XXXIX – De uma noite insone.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.
XXVII – Do encontro com o Catariano.
XXVIII – De mais dias de calmaria.
XXIX – Da última noite de treinamento de Oscar.
XXX – Da aparição de Mefisto.
XXXI – Da Ressurreição Inferior.
XXXII – De um conveniente encontro.
XXXIII – Dos motivos da vinda de Plínio.
XXXIV – Da volta de Margarida.
XXXV – De diálogos esclarecedores.
XXXVI – Do encontro com o pastoreio.
XXXVII – Do jantar com o Pastoreio.
XXXVIII – Da razão dos Catarianos.

Fomos acomodados todos em uma só cabana, de tamanho coerente. As quatro camas estavam alinhadas a partir de um dos cantos do recinto. Mefisto ocupou a primeira cama à esquerda, fiquei com a que estava a seu lado. À minha direita, estava Margarida, e Plínio dormiria na extrema direita. As camas eram todas iguais, feitas com poucos pedaços de madeira. Eram obviamente planejadas por sua funcionalidade, e apenas para isso.

Excluindo-se as camas de tamanho suficiente para dormir-se com conforto, o quarto era decorado com duas tapeçarias nas mesmas paredes em que as camas das extremidades estavam encostadas. Uma delas continha alguns padrões circulares, traçados de branco sobre um fundo vermelho, e a outra demonstrava uma cena, parecendo algum tipo de conferência, ou algo do gênero. Seus personagens, como já era previsível, possuíam os cabelos em tons de vermelho, que eram únicos de um modo extremamente refinado.

Deitei-me na minha cama, usando as roupas do corpo, porque a estadia noturna por lá havia sido uma surpresa para mim. Normalmente eu demoro para conseguir ter uma boa noite de sono fora de minha casa, preciso de alguns dias de adaptação antes de realmente dormir bem. Portanto já estava preparado para ter pouco sono. Sentia, enquanto tentava dormir, a maciez das roupas de cama que ofereciam os Catarianos. Em nada elas perdiam, também, para o colchão no qual eu repousava: Parecia constituído de um material macio, porém suficientemente sólido. Era praticamente um afago em minhas cansadas e doloridas costas.

Depois de algum tempo revirando meu corpo sob os lençóis, entre tentativas infrutíferas de repousar, decidi sair da cama. O frio não estava tão rigoroso quanto era havia algumas semanas, portanto não me incomodaria tomar um pouco de ar fresco. Saí da grande cabana que ocupávamos, com cuidado para não acordar nenhum dos meus três companheiros. Provavelmente o Pastoreio e os outros Catarianos não se importariam comigo andando por seu acampamento. Observava a estrutura das casas, quando percebi um ponto flamejante além da última cabana, no que eu imaginava ser o limite do perímetro do acampamento.

Encaminhei-me em passos lentos, até lá. Tudo naquela pequena vila improvisada pelos Catarianos parecia funcionar de um jeito exímio: haviam hortas, reservas de lenha, duas cabanas com portas reforçadas, que eu imaginei que fossem armazéns, e algumas varas no chão, onde secavam roupas e algumas ervas. Acreditava que, se fosse necessário, poderiam estabelecer-se permanentemente naquele lugar. Mesmo suas cabanas temporárias eram rigorosamente construídas, de um modo que parecia não aceitar nenhum tipo de erro.

Quando pude finalmente ver algo além das longínquas labaredas, percebi que havia uma pessoa próxima às chamas. Caminhei mais devagar, buscando esconder-me nas sombras. Talvez fosse algum tipo de invasor. Chegava sorrateiramente mais perto, e quando acreditava estar oculto nas sombras da última das casas naquela direção, ouvi uma voz familiar, quase debochando de mim

– Pode se mostrar, eu já te vi.

Saí de meu improvisado esconderijo, e andei em direção a Glória, que sentava do lado da fogueira. Estava ainda vestida com a roupa típica dos Catarianos: um manto de corte delicado, feito a partir de uma única peça de tecido grosso. Conforme me aproximava dela, via seu semblante de tédio, talvez até mesmo conformidade com sua situação. Resolvi aproveitar aquele breve tempo para tentar entender um pouco mais aquela pessoa, e ao mesmo tempo sanar uma dúvida que me afligia desde a conferência com os Catarianos.

– Mesmo morrendo de sono ainda conseguiste enxergar-me. Não me admira que você tenha conseguido atacar-me antes mesmo que eu percebesse sua presença.
– Não estou com sono – ela respondeu, na mesma voz mecânica que usara enquanto me pedia desculpas.
– Não mesmo? E o que fazes aqui fora tão tarde?
– Sentinela. O Pastoreio é inteligente, não iria deixar o acampamento sem um guarda.
– E hoje é sua noite de ficar em guarda?

Glória não respondeu à hora, apenas virou seu rosto na direção contrária. Depois de uma curta pausa, virou-se novamente para mim, olhando fundo em meus olhos.

– Eu já te pedi desculpas, por que não volta pra cama e me deixa sozinha?
– Suas desculpas eu já aceitei. Mas não estou contente com sua justificativa. Aliás, nem mesmo houve uma justificativa.
– O que quer saber?
– Quero saber por que você me atacou. Os únicos presentes por aqui somos nós dois, acredito que não tenhas motivo para esconder-me algo.
– Eu… queria sair.
– Sair?
– É. Parar de depender desse clã pra tudo que eu quero fazer.
– E matar a mim iria ajudar-te nisso?
– Eu não tinha o que perder. Senti que havia um bruxo no lugar, se ele fizesse parte da lista dos inimigos declarados do clã, eu seria honrada por matá-lo. Se não fizesse parte, eu provavelmente teria que fugir, me refugiar de minha própria gente. Nenhuma das duas opções era ruim.

Eu começava a entender como Glória funcionava, apesar de não acreditar que aquela fosse toda a verdade.

– E nunca havia ouvido sobre mim antes?
– Sim, eu já sabia sobre você, e que você vivia por aqui – ela admitiu, parecendo com receio de dizer a verdade. Aquela hesitação fora o primeiro traço de emoção que eu percebera vindo de Glória – mas não me importei em saber quem era, só queria conseguir minha liberdade.
– Tu pareces gostar da ideia de liberdade. Já pensaste no fato de que estaria tirando, por exemplo, a minha liberdade de viver?
– E daí? Você já desfez da liberdade de tantos nesse mundo que em nada me importo de privar você da sua.
– Perdão?
– É isso mesmo. Você e todos das Artes Ocultas. Andam por aí com suas purificações como se tudo que levasse alguém a cometer o que vocês chamam de erros não pudesse ser uma escolha consciente.
– E até que ponto uma escolha consciente deve ser tolerada se trouxer o mal até outras pessoas, que nada têm a ver com o assunto?
– Não importa, vocês simplesmente censuram as pessoas. Não têm esse direito. – e então ela tornou a virar sua cara, como antes havia feito.

Olhei para meu relógio, já passavam das duas horas da manhã. Teria de voltar à minha acomodação, já que provavelmente sairíamos cedo de lá no dia seguinte. Queria estar ao menos um pouco descansado, tanto para a viagem de volta, quanto para a possibilidade de Oscar ter recobrado sua consciência, quando eu deveria confrontá-lo.

– Tornaremos a conversar, moça. Mas tu tens um grande potencial, não desperdice-o – eu disse, não conseguindo pensar em nenhuma frase menos lugar comum para aconselhá-la.

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