XL – De Raquel e a situação de Oscar.

by F. Pergher

Capítulos I-XX
XXI – Dos dias seguintes e da terceira visita de Oscar.
XXII – Do início do treinamento de Oscar.
XXIII – Dos dias de treinamento.
XXIV – Do que dizia o antigo escrito.
XXV – Do amigo de Mefisto.
XXVI – Da segunda etapa do treinamento de Oscar.
XXVII – Do encontro com o Catariano.
XXVIII – De mais dias de calmaria.
XXIX – Da última noite de treinamento de Oscar.
XXX – Da aparição de Mefisto.
XXXI – Da Ressurreição Inferior.
XXXII – De um conveniente encontro.
XXXIII – Dos motivos da vinda de Plínio.
XXXIV – Da volta de Margarida.
XXXV – De diálogos esclarecedores.
XXXVI – Do encontro com o pastoreio.
XXXVII – Do jantar com o Pastoreio.
XXXVIII – Da razão dos Catarianos.
XXXIX – De uma noite insone.

Como havia previsto, acordamos cedo no dia seguinte. Havia dormido um curto sono, mas que ainda assim foi eficaz em revigorar-me. Quando acordei de meu leve cochilo, a cama ocupada por Mefisto já estava vazia. Esforcei-me para não acordar os outros dois que ainda dormiam, e saí até onde julguei que encontraria o Pastoreio e os outros. Fui até a cabana onde havíamos jantado na noite anterior, e Elisa estava lá. Parecia suficientemente entretida em servir o que deveria ser o café da manhã.

– Bom dia – tentei iniciar uma conversa.
– Olá, senhor Fausto – ela respondeu, com um largo sorriso – como passou a noite?
– Muito bem. Suas acomodações são de fato confortáveis.
– Fico feliz em saber disso. Não temos as melhores camas, e confesso que a gente não esperava hóspedes por aqui, mas tentamos servir nosso melhor a vocês.
– E consigo perceber isso facilmente. Diga-me, onde está Glória?
– Oh, Glória está dormindo. Eu não sei o que ela tem, é sempre a primeira a deitar e a última a levantar. Dificilmente nós vemos ela ativa antes que o almoço seja servida.
– Isso é interessante. E o Pastoreio, se não for perguntar demais?
– Não, imagine. O Pastoreio está no salão de reuniões – imaginei que se referisse à cabana com as almofadas que havia visto no dia anterior – junto com Lúcio, Mefisto e Pânfilo. Quer comer algo antes de se reunir com eles?

Aceitei sua oferta, e ela serviu-me uma espécie de massa assada, com alguns vegetais e temperos como recheio. Comi no caminho à grande cabana, e logo que cheguei nela, fui cumprimentado pelo Pastoreio.

– Fausto, seja bem vindo! Entre aqui conosco, estávamos esperando você para começarmos uma breve reunião.
– Bom dia, senhores. Não deveríamos esperar também os outros? – perguntei.
– Não – respondeu Lúcio, sorrindo – Acho que o que falaremos agora só interessa a vocês dois. Não seria bom se usuários menos experientes soubessem disso.
– É sobre nosso inimigo? – indaguei, ainda curioso.
– Sim, Fausto – Lúcio me respondeu. – Tanto o Quinto Pastoreio quanto Pânfilo, junto com Emília, já confrontaram no passado aquela que se intitula Raquel. E acredito que eles dois foram os que obtiveram maior sucesso nisso até hoje.
– Isso é um dado importante. E como aconteceu?
– Foi há muito tempo – Pânfilo começou a falar de um modo calmo, como se tivesse o dia inteiro para tratar do assunto – Logo que eu e Emília tornamos a caçar juntos, acreditávamos que poderíamos bater de frente com adversários que se demonstraram muito mais fortes que nós mesmos. Ninguém sabe ao certo a idade de Raquel, o que se sabe é que ela é uma entidade extremamente antiga.
– O quão antiga ela pode ser?
– Nossas fontes mais coerentes indicam que ela foi aluna do próprio Melquior.
– Não é possível. Estás dizendo que ela já atingiu idade suficiente para que não mais se conte em séculos?
– Exatamente. Mas a parte importante é que, apesar de Emília e eu não estarmos tão avançados em nossos estudos sobre Artes Ocultas, possuíamos um grande domínio das Artes Xamânicas, e por pouco não fomos apenas outras duas de suas vítimas. Ela conseguiu criar um exército de pessoas vivas, sem interferir no rumo natural das coisas, apenas com seus feitiços de manipulação mental. Pensávamos estar seguros, pois as Artes Xamânicas nos permitem explorar livremente relações interpessoais, e isso nos permitiu anular seu controle mental. E então ela nos surpreendeu com um exército de milhares de servos dos planos paralelos, sobre os quais não possuíamos o mínimo poder.
– Valorizo seu relato, meu caro Pânfilo – senti-me quase interrompendo-o, mas estava apreensivo o suficiente para não considerar esse aspecto – porém não vejo qual é o grande perigo de um exército de servos.
– Não eram servos quaisquer, Fausto. Aquela coisa, em pouco tempo, criou milhares dos servos mais bem desenvoltos que eu já vi, sem exagero nenhum. Eles possuíam velocidade, força e raciocínio comparáveis aos nossos próprios, e com seus feitiços de controle mental, não foi difícil ordenar que todos nos atacassem. Só escapamos com vida graças ao Errante dos Múltiplos Planos.

Olhei para Mefisto, como se indagasse o que ele tinha feito por aqueles dois caçadores. Parecia mais claro para mim, agora, como ele sabia de que modo deveria se comportar durante o encontro com os Catarianos. E, parecendo responder à minha indagação, ele começou a falar.

– Senti uma grande quantidade de variação entrópica em um espaço de tempo absurdamente pequeno. Sabia que algo deveria estar errado, e quando fui até o lugar de onde parecia ressoar a entropia, senti a presença de Raquel naqueles servos. Infelizmente ela já havia fugido, então o que pude fazer foi meramente paliativo: enviei todas as almas de volta a seus planos originais. Mas pouco pude fazer além disso, pois ela já havia sumido do lugar.
– E por que informações desse tipo não devem ser ditas aos outros? Enviaremos eles em uma missão suicida?
– Não, Fausto – disse o Pastoreio -Lúcio e eu temos pesquisado alguns antecedentes históricos de Raquel, e no início, lendas sobre ela eram muito mais terríveis do que aquilo que presenciaram Pânfilo e Emília. Nesse ritmo, ela deve estar enfraquecida agora, mas mesmo assim, a última coisa da qual nossos aliados precisam saber é de seus antecedentes. Abaixar seu moral não os ajudará a vencer.

Concordei com eles, e mal terminaram de falar, Plínio entrou na sala, saudando-nos. Ele parecia ter dormido uma agradável noite, porém ter sido acordado bruscamente de seu sono.

– Bom dia, amigos. Desculpem interromper sua reunião, mas durante a noite aconteceu algo que eu acho digno de nota.
– Pois diga, Plínio – Mefisto falou, calmamente. Ele estava em condições melhores que as minhas, encontrava-me com meus nervos exaltadíssimos depois da história de Pânfilo.
– Bom, como vocês sabem, projetei-me ao lado do jovem Oscar, que estava adormecido. Pois durante essa noite, ele tentou fugir do hospital. Obviamente, foi escoltado de volta à sua cama por enfermeiras. E minha projeção não pôde fazer muito, sendo que apenas havia projetado um de meus sentidos sobre ele. Agora encontra-se dormindo, ou inconsciente. A vigilância sobre ele está redobrada, ele está recebendo enfermeiras em seu quarto a cada meia hora ou menos.
– Nesse caso – eu disse – seria bom que voltássemos o mais cedo possível à cidade.

A conversa com Pânfilo e o Pastoreio havia exaltado-me mais do que eu gostaria que fosse. Eu já tinha enfrentado adversários maiores do que a chamada Raquel, provavelmente. Ou pelo menos em situações menos favoráveis a mim. Mas ainda assim estava preocupado com a luta: provavelmente minha ausência delas por um tempo havia feito-me acomodado. De qualquer jeito, ainda conseguia manter-me tranquilo pensando que havia uma equipe capaz de resolver esse tipo de problemas a meu lado.

Advertisements