XXXVII – Do jantar com o pastoreio.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.
XXVII – Do encontro com o Catariano.
XXVIII – De mais dias de calmaria.
XXIX – Da última noite de treinamento de Oscar.
XXX – Da aparição de Mefisto.
XXXI – Da Ressurreição Inferior.
XXXII – De um conveniente encontro.
XXXIII – Dos motivos da vinda de Plínio.
XXXIV – Da volta de Margarida.
XXXV – De diálogos esclarecedores.
XXXVI – Do encontro com o pastoreio.

Assim que nós, os cinco hóspedes, estávamos sentados, o Pastoreio mais os outros três que lá estavam começaram a servir os pratos do jantar, trazidos de fora do pequeno salão. Pouco a pouco, mais Catarianos foram chegando pela mesma porta, ainda parecendo meio tímidos. Primeiro, entrou um jovem que não parecia ter mais de vinte anos de idade. Possuía cabelos curtos e era de uma constituição física pequena.

Logo atrás dele, entrou uma moça que parecia ainda mais jovem. Ela, por sua vez, possuía ombros largos e pernas longas, talvez até demais. Estimando por seu tamanho em comparação ao tamanho da porta, era um pouco mais alta do que eu. Entrou cabisbaixa, e assim se manteve depois de haver sentado à mesa. Depois dela, entraram, cada um com uma panela, os três que eu havia visto antes. O homem e uma das duas mulheres eram parecidíssimos, com a mesma altura, olhos profundos se comparados aos de outros Catarianos e cabelo do mesmo tom de vermelho. A outra mulher possuía uma boca que encurvava-se bruscamente abaixo nos cantos, e o cabelo num matiz avermelhado escuro, quase negro.

Antes que terminassem de servir a mesa, senti um pequeno chute em meu pé. Me virei na direção dele, e vi Margarida fazendo um sinal com o dedo sobre os lábios. aproximei-me dela tão discretamente quanto pude, e ouvi ela sussurrar de forma mal audível.

– Fausto, a menina aí na frente.
– Prossiga – falei, tendo certeza que ela se referia à única menina que sentava na mesa à minha frente.
– Foi ela quem te atacou na frente da sua casa.

Tentei ao máximo não mostrar-me sobressaltado após ouvir aquilo. Portei-me como se não soubesse de nada, e procurei dedicar minha atenção à comida que logo seria servida. Afinal, se algum dos agradáveis Catarianos estivesse realmente determinado a atentar contra mim, eu estava escoltado por dois habilidosos usuários, além do próprio Errante. Não sabia o tamanho do poderio daqueles Catarianos, mas tinha quase certeza de que o meu era maior.

Tão logo serviram as panelas à mesa, sentaram-se. O Pastoreio foi o último a colocar-se em sua cadeira, e depois, o último a servir-se. A sociedade Catariana era baseada na simplicidade acima de tudo, e quem poderia, além de seu maior líder, mostrar-lhes um claro exemplo de tal filosofia?

Começamos a comer. Havia sido preparada uma refeição à base de vegetais e ervas, já que aquelas terras não mostravam-se muito boas para caça, e provavelmente eles ficariam aí assentados durante um tempo em muito ínfimo para que fosse desenvolvida uma pecuária. Havia uma torta de legumes temperada com finas ervas, várias saladas diferentes e uma espécie de cozido de vegetais. Não me lembrava de ter me sentido mais confortável durante uma refeição do que naquele momento. Tudo exalava à hospitalidade daquele misterioso porém atraente povo.

Depois de um curto tempo para que apreciássemos nossa refeição em silêncio, o Pastoreio tornou a falar.

– Acho que devo apresentar vocês. Essas pessoas que dividem a mesa conosco são a descendência direta da família Aurora.
– Li, em um dos códices do antigo arquivo – falou Mefisto – que a família Aurora possui um lugar de bastante valor entre os Catarianos. Mas não importei-me em pesquisar mais sobre eles.
– Acho que é importante que vocês saibam: Os Aurora foram os primeiros a estabelecer-se como uma família após a restituição dos Catarianos pelo segundo Pastoreio. Mantiveram-se sempre como o braço direito dos outros dois pastoreios, e, agora, de mim. Chamam-se Aurora por serem a primeira família a se constituir assim que terminaram os tempos escuros dos Catarianos.
– E que motivo os traz aqui agora? Aliás, o que move ao Pastoreio, se me permite a pergunta, até essa pacata terra? – perguntei.
– Chegaremos lá depois, Fausto. Primeiro, conheça-os. Este é Pânfilo, o atual patriarca da família Aurora. Ele é irmão gêmeo de Elisa, que está a seu lado. A outra mulher que os acompanha chama-se Emília, e é sua esposa. A filha do casal é a talentosa Glória, que come à sua frente, Fausto.
– É um prazer conhecê-los – eu disse, evitando ao máximo demonstrar que eu guardava certo ressentimento da moça que mal havia apresentado-se a mim.
– Antes que eu fale a vocês sobre o que me traz até aqui, acho que a pequena Glória tem algo a dizer para você, Fausto.

Arrepiei-me ao ouvir essas palavras. Se por acaso aquelas pessoas tivessem planejado algum tipo de ataque contra mim, provavelmente agora começariam a colocar seu plano em prática. Eu temia um pouco por minha vida quando ouvi a voz de Pânfilo, de tom levemente agudo, porém ainda assim autoritária.

– Levante a cabeça, Glória. Fausto perdoou o Pastoreio, não teria por que não perdoar você.

Glória ergueu-se, demonstrando seu semblante, visivelmente contrariada. Eu passava a admirar cada vez mais a simplicidade dos Catarianos, estivessem eles planejando ou não contra mim. Seu próprio líder, figura que devia demonstrar sua liderança na forma de certeza ou autoridade inquestionável fizera questão que todos soubessem de seu erro e sua posterior redenção. Não havia forma melhor de liderança, eu começava a perceber.

– Senhor Fausto, provavelmente você lembra de quando foi atacado perto de sua casa – ela falava pausadamente, como se medisse cada uma das palavras – eu que te ataquei naquele dia. Por favor, desculpe-me.

A jovem Glória falava de forma mecânica. Não parecia em nada convincente, mas a autoridade do Pastoreio e de seus pais provavelmente não deixariam que aquilo acontecesse de novo.

– Aceito suas desculpas, Glória. Mas gostaria de saber o que te moveu a me atacar.
– Ela é filha de caçadores de bruxas – Elisa saiu em sua defesa – foi ensinada, treinada para ser uma boa caçadora. Quando soube da sua existência, saiu por conta própria e atacou justamente você, Fausto. Só soubemos disso por termos visto seus trajes incomuns em uma das barracas.

A voz de Elisa lembrava, assim como a maioria dela, Pânfilo. Porém, ela falava em um tom mais reconfortante, até mesmo relaxante. Falava mais calma, com menos desenvoltura do que o irmão. Dei-me por satisfeito com sua explicação, e resolvi aceitar as desculpas, mesmo levemente incomodado pela insolência da pequena Glória. Pelo menos sabia que ela, a partir daquele ponto, me seria inofensiva. Continuei meu jantar, assim como todos faziam em silêncio, até o Pastoreio finalmente voltar a falar.

– Acho que vocês dois já entraram em termos, posso tratar de responder suas perguntas, assim que recolhermos o jantar.

Nesse ponto, todos havíamos terminado o jantar. Pânfilo e Emília tiraram os pratos da mesa, e depois nos indicaram para a cabana onde estávamos anteriormente. Sentamos sobre as almofadas, e logo o Pastoreio começou a falar.

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