XLIV – De Abel.

by F. Pergher

Capítulos I-XL
XLI – Do retorno à cidade e da visita a Oscar.
XLII – De Caim.
XLIII – Do segundo cemitério.

Corri na direção de Margarida, que continuava no chão, assim que me certifiquei que o último dos servos que habitavam o cemitério havia caído. Quando estava próximo dela, ouvi um grito de Plínio, que fez-me parar meu caminho imediatamente.
– Fausto, espere! – ele caminhava até mim, num passo que se podia dizer acelerado.
– O que foi, Plínio? Todos os inimigos estão caídos já.
– Não é seguro manter todas essas almas condenadas em nosso plano. Use a energia que eu te dei e exile-as de volta para o plano superior. Depois, queimarei os corpos com minhas chamas fátuas.
– Certo, Plínio, proteja-me enquanto faço isso.
Desenhei mais um círculo, dessa vez mais concentrado que o anterior, e acumulei nele energia suficiente para mandar todas aquelas almas de volta de uma só vez. Ao terminar as preparações e finalmente iniciar o exílio daquelas almas, não consegui concentrar nenhuma entropia na direção daquelas almas. Levantei, saindo de perto do círculo.
– O que houve, Fausto? Não tem energia para exilar essas almas?
– Não, Plínio. Eu simplesmente não consegui exilá-las.
– Como assim?
– Quando tentei canalizar minha energia até aquelas almas, eu simplesmente não as encontrei.
– E como isso pode ser possível?
– Talvez as almas estejam seladas nos corpos.
– Não, caso contrário eu nem mesmo teria conseguido sentