XXXVI – Do encontro com o Pastoreio.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.
XXVII – Do encontro com o Catariano.
XXVIII – De mais dias de calmaria.
XXIX – Da última noite de treinamento de Oscar.
XXX – Da aparição de Mefisto.
XXXI – Da Ressurreição Inferior.
XXXII – De um conveniente encontro.
XXXIII – Dos motivos da vinda de Plínio.
XXXIV – Da volta de Margarida.
XXXV – De diálogos esclarecedores.

Caminhávamos, já passava da metade da tarde, até a biblioteca onde Lúcio nos esperaria. Conversávamos futilidades quaisquer, ninguém estava visivelmente preocupado, ou pelo menos todos disfarçávamos muito bem a preocupação.

Chegamos ao lugar antes que escurecesse, e ele nos esperava do lado de fora do arquivo, no que era agora o salão principal da biblioteca. Diferente do que eu imaginava , sendo que não havíamos marcado um horário, ele não parecia muito preocupado com a hora de nossa chegada.

– Sejam bem vindos, Fausto e Mefisto. Os outros dois eu não conheço, mas acredito que vieram pela honra de conversar com o Quinto Pastoreio?
– Vieram sim, Lúcio, espero que não haja problema – Mefisto falou.
– De modo algum, meu senhor se sentirá honrado.
– Muito bem. Esses são Plínio, mestre das Artes Nobres, e Margarida, usuária das Artes Ocultas.
– Eu diria estudante – Margarida manifestou-se, sorridente.
– É sempre um prazer conhecer um dos Catarianos – disse Plínio.
– Me chamo Lúcio, e fico feliz em conhecer vocês. Agora, se vocês não se importarem, devemos ir andando. Logo escurecerá, e não seria bom que atrasássemos o jantar.

Concordamos, e partimos em uma caminhada não tão longa até uma estrada que deixava a cidade. Depois de não muito tempo caminhando opostos à pequena cidade,chegamos a um lugar onde a estrada ramificava-se: Além da via principal, havia um caminho de terra, típico do interior da pequena cidade.

Andamos mais um pouco por aquele caminho, até chegarmos a uma encosta, perto da qual haviam pequenas casas de madeira . Próximas às casas, haviam algumas pequenas hortas, e uma grande pastagem ressecada cercava o local. De todos os lugares que eu poderia imaginar como ocupações Catarianas, aquele era o último deles.

Conforme nos aproximávamos, éramos olhados com curiosidade por algumas pessoas mais jovens que lá estavam. Não vi mais de cinco delas fora das casas, todas com o cabelo rubro, de matizes levemente diferentes, mas todos eram vivazes e brilhantes. Fomos conduzidos até a maior casa entre elas, que possuía tão pouco quanto uma porta e uma janela, visíveis a partir de seu exterior.

Ao entrarmos na casa vimos uma figura imponente ostentando longos cabelos, já sem o brilho que se via nos mais jovens, porém ainda assim de uma vermelhidão que impressionava. O que mais chamava atenção na figura era a simplicidade com que se vestia e portava em geral: Usava um longo manto de tecido cru, e sentava-se em uma almofada no chão, ao redor de outras almofadas dispostas em ordem circular. Usava uma grande vela para observar o que parecia um escrito antigo, e assim que ouviu-nos entrando em seu recinto, interrompeu sua leitura e fixou seu olhar em nossas faces, como se esperasse que seus olhos se acostumassem à escuridão que era o cômodo longe da vela.

Depois de analisar-nos por um tempo que pareceu razoável a ele, colocou de lado seu escrito e convidou-nos a sentar nas almofadas a seu redor. Quando já estávamos sentados, ele levantou e acendeu algumas velas antes invisíveis que estavam nas paredes da sala. Pudemos ver, nas mesmas paredes, agora iluminadas de um modo aconchegante, tapeçarias que pareciam contar algum tipo de história. Eram legendadas com os mesmos caracteres do escrito que Mefisto havia traduzido.

