XXXIV – Da volta de Margarida.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.
XXVII – Do encontro com o Catariano.
XXVIII – De mais dias de calmaria.
XXIX – Da última noite de treinamento de Oscar.
XXX – Da aparição de Mefisto.
XXXI – Da Ressurreição Inferior.
XXXII – De um conveniente encontro.
XXXIII – Dos motivos da vinda de Plínio.

Andávamos, após o que Plínio havia falado, apreensivos. Não tínhamos certeza alguma sobre o que estávamos prestes a enfrentar. Não tardou para que chegássemos até minha casa, onde Plínio, que até agora carregava o inconsciente Oscar em seus ombros, finalmente tornou a falar.

– Fausto, Margarida, creio que nos separaremos por aqui. Preciso levar o garoto até o hospital mais próximo, que já tive a oportunidade de saber onde fica ontem. Vou ligar para você, para avisar em que quarto o garoto vai descansar.
– Boa sorte, Plínio. Se perguntarem, diga que ele teve um desmaio. Aqui está meu telefone – e entreguei-lhe um dos cartões de visita, ainda com meu nome falso. Se o encontrassem, eu não estaria comprometido.
Estava novamente em casa com Margarida. Definitivamente, eu não pensava que isso fosse voltar a ocorrer tão logo. De qualquer jeito, chamei-a para entrar, escoltados por cinco ou seis gatos, incluindo o cinzento que sempre esteve presente por minha varanda, já famintos apesar do sol ainda nem ter insinuado o início de seu ciclo. Apresentei-lhe novamente a casa, com a diferença de que ela encontrava-se mais bagunçada do que no início. Mefisto trabalhava em seu circuito, dessa vez na sala de casa.
– Saudações, Fausto! Bem vinda de volta, honrada moça cujo nome ainda não sei.
– Não sabe, Mefisto? Achei que tivessem se conhecido.
– Bem, quase conhecemo-nos ontem, Fausto. Essa moça chegou, junto com seu companheiro da Nobreza, parecendo muito apressada há algumas horas. Perguntou de você, caro Fausto, e percebendo seu afobo, resolvi que seria melhor informar onde você estivesse e me contentar sem nenhum tipo de explicação.
– Desculpe, senhor…
– Perdão, não os apresentei. Mefisto, esta é Margarida, minha última discípula antes de Oscar. Fizeste bem em confiar nela. Margarida, esse é Mefisto – ele dirigiu-me um olhar atravessado – perdão, esse é o Errante dos Múltiplos Planos, e tem sido uma valorosa companhia nos últimos dias.
– É um grande prazer conhecer você, caro Mefisto. Fausto me falou muito de você durante meu treinamento. Deixa eu perguntar uma coisa, como sabia que Plínio era da nobreza?
– Eu sei reconhecer um mestre das Artes Nobres quando vejo um. Mas tal resposta provavelmente não satisfaz tua curiosidade, Margarida, então vou dizer-te: Sentia uma forte aura irradiando dele, desde a primeira vez que o vi, em forma de projeção astral.
– Mefisto – interrompi – então sabias desde o começo que o homem de monóculo, Plínio, não me faria mal algum?
– E foi o que eu te disse, Fausto. Que não deverias temê-lo, que ele tinha boas intenções.
Mefisto agora olhava-me, sorrindo como se finalmente estivesse satisfeito. Posso garantir-lhes que sentia-me embasbacado, meramente por não possuir a mesma capacidade de raciocínio que meu amigo possuía. Eu devia ter imaginado que o homem de monóculo era uma projeção astral, e devia ter acreditado quando Mefisto disse que não me faria mal.

– Você realmente merece sua reputação, Mefisto – disse Margarida, em seu invariável tom descontraído, mas visivelmente impressionada.
– Moça, qualquer um que tivesse o tempo que eu tive haveria de adquirir tamanho conhecimento. Mas por hora, gostaria de igualmente perguntar-lhes: qual foi o andamento da situação no cemitério? Vejo, Fausto, que suas roupas estão tornadas em frangalhos, mas teu espírito parece jovem como há muito eu não via.
– Posso afirmar-te, Mefisto, que se não fosse a energia que Plínio emprestou-me, eu estaria tanto em frangalhos quanto minhas roupas. E se não fosse tua ajuda e a conveniente chegada de Margarida, duvido que eu pudesse estar contando-te tal história agora.

Mefisto assumiu um tom mais grave.
– O velho Fausto? Em muito duvido. O que aconteceu naquele cemitério?
– Oscar subjugou-me com algum tipo de ressurreição inferior, depois quase matou-me com uma arma de fogo. Nem mesmo o velho Fausto possui a pele blindada, meu caro.
– Não é possível. Então de nada adiantou aquele círculo de energia que deixei-te, Fausto?
– Ora, adiantou-me mais do que imaginas. Com ele, fui capaz de invalidar sua técnica de ressurreição impura, trouxe de volta todas as almas dos corpos que ele havia roubado. Mas cometi o deslize de exilá-las novamente antes que matassem Oscar, antes tivesse-as deixado.
– Para que digas isso de teu próprio pupilo, algo muito ruim deve ter acontecido.
– Pois bem, contei doze tiros da pistola que ele usava para defender-se dos meus reconquistados servos antes de desfazer a técnica. Mas ele tinha outra arma escondida, e não fosse a atuação rápida de Plínio e Margarida, eu teria sido baleado por ele.
– Quer dizer que o velho Fausto quase foi superado por um de seus discípulos.
– Eu não estava pronto para ser atacado, Mefisto. Aliás, permita-me perguntar-te, por que havia um de teus círculos especificamente naquele cemitério?
– Ora, quando voltava caminhando de uma de minhas expedições, vi Oscar treinando em um dos cemitérios. Alguma coisa não parecia certa naquilo, e eu ouvi antes que vocês voltariam a treinar nele em algum tempo, então achei melhor prevenir-te, Fausto, e deixar minha marcação nos três cemitérios das redondezas.

Mefisto provou ser um melhor estrategista do que eu poderia sonhar em ser se tivesse o dobro de seu tempo de estudo. E graças a ele, eu havia sido salvo. Deixei Mefisto e Margarida conversando na sala enquanto banhava-me, e após meu banho, decidi simplesmente dormir. Àquele ponto, se não o fizesse voluntariamente, eu acabaria tornando a fazê-lo em algum horário aleatório de meu dia.

Acordei um bom tempo depois, já devia ser quase meio dia. Quando desci de meu quarto, além da casa bem cuidada tal qual ela costumava deixar antes de ir embora, vi Margarida analisando cuidadosamente os circuitos de Mefisto. Parecia estar fazendo algum tipo de teste, antes de conectá-lo à eletricidade. Quando me viu, Mefisto logo avisou-me de que Plínio havia ligado, e disse que viria até nossa casa no dia seguinte, pelo início da tarde. Disse também para não preocupar-me com Oscar. Mefisto também lembrou-me que no dia seguinte nos encontraríamos com o Pastoreio, e que talvez Plínio fosse uma companhia interessante a ser levada.

Concordei com ele em ambos os aspectos, e ele disse que pedira a Plínio que chegasse à casa um pouco antes. Apresentou sua máquina já pronta, e disse que só faltava ajustar a frequência de energia que seria por ela captada, e nisso Plínio o ajudaria no dia seguinte. Seria algo a mais para usarmos a nosso favor.

Nada fiz de relevante pelo resto do dia: ouvi Margarida contar sobre sua viagem, mostrei a ela os dois documentos que haviam sido traduzidos pelo Errante, e tornei à minha habitual caminhada ao fim da tarde, quando encontrei o maior número de gatos reunidos em minha porta até então: haviam dez deles. O dia seguinte seria cheio, e eu deveria estar descansado nele, portanto, logo recolhi-me, após preparar uma acomodação improvisada para Margarida na sala de casa.

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