XLIII – Do segundo cemitério.

by F. Pergher

Capítulos I-XL
XLI – Do retorno à cidade e da visita a Oscar.
XLII – De Caim.

Poucos minutos depois, chegávamos ao segundo cemitério, guiados pela sensibilidade de Plínio. Lá, ao que tudo indicava, havia sido liberada uma quantidade parecida de entropia. Adiantamo-nos porta adentro, e o que víamos uma vez que lá estávamos era em muito diferente da situação no cemitério anterior. Havia poucos servos, posicionados estrategicamente da forma mais eficiente possível para que nenhum movimento no canto mais remoto do cemitério passasse despercebido.

As criaturas, por sua vez, não eram superdesenvolvidas como as de Caim, no cemitério anterior. Essas pareciam ainda mais fracas do que um simples corpo humano regular, olhavam para nós com olhos esfomeados, mas não moviam sequer um músculo. O único lugar com uma concentração maior de servos era o centro do cemitério, onde havia um denso círculo composto por aqueles cadáveres de aparência fraca. Aproximei-me, talvez menos cauteloso do que deveria, e pude ver que aqueles servos quase estáticos vigiavam Margarida, atentos a seus mínimos movimentos.

Margarida jazia no chão, ao redor das criaturas. Parecia dormir, mas meu bom senso me dizia que provavelmente não era o sono que a segurava contra o chão. Voltei até Plínio, esperando não sobressaltar os impassíveis servos que lá estavam.

– Caro Plínio, tens alguma ideia sobre o que podem ou não fazer esses lacaios?
– Não sei, Fausto, mas não sinto uma quantidade muito grande de entropia vinda deles.
– Será que seria arriscado demais atacá-los diretamente?
– Sendo ou não, é nossa única escolha.
– O que queres dizer com isso?
– Não sinto muita energia proveniente de Margarida também, Fausto. Temo que sua vida possa estar em risco.
– Entendi – eu olhei novamente para o círculo de servos, ainda catatônico, no centro do cemitério – vou ver se consigo tirá-la do meio deles.

Conjurei novamente minha espada de cabo longo, a arma que tornava mais fácil o combate a servos, e avancei em um passo um pouco mais rápido do que meu passo normal em direção ao centro do cemitério. Já havia escolhido minha vítima: Aquele servo que estava diretamente de costas a mim. Ele demoraria um pouco mais para contra atacar-me, devido à sua posição. Plínio saberia o que fazer caso algo desse errado, pensei, e avancei contra o quadril do servo com minha espada.

Fosse por meu sobressalto, fosse pela preocupação com Margarida, separei as duas pernas de seu corpo com tão pouco quanto uma talhada. Provavelmente mais forte do que eu gostaria, mas que causou uma perturbação instantânea em todos os servos que habitavam aquele cemitério, como se todos eles fossem um só. Imediatamente, todos os que estavam no círculo, antes ao redor de Margarida, constituíram o mesmo círculo a meu redor.

Quando o primeiro do círculo avançou sobre mim, tendo seu ataque arrematado por minha longa espada, outro dos servos imediatamente surgiu de trás de um dos caixões para substituí-lo. Parecia que aquelas criaturas acinzentadas de forma humana que mal tinham a altura de meu peito estavam determinadas, de fato, a não deixar-me sair de sua pequena prisão com vida.

Avancei sobre eles, nos limites que meu baixo preparo físico me permitiu, e ataque três ao mesmo tempo, em uma talhada diagonal e mal desferida. Não fiz além de arranhar sua carne, o que seria inútil a partir do ponto que eles provavelmente não sentiam dor nenhuma. O círculo pareceu fechar-se sobre mim tão logo meu golpe fora finalizado, e eu fazia o máximo que podia para evitar aqueles servos pífios, porém metódicos em sua luta.

Depois de esquivar de um modo nada satisfatório algumas investidas ferozes e retaliar outras com minha espada, acredito que metade do círculo havia sido dizimada. Plínio fazia o solo ceder abaixo dos novos inimigos que vinham em direção a mim, deixando-os presos ao chão por suas pernas enterradas. Enfim, consegui desvencilhar-me deles, e enquanto buscava reagrupar-me com Plínio, senti uma dor aguda em minha panturrilha. Virei-me para olhar, e um daqueles servos havia cravado suas unhas em minha perna.

Mal pude separar sua cabeça de seu corpo antes de cair no chão, enfraquecido. Sentia-me mais incapaz do que quando havia lutado contra Oscar no cemitério, e gritei por Plínio. Não foi necessário, já que ele já corria em minha direção, com todo o vigor que eu não imaginava que alguém que aparentasse tal idade poderia ter. Ele olhou para meu ferimento, depois para mim, e balançou a cabeça, como quem admite que não tem muito a fazer.

Imediatamente, senti uma descarga de energia passar a meu corpo. De repente, estava rejuvenescido. Olhei para Plínio, que parecia um pouco ofegante, e assim que me levantei, ele me explicou o que poderia ser um plano de ação:

– Vou precisar de um pouco de tempo para me recuperar, Fausto, mas acho que agora você consegue lutar. Esses servos são sanguessugas, aumentam sua força com a energia dos inimigos.
– E como enfrentaremos eles?
– Não deixando que te toquem. Eu não sinto mais variações de entropia, portanto eles estão em número limitado. Use algum tipo de servo para passar por eles, um com pouca energia, se preferir.
– E quanto a você?
– Eu estarei logo atrás de você, mas preciso que não me deixe ser atacado. Transferir energia diretamente, como fiz agora, drena minhas forças.
– Acho que posso fazer isso – falei, com pouca convicção.

Haviam relativamente poucos servos no lugar, já que eles não se repunham. Invoquei um servo, rapidamente, usando o mesmo pigmento supercondutor com o qual havia trazido à tona minha espada anteriormente. Usei-me da projeção astral para que ele atacasse com minha espada, enquanto eu procurava um lugar menos exposto com Plínio. Na maioria dos casos, escalar uma capela era a melhor opção, pois servos dificilmente escalariam, e se o fizessem, seria fácil repeli-los a partir de cima. Fomos até uma das pequenas capelas mais próximas, e subimos nela.

Do alto, pude ver meu servo atacar vigorosamente os servos que ocupavam a terra do cemitério. Projeções astrais eram estranhas de ser observadas: eu sabia exatamente qual seria o próximo movimento do servo lá embaixo, como se eu mesmo estivesse pensando nele. Estar no alto, portanto, dava-me uma grande vantagem, pois eu possuía dois pontos de vista praticamente simultâneos. Faltavam poucos servos para que o cemitério fosse totalmente limpo quando três dos inimigos cercaram e renderam meu servo.

Quando ele foi derrubado no chão, decidi assumir a luta, afinal a energia pura que Plínio havia me emprestado ainda permanecia dentro de mim. Saltei da capela, com um vigor digno de meus tempos áureos, peguei minha espada e eliminei, um a um, os servos que ainda estavam lá. Contei pouco mais de vinte servos, que emergiam de seus esconderijos: sombras criadas por capelas no entardecer, a parte de trás de altos túmulos, irregularidades no terreno. Decepava suas pernas quando conseguia, ou então seus braços, pois incapacitá-los fisicamente era o único modo de refrear a investida dos que já eram mortos.

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