XXXV – De diálogos esclarecedores.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.
XXVII – Do encontro com o Catariano.
XXVIII – De mais dias de calmaria.
XXIX – Da última noite de treinamento de Oscar.
XXX – Da aparição de Mefisto.
XXXI – Da Ressurreição Inferior.
XXXII – De um conveniente encontro.
XXXIII – Dos motivos da vinda de Plínio.
XXXIV – Da volta de Margarida.

Margarida não desejou acompanhar-me em minha caminhada da manhã seguinte, antes de irmos ao encontro de Lúcio na biblioteca. Lúcio, de lá, nos levaria até o Pastoreio para que conversássemos. Ao retornar da caminhada, encontrei ela acariciando os gatos que já esperavam para receber sua dose matinal de ração. Entrei em casa, e voltei à varanda com o alimento dos pequenos inquilinos que lá eram presença confirmada.

Quando voltei a entrar em casa, após deixar uma dose generosa de comida para os gatos que agora eram em mais número, Margarida entrou atrás de mim.

– Fausto, você foi atacado perto de casa?
– Fui, mas não acredito que isto tenha sido importante.
– Se não fosse seu amigo, você talvez nem tivesse levantado. Que tipo de arma foi usado contra você?
– Era um dardo eletrificado. Acertaram minha espinha vertebral, a ideia do dardo provavelmente não era essa, mas eu estava de costas.
– Bom, é nessas horas que você tem que agradecer por ter amigos.
– Amigos?
– É fácil ganhar a amizade de gatos, é só dar comida e um lugar pra dormir. Mas não era esse meu ponto.
– E qual seria seu ponto?
– Meu ponto é que seu amigo me disse quem foi que te atacou.

Margarida sempre havia gostado de animais, da natureza em geral. Eu sabia que ela podia acalmar qualquer animal que estivesse incomodado por qualquer motivo que fosse. O que eu nunca soube, ou nunca havia percebido, é que ela estabelecia algum tipo de comunicação com eles. Por isso, em primeira instância, fiquei sem entender o que ela havia dito.

– Disse? Como um gato fez para dizer-te, Margarida?
– Dizer não é a palavra certa, porque a comunicação dos bichos não funciona com palavras, como a nossa. Mas eu sei quem te atacou, na verdade, eu reconheceria essa pessoa se ela aparecesse na minha frente agora mesmo.
– E quem era essa pessoa?
– Como eu disse, Fausto, os gatos não usam palavras como a gente. Mas ele descreveu essa pessoa: Era uma moça de porte alto, constituição esguia e cabelo de cor brilhante.

Eu não lembrava de ter visto alguém assim recentemente, talvez pela descrição de Margarida ser um tanto quanto genérica. Resolvi que não adiantaria saber quem estava por trás daquele ataque, não por enquanto. Mefisto saiu de seu quarto pela primeira vez na manhã e perguntou quando Plínio chegaria. Disse-lhe que provavelmente logo após o almoço, que não tardaria a preparar.

E mal terminei de dizê-lo, fui preparar algo para comermos. Havia pouca carne e alguns cereais, que eu cozinhei com a supervisão de Margarida. Antes de almoçar, Mefisto transportou sua máquina, agora compacta, para a sala de casa. E mal pudemos terminar os afazeres da cozinha antes que a campainha tocasse. Abri a porta, e, previsivelmente, era Plínio que lá estava. Convidei-o a entrar.

– Bom dia, senhores. Antes de tudo, Oscar está sob controle. Ainda não acordou, e está sendo medicado. Parece que o esforço foi muito grande para o que seu corpo conseguiria aguentar.
– Muito obrigado pela dedicação, Plínio. Ele está sob vigilância?
– Deixei uma projeção naquele quarto, acho que já é suficiente. Ele nem deve acordar por hoje, ainda.
– Pois isso é ótimo. Que horas iremos ao Pastoreio, Mefisto?
– Não muito tarde. Assim que Plínio, se tiver a bondade, terminar de me ajudar com o que tenho feito nos últimos dias.
– Diga, Mefisto, em que posso te ajudar?
– Eu tenho trabalhado neste projeto, talvez ele seja um tanto ambicioso, concordo. Mas se meus parvos conhecimentos em eletrônica permitiram-me, isto à sua frente é um detector de entropia.

A máquina de Mefisto agora não parecia muito diferente de um televisor comum. Alguns fios saíam de seu interior e acoplavam-se a uma espécie de painel de controle, com alguns botões. Tirando-se tal painel e algumas batidas e pequenos reparos na caixa que envolvia os circuitos, poderia, sim, ser facilmente confundido com uma televisão comum.

– Hum, é sim, ambicioso. E como ele funciona?
– Pois bem, impressionei-me com essa televisão, até entender seu princípio: Ela capta certos tipos de onda e os reproduz visualmente. O que fiz foi basear-me em seus circuitos para criar um aparelho que captasse variações de entropia através de sua frequência e tornasse-a em uma reprodução gráfica, para que pudéssemos analisá-la e talvez encontrar sua origem.

Eu me impressionava com a eficiência de Mefisto: não menos por construir um aparelho daquele calibre, mas principalmente por sua facilidade de aprender sobre circuitos a partir de nenhum conhecimento prévio, e ainda por cima de dobrar o conhecimento a seu favor.

– Entendi, mas eu infelizmente não entendo sobre eletrônica, senhor Mefisto.
– E não tem necessidade nenhuma de entender, Plínio. O que tenho a pedir-te é que libere um pouco de sua energia, e assim poderei calibrar meu aparelho.
– Ah, então posso sim, ajudar você.
– Pois bem, quando eu avisar, libere um pouco da energia mais pura, mais básica que conseguir.
– Entendi. Estou pronto, quando quiser.

Mefisto logo deu o comando, e, naquele momento, projetou-se a partir da mão de Plínio um pequeno clarão, que seria totalmente translúcido, não fosse por seu próprio brilho torná-lo branco. O Errante mandou-lhe que parasse assim que terminara seu processo, e Plínio obedeceu seu comando.

– Obrigado, Plínio. Agora, se puderes, mostre-me a quantidade mais sutil possível de energia, dentre milhares de impurezas.
– Essa é um pouco mais complicada, caro Mefisto, mas tentarei.

Novamente Mefisto deu-lhe um comando, e Plínio liberou sua energia, mas de forma diferente desta vez. Pequenos pontos na atmosfera de minha sala de estar entraram em combustão espontânea, enquanto o ar começava a agitar-se em outros pontos. Por fim, eu via a umidade do ar solidificando-se em gelo em pontos ainda distintos. Mefisto girou um dos botões de seu painel de controle até parecer satisfeito e sinalizou que já era suficiente, interrompendo o pequeno espetáculo visual em que havia se tornado o ar de minha sala.

– Já está ótimo, caro Plínio. Impressiono-me com sua capacidade de manipulação de energia no plano material, é isso que estuda-se em teu ramo?
– Ora, foi apenas um pequeno truque, senhor Mefisto. Acho que você poderia fazer bem melhor do que isso, se ao menos tivesse escolhido seguir com as Artes Nobres.
– Já sei o suficiente delas, Plínio, mas não desconsiderarei de todo seu convite.
– Seria uma honra para a gente. Agora, senhores, o que faremos?
– Temos um encontro marcado, eu e Fausto, com o Quinto Pastoreio dos Catarianos, e achamos relevante se você, Plínio, nos acompanhasse, junto com Margarida.
– Vou acompanhar vocês com prazer. Não é todo dia que o Pastoreio resolve conversar diretamente com nós de outros ramos.

E, depois de Mefisto trocar suas roupas de trabalho e vestir-se adequadamente, saímos em direção à Biblioteca, de onde Lúcio nos levaria até o lugar onde o Pastoreio estava assentado no momento.

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