XLI – Do retorno à cidade e da visita a Oscar.

by F. Pergher

Capítulos I-XL

Agradecemos aos Catarianos pela hospitalidade, e depois de combinar com Lúcio que nos encontraríamos novamente na quinta feira seguinte, caso nada de mais relevante acontecesse, partimos de volta à cidade, além de mim e Mefisto, Margarida e Plínio. O caminho de volta, como normalmente é, pareceu muito mais curto do que o de ida. Margarida não tardou em falar, durante a caminhada.

– Fausto, com o que estamos lidando?
– Nada de tão assustador – disse Mefisto, respondendo a pergunta em meu lugar – acredito que seja a primeira batalha de verdade que você lutará, mas para usuários experientes, não será muito diferente de um treino pesado.

Queria eu poder concordar com ele, ou pelo menos acreditar em suas palavras.

– Mas o que exatamente é essa Raquel? – ela insistiu.
– É o que se chama popularmente de bruxa, uma das que os Catarianos caçam. Ela descende diretamente da Cruz Fumegante, dos primeiros a transviarem os estudos das Artes Ocultas. – falei.
– Dizem – Mefisto continuou – que ela teve a oportunidade de treinar com o próprio Melquior, fundador da ordem da Cruz Fumegante. E de algum modo, ela vem colocando sua vida acima da própria morte desde então.
– Não é qualquer oponente, então. Algum usuário já morreu durante… treinos pesados?
– A resposta para sua pergunta é não. Mas provavelmente não é o que queres saber. Ela tem uma capacidade invejável de hipnose, controle mental e coisas do gênero. Também é muito competente em erguer exércitos, mas seu poder diminuiu muito desde a última vez que a vi. Parece que seu feitiço de longevidade está perdendo a força.

Contente com a explicação, Margarida passou o resto da viagem quieta, pensativa. Conversávamos futilidades, Plínio, Mefisto e eu, e assim que percebemos, já estávamos no centro da cidade. De lá, Mefisto e Margarida foram para casa, e Plínio e eu seguimos até o hospital, onde visitaríamos Oscar.

O hospital não ficava muito longe, como tipicamente é em pequenas cidades, da tua principal. Chegamos lá, e identificamo-nos como parceiros de trabalho de Oscar. Não deixava de ser verdade, já que eu havia começado a editar seu livro. Fomos indicados até o quarto onde ele repousava, e logo que entrei pela porta, junto com Plínio, pude ver Oscar virando-se de lado e fingindo dormir. Olhei para Plínio, e ele parecia também ter visto o rápido movimento de nosso paciente, e direcionou-me um gesto de quem tem tudo sob controle.

– Levante, Oscar, ou já perdeu toda a força que tinha no cemitério?

Ele não cooperou com o pedido de Plínio, que continuou falando, sem muito se importar se estava ou não sendo ouvido.

– Não é possível que faltando tão pouco pro meio dia alguém com a sua força física ainda tenha um sono tão pesado.

Nenhuma resposta foi fornecida da parte de Oscar.

– Eu não queria chegar nesse ponto – disse Plínio, sorrindo – mas eu vi você se mexendo assim que entrei no quarto. Sei que você não tá mais dormindo.

Oscar pareceu finalmente se render. Levantou-se da cama, tirando de lado os lençóis que cobriam-no. Estava com uma fisionomia extremamente abatida, que fazia-o parecer ainda mais doente do que já parecia em dias normais. Olhava fulminantemente para Plínio, e agia como se ainda não tivesse percebido minha presença no quarto.

– Olá, Oscar. É um prazer ver-te de novo – eu disse, confesso que tentava imitar o deboche onipresente na voz de Margarida.
– O que está fazendo aqui, Fausto? – foram suas primeiras palavras. Sua voz era tão doente quanto seu semblante, e ele parecia gritar com todas as forças que tinha, apesar de não atingir um tom muito alto. – Veio me matar, já que não fizeram isso antes?
– Bem pelo contrário, Oscar – eu respondi, sentindo-me um pouco ofendido por sua precipitação. – Vim para que conversássemos, apenas isso.
– Fala por que veio, então. E o que vai acontecer comigo agora?
– Antes me digas tu. Por que me atacaste?
– Por que… Não gosto de mestres que escondem dos discípulos.
– E o que exatamente tu pensas que escondi de ti?
– Você não me ensinou a técnica que eu usei contra você, por exemplo.
– Aquela que já havias aprendido?
– Aprendido? Quando?
– A técnica de ressurreição inferior é simplesmente reativar um corpo, sem trazer alma nenhuma até ele. Disso tu havia provado-te capaz, ainda em nosso treinamento anterior.
– Eu… Ainda assim, se não fosse por ti, eu nunca saberia que era capaz de reanimar um cemitério inteiro.
– Tudo que fizeste foi aumentar a dimensão do alcance da tua técnica de reconstituição, nada que eu não tenha te ensinado. Agora devo perguntar-te, como conseguiste treinar tanto, sozinho, e em tão pouco tempo?

Não obtive resposta. Embora estivesse determinado a me confrontar, sua determinação parecia ter desaparecido totalmente. Oscar me olhava atônito. Se houvesse alguma chance dele empalidecer mais do que já estava, acredito que teria empalidecido. Tentava balbuciar algumas palavras.

– Eu… não treinei sozinho.

Ele acabava de afirmar o que para mim já era a mais provável das hipóteses sobre o surgimento repentino de suas habilidades.

– Oscar, como chegaste até Fausto? – Plínio, que até então observava calado com um pequeno sorriso de satisfação no rosto, perguntou a ele.
– Outro mestre me recomendou a Fausto. Não achei que seria uma má ideia.
– Em nossa região? – perguntei. Não sabia da existência de outro mestre nessa região, e não imaginava que mais alguém naquela cidadezinha soubesse quem eu era.

Mas nesse ponto, Oscar absteve-se de falar. Virou sua cabeça para o lado, e simplesmente parou de responder nossas perguntas. Plínio me fez sinal para que fôssemos embora, e novamente deixamos Oscar sozinho no seu quarto de hospital. Dessa vez, porém, havia uma projeção de Plínio com capacidade de olhar, ouvir e andar silenciosamente, inquisidora. Ele não mais fugiria.

Voltávamos até em casa, e pouco falava Plínio, enquanto eu ponderava sobre aquele encontro com Oscar. Não sentia mais maldade em sua alma, mas naquele hospital, ele parecia estar revoltado com sua situação. Eu deveria voltar a falar com ele um outro dia, talvez soubesse de algo mais.

Ao chegar em casa, encontrei-a do mesmo modo que havia deixado-a ao sair: Janelas e portas fechadas, e nenhum gato na varanda. A porta estava chaveada, como esperado, e, tendo Mefisto a própria cópia da chave, era possível que ele e Margarida tivessem entrado e depois trancado-a.

Mal precisei entrar em minha casa para constatar que, tanto quanto a varanda estava privada de gatos, a casa estava vazia. Mefisto e Margarida, pela disposição das coisas, haviam passado por aí, mas já tinham saído. Subi a meus aposentos, sem importar-me muito, e disse a Plínio que logo arrumaria algo para comermos, já que havia passado do meio dia. Porém, quando passei pela frente do quarto de Mefisto, cuja porta havia sido deixada aberta, pude ver que sua máquina estava ligada. Aproximei-me dela, curioso para vê-la em funcionamento, e pude perceber, não muito longe de onde eu estava, uma variação imensa de entropia.

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