XXXVIII – Da razão dos Catarianos.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.
XXVII – Do encontro com o Catariano.
XXVIII – De mais dias de calmaria.
XXIX – Da última noite de treinamento de Oscar.
XXX – Da aparição de Mefisto.
XXXI – Da Ressurreição Inferior.
XXXII – De um conveniente encontro.
XXXIII – Dos motivos da vinda de Plínio.
XXXIV – Da volta de Margarida.
XXXV – De diálogos esclarecedores.
XXXVI – Do encontro com o pastoreio.
XXXVII – Do jantar com o Pastoreio.

O Pastoreio falava em um tom solene, porém descontraído. Se tudo que havia acontecido até o momento dizia o contrário, seu tom de voz era facilmente tranquilizador.

– Amigos, devo explicar a vocês por que viemos até aqui, mas, em primeiro lugar, gostaria que conhecessem as pessoas que eu trouxe comigo. Considero a família Aurora como meus primeiros escudeiros, se posso ter a soberba de nomear algum. Desde seu início, eles tem cumprido seus serviços de uma forma exímia. Pânfilo, como eu já disse antes, é o patriarca da família atualmente, e é um grande estrategista.
– Bondade sua, mestre. – ele disse, parecendo estar acostumado a ouvir elogios do gênero.
– Graças a ele – continuou o Pastoreio, sem prestar muita atenção no que disse Pânfilo – tivemos algumas de nossas caçadas mais bem sucedidas. Ele possui uma visão extremamente prática das situações, o que costuma ser apenas eventual em estrategistas. Foi responsável pela eliminação de dois descendentes diretos da Cruz Fumegante, nossos maiores inimigos, e mais de cinco subordinados deles.
– Temos alguém já experiente entre nós, então – Margarida comentou, quase zombando.
– De fato. Mas Pânfilo não atuou, na maior parte do tempo, sozinho. Ele contava com o apoio de Emília, de mãe Catariana. Seu pai não era um de nós, e quando descobriu as afiliações de sua mãe, deixou-a a seus cuidados. Emília é empática e sensível, e isso torna ela uma pessoa capaz de considerar, eu diria até mesmo prever, quais serão as possíveis reações de seu inimigo às suas ações. Some isso ao rigor técnico e prático de Pânfilo, e não é difícil entender a união dos dois, tanto como uma equipe quanto como uma família. Por fim, há Elisa, irmã gêmea de Pânfilo. O que seu irmão tem em sagacidade, ela possui em inocência. Sempre foi a fonte de energia e motivação para seus colegas, e possui inigualáveis habilidades de cura, culinária e artesanato.
– Entendo – não pude deixar de pronunciar-me – parece que conseguiste formar uma ótima equipe sem procurar muito.
– Sim, Fausto. Desde quando passei por meu pequeno incidente com a Cruz Fumegante, nunca vi um time de caçadores tão entrosado ser formado de uma forma tão espontânea. Acredito que você já conhece três de seus aliados, só resta uma delas.
– Já tivemos a oportunidade de conhecer Glória – falou Mefisto.
– Mas não acho que seja o suficiente – Margarida interrompeu.

Ao ouvir o comentário, Glória levantou de sua almofada, deu-nos as costas e saiu sem cerimônia. Emília, que até então não havia pronunciado-se, desculpou-se fervorosamente por algum tempo, até o Pastoreio pedir que se acalmasse e retomar a palavra.

– Perdoem Glória, ela é exímia no que faz, mas se irrita de um jeito extremamente fácil. Enquanto as caçadas e buscas atingiam seu ponto forte, eu senti uma certa falta de um time qualificado para elas. Conversei com meus três principais caçadores, aqueles que aqui estão, e decidimos criar uma espécie de guarda real para nosso povo. Pânfilo e Emília, mesmo eu dizendo o contrário, insistiram que estavam fora de forma para o trabalho, mas se dispuseram a treinar novos caçadores. E aí surge Glória, que além de filha dos dois habilidosos guerreiros, foi treinada pelos próprios, junto com outros seis jovens talentosos.
– Eu imagino que tipo de esquadrão poderia ser treinado por dois caçadores que cumpram tão bem suas funções – disse Plínio, em voz baixa.
– Infelizmente – respondeu o Pastoreio – eles não atuam como um time, exceto em raros casos. Nossos sete caçadores, e chegará o momento onde vocês conhecerão cada um deles, são treinados para que sejam guerreiros completos, de certa forma. Cada um é, por si só, capaz de lidar com os mais diversos tipos de situação que possam aparecer. Glória, em especial, possui um charme imensurável: ela pode induzir seus inimigos a fazer o que ela quiser, certos de que estão atentando contra sua vida. Não tem uma capacidade invejável de criar estratégias originais, mas leva a cabo metodicamente suas estratégias clássicas. Acaba compensando totalmente sua falta de resistência ou força.

O Pastoreio fez uma curta pausa, como se quisesse que absorvêssemos calmamente a quantidade relativamente grande de informações que ele nos havia dado. Eu poderia simplesmente imaginar o quão mal poderiam me fazer essas estranhas pessoas, que antes de ler o manuscrito traduzido pelo Errante eu acreditava serem lendas ou hipérboles, caso estivessem contra mim. Depois de uma pausa que me pareceu suficiente, ele continuou:

– Agora que vocês já sabem quem serão seus aliados, vou dizer o motivo de estarmos aqui agora. Houve uma variação muito grande de entropia nessa região, uma variação que alguns de nosso povo foram capazes de detectar, a partir de outro continente. Mesmo nosso povo ser extremamente sensível à entropia, não é normal que detectemos variações a partir de uma região tão remota. Por isso mandei que Glória investigasse. Juntando algumas informações, deduzimos que uma mulher conhecida como Raquel, que descende diretamente de um dos membros da Cruz Fumegante, está embasada nesse lugar. Estamos por perto para caso ela decida emergir de seu esconderijo, estarmos preparados.
– O que precisamos saber sobre Raquel? – perguntou Mefisto, objetivo.
– Acredito que por hora, detalhes são irrelevantes. Estamos nos prolongando demais por aqui, já é tarde da noite, e gostaríamos de continuar nossa rotina cedo, amanhã pela manhã. Acredito que passarão a noite conosco, ou me engano?
– Sim senhor – Lúcio, que até então fora uma presença meramente auditiva em nossa pequena reunião, manifestou-se – eu me adiantei pedi que preparassem acomodações. Acho que já é muito tarde para que voltem até sua casa. Acredito que não será um grande problema para vocês, ou me engano?
– Não será incômodo nenhum, agradecemos sua preocupação, Lúcio – Mefisto falou quase instantaneamente, de um modo que parecia pedir que imitássemos sua decisão

Achei que seria a decisão mais sensata seguir a ordem de Mefisto, e, pelo que pude ver, meus companheiros assumiram a mesma postura. Assim, aceitamos a hospitalidade dos peculiares Catarianos, que já nos tratavam como amigos de longa data, e concordamos em passar a noite naquele acampamento remoto, mas que ainda assim passava uma sensação de tranquilidade sem precedentes. Fosse por sua localização, pelo aspecto de seu povo ou pela cordialidade de seu líder.

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