XLII – De Caim.

by F. Pergher

Capítulos I-XL
XLI – Do retorno à cidade e da visita a Oscar.

Plínio subiu as escadas correndo, tão logo dei por mim sobre o que acontecia no monitor. Confirmou o que a máquina mostrara: uma descarga de entropia imensa próxima à minha casa. Esforçamo-nos para identificar, através do monitor, onde seria o ponto marcado. Precisamos fazer alguns rápidos testes, mas entendemos que tal ponto seria em um dos três cemitérios que por aí existiam, o segundo que eu havia visitado com Mefisto, e que possuía um pequeno bosque por perto.

Descemos a escada, eu mal tive tempo de organizar alguns acessórios que eu achei que seriam úteis, e não estava em meu pleno vigor após aquela noite mal dormida. Plínio acompanhava-me, calado. Eu imaginava se Mefisto e Margarida teriam ido sozinhos até aquele lugar, o que provavelmente haviam feito, mas não me detive muito nos pensamentos.

Quando dei por mim, já estava na rua, as portas recém trancadas em um ato quase inconsciente, a passos tão largos quanto o estado de minhas pernas me permitia. Sabia instintivamente o caminho até o cemitério, e não era mais tortuoso do que longo. Em pouco tempo, chegávamos perto, e provavelmente minha coragem, a essa época, havia sido em muito fragilizada, pois eu sentia calafrios. Cogitei serem um presságio, mas não se pareciam nem um pouco com algo do gênero.

Tão logo comecei a distinguir os contornos longínquos do cemitério, pude avistar um grupo daquilo que pareciam servos, e mesmo de longe conseguia perceber que eram lapidados de uma forma primorosa. Cheguei no portão do cemitério, ofegante, e tão logo cheguei lá, ouvi a voz familiar, quase tranquilizante do Errante dos Múltiplos Planos.

– Aqui estou, Fausto! Venha até mim, rápido!
– Mefisto! – falei, virando-me em direção ao som. Vinha de minha esquerda, e quando cheguei mais perto dele, vi meu amigo preso por correntes.
– O que aconteceu com você, Mefisto? – Plínio perguntou, correndo em minha frente, e começando a mexer vigorosamente nas correntes, tentando desatá-las.
– Fomos atacados, eu e Margarida. Tenho quase certeza que os autores disso foram Caim e Abel.
– Caim e Abel? – eu estava atônito – E quem os trouxe de volta?
– Não sei, Fausto, mas é bom que você me liberte. Por meio de algum encantamento, conseguiram fazer com que Margarida me prendesse. E se queres boas novas, Fausto, treinaste-a muito bem, pois ainda não consegui livrar-me dessas correntes.

Ajudei Mefisto, porque sabia da fraqueza das correntes de minha discípula: Elas podiam ser facilmente desativadas de fora para dentro. Não foi difícil desenrolar os nós que envolviam todas as juntas de seu corpo, impedindo qualquer movimento, e depois pregando-o no chão. As correntes também eram revestidas com a liga de prata que usávamos para praticar selos, assim impedindo que ele libertasse-se por meio das Artes Ocultas, ou que emitisse qualquer tipo de projeção astral.

– Obrigado, Fausto. Mas acredito que tenhamos problemas: eu vi Caim, o impetuoso, quando ele trouxe à tona todos aqueles servos. Não sei quem o trouxe de volta, mas provavelmente foi a mesma pessoa responsável pela carga de entropia que eu e Margarida vimos em sua casa.
– E o que podemos fazer contra eles, ou contra essa pessoa, Mefisto?
– Eu não sei, mas tenho certeza que esses servos não pretendem deixar que nos encontremos com Margarida. Teremos que passar por eles à força.

Olhei para o poderio instalado à minha frente. Não seria tão fácil que acabássemos com aquela multidão de servos: todos eles possuíam almas, e todos eles eram muito bem estruturados. Caim não deixara de ser primoroso em seu trabalho: seus servos possuíam a qualidade exata que precisavam para que fosse cumprida a missão para a qual eram designados. Preparava meu material supercondutor, para que pudesse criar um grande reservatório de energia e logo trazer meus próprios servos que rivalizassem com os dele, quando Mefisto colocou-se à frente de mim e de Plínio.

– Fausto, preste atenção. Eu vou levar todas essas almas para o Plano Superior. Os corpos desalmados terão um curto intervalo de tempo antes que suas funções cognitivas voltem a atuar. Depois disso, serão basicamente máquinas de matar. Vocês devem aproveitar essa brecha e passar por eles.
– E quanto a você, Mefisto? – perguntei
– Não sei se terei energia suficiente para voltar por agora, mas vocês não devem se importar com isso. Depois do que Margarida fez a mim, tenho certeza que vocês possuem uma aliada de peso, poderão lutar sozinhos, caso eu demore além do previsto.
– Mas e quanto a Abel e Caim? E Raquel?
– Fausto, tu sobreviveste tudo que passaste até hoje, e nunca foste tão intimidado antes mesmo de encontrar teu inimigo. Tens tudo que precisa para vencer, basta saber encontrá-lo.

E encerrou por aí suas palavras. Foi a última coisa que ouvi de Mefisto em muito tempo. Tão logo terminou de falar, vi seu espectro de energia assumir uma tonalidade próxima ao vermelho, e logo depois uma oscilação entrópica maior do que tudo que eu havia visto em muito tempo. Quando pude finalmente colocar meus pensamentos no lugar, o corpo do Errante dos Múltiplos Planos caía inerte à minha frente, e a voz de Plínio mandando-me ficar atento ressoava em meus ouvidos.

Pouco pude pensar antes de decidir, quase que por instinto, o que deveria fazer. Usei o material que já estava em minha mão para desenhar um pequeno círculo no chão, e conjurei minha espada de cabo longo. Usei-a para incapacitar a maioria dos servos que obstruíam meu caminho, enquanto Plínio fazia o mesmo com outros, numa região diferente do cemitério. Em pouco tempo, poucos haviam sobrado de pé, e Plínio resolveu o problema deles usando suas explosões de energia como combustível para lufadas de vento que cortavam como pequenas navalhas.

Com uma pilha de cadáveres no chão, próxima a nossos pés, Plínio finalmente usou chamas fátuas, parecidas com as que Mefisto havia usado enquanto eu treinava expurgos, acabando assim com todos aqueles restos mortais. O corpo de Mefisto foi o único que não afetou-se com as chamas de Plínio. Saímos rápido do cemitério: A visão do corpo de meu amigo caído ao chão começava a incomodar-me, e Plínio seguia a direção na qual localizara variações imensas de entropia.

 

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