– Bem vindos, senhores. Espero que entendam que os Catarianos não possuem luxúrias para oferecer. Porém, fazemos questão que desfrutem de nossa hospitalidade da melhor maneira possível enquanto por aqui. – O homem falava sem mover um músculo além de sua face, mas possuía uma expressiva voz, que ressoava nas paredes de madeira da pequena sala. Ao mesmo tempo, sua voz me era familiar, embora em nada lembrasse a do jovem que eu havia confrontado há vários anos.
– Agradecemos sua hospitalidade, Pastoreio. Me chamo Mefisto, acredito que já nos conhecemos.
– Chamo-me Fausto – eu disse, entendendo que deveria me apresentar antes de tudo – e é um prazer reencontrá-lo em uma situação onde somos aliados, Pastoreio.
– Sou Plínio, mestre das Artes Nobres. Acompanho Fausto desde pouco tempo, e me coloco à sua disposição.
– Eu sou Margarida, estudante das Artes Ocultas, e estudei sob a tutela de Fausto. É um prazer conhecê-lo.

O Pastoreio tomou alguns segundos para analisar a todos nós calmamente, agora sob uma luz mais forte do que anteriormente. Começava a perceber que aquele homem de espírito anteriormente impetuoso agora havia tornado-se um valoroso líder. Afinal, a liderança entre os Catarianos era uma mera opção: não seria eleita a menos que houvesse alguém capacitado o suficiente para assumi-la. Caso contrário, eles organizavam-se tão bem quanto o fariam tendo um líder. De todas as sociedades que já emergiram, acredito que os Catarianos são a mais organizada delas.

– Lúcio havia me falado sobre um grupo de cavalheiros excepcionais que viriam até mim. Mas nem no meu desejo mais otimista eu poderia imaginar grupo mais agradável do que vocês que se apresentam agora. Sejam bem vindos, eu sou o Quinto Pastoreio dos Catarianos.
– E parece cumprir muito bem essa função – disse Mefisto.
– Tenho certeza que não poderia cumpri-la se não fosse sua consideração e a do senhor Fausto.
– Pois – respondi – nada além de sua determinação o permitiu chegar até aqui, caro Pastoreio.
– Devo dizer a vocês – ele assumiu um tom mais solene – antes de qualquer outra coisa, que não exagero quando digo que só estou aqui por causa desses dois homens. Passei por uma fase de minha vida onde fui seduzido, quase levado a trair meus próprios aliados, e prejudiquei a imagem de meu clã perante os ocultistas.
– Mas tal feito deu-se em tempos passados, meu caro – Mefisto interrompeu-o.
– De qualquer jeito, devo-lhes desculpas e agradecimentos. Desculpas por causar a vocês aquilo que causei em nosso último encontro, e agradecimentos por terem poupado minha vida, e me dado uma segunda chance. Farei o que eu puder para me redimir.

E dizendo isso, levou seu rosto e seus cotovelos ao chão, em um tradicional gesto de redenção. Admirava sua humildade: ele, o líder absoluto dos Catarianos pedia desculpas, não por seu clã, mas por seu próprio erro, erro que eu mesmo já havia perdoado há muito tempo. Mandei que se levantasse, e ele prontamente obedeceu.

– Precisava que soubessem disso, senhores. – ele continuou falando, agora parecendo mais relaxado. – Agora, se não se importarem, gostaria que jantassem junto a meu povo, para depois tratarmos dos assuntos que trazem vocês até aqui.

Arcamos com sua sugestão e nos dirigimos, depois de serem cuidadosamente apagadas as velas, até uma outra casa, um pouco menor que a anterior. Não haviam divisórias nela, e o ambiente único era ocupado por uma simplória mesa de madeira, ao redor da qual repousavam dezesseis cadeiras da mesma madeira. Três dos Catarianos, dois homens e uma mulher, posicionavam sobre a mesa pratos e talheres, de uma graciosa simplicidade. Fomos convidados a sentar.

Advertisements