– Eu tenho estudado Artes Ocultas desde quando a caça às bruxas era nada mais do que uma rotina, e nem por isso aparento ter centenas de anos, Margarida.
– Então – Plínio adiantou-se na conversa – sua própria discípula não foi capaz de reconhecer aquele que nos recepcionou? Achei que ele fosse quase um deus para vocês das Artes Ocultas.

Devo clarificar que tanto por parte dos que dominavam as Artes Nobres quanto por nossa parte, usuários das Artes Ocultas, era nutrida uma espécie de rivalidade. Talvez rivalidade não descrevesse bem a relação, nos dias de hoje, mas o fato é que desde o início, as Artes Nobres atuam no plano material, enquanto as Artes Ocultas dedicam a maior parte de seus estudos aos planos paralelos. Assim, era intuitivo que, apresentando resultados físicos, as Artes Nobres ganhassem bem mais destaque no mundo. Enquanto grandes magos arcanos, alquimistas e vários curandeiros usam-se das Artes Nobres, e usam-se de modo que seus feitos sejam cantados e laureados, as Artes Ocultas restringiram-se a poucos estudantes e interessados, e nem é comparável a difusão dela com a Nobreza.

– Nossos deuses mantém-se em planos mais avançados do que a terra, provavelmente seja por isso. Margarida, o homem que recepcionou vocês dois lá em casa é o Errante dos Múltiplos Planos, mas prefere ser chamado de Mefisto por enquanto.
– O Errante dos Múltiplos Planos? – Margarida exclamou, aparentando surpresa – Aquele mesmo Errante das histórias que você contou?
– Exatamente.
– E por que diabos ele foi parar logo na sua casa?
– Eu o invoquei.
– Como um… você pode simplesmente invocar… o Errante dos Múltiplos Planos?
– Qualquer um pode, Margarida. Depois de nosso último encontro, eu soube onde ele estava enterrado. E havíamos feito um informal pacto de colaboração, ele me havia dito que quando precisasse, bastaria chamá-lo.
– Deixa eu ver se entendi… Você, Fausto, invocou o Errante dos Múltiplos Planos e ele agora é seu colega de quarto?
– Quase isso, minha cara. Na verdade, chamei-o por…
– Você pode invocar o Errante só por estar se sentindo sozinho? – Margarida falava em tom de indignação, porém sua face ostentava um largo sorriso.
– Não foi só por isso. Mas acho melhor que ambos conversem assim que chegarmos em casa, e deves saber que não estamos tão longe dela, minha cara.
– Eu lembro desse caminho, Fausto. E não vejo a hora de conversar com o Errante.

Margarida continuava, mesmo enquanto permanecia quieta, a irradiar empolgação com o que possivelmente estaria por vir. Plínio dirigiu a palavra a mim, depois de aguardar pacientemente o fim do diálogo entre mim e Margarida.

– Fausto, acho que tenho que te falar isso logo. Não sei se você sabe, mas sua segurança não é o único motivo para eu ter me projetado e agora estar aqui.
– Eu suspeitei, caro Plínio. Afinal, alguém da nobreza deve ter muitos afazeres além de proclamar seus feitos.
– Vou responder a isso com mais calma, quando não tivermos coisas sérias para discutir.
– Pois diga, o que te trazes até mim?
– Fausto, você sabe que esse lugar é historicamente afetado por vários conflitos, desde muito tempo atrás. Então qualquer movimentação de entropia maior do que o normal nos direciona para cá. Pois bem, eu detectei uma variação imensa por esses últimos dias, achei que deveria averiguar.
– Certo, e porque isto seria preocupante? Quero dizer, a entropia está em constante variação no universo inteiro, por que haveria de tirar sua calma justo este pacato lugar?
– Porque existem Catarianos por aqui, Fausto. E ainda não sabemos o que os Catarianos fazem, porém sua intuição nunca falha. Talvez precisassem de ajuda, mesmo que o clã dos Catarianos esteja forte como não era fazia muito tempo. Eu vim para ser útil em alguma coisa, ou pelo menos saber o tamanho do inimigo.

Chegávamos perto de minha casa. Plínio não parecia saber ao certo o que estava por acontecer, mas desde já demonstrava preocupação, preocupação que também acabava por me afligir.

– Já tens algum palpite sobre quem está por trás desta variação, Plínio?
– Não tenho nenhuma ideia formulada, Fausto, mas provavelmente é um ocultista que não segue os mesmos códigos de ética que você. E possui uma quantidade tremenda de energia.
– Existem chances de estarmos lidando com um dos… – um calafrio percorreu minha espinha – descendentes da Cruz Fumegante?
– Sinceramente, Fausto, eu não sei. Mas não descarto a possibilidade, pelos motivos que recém falei pra você.

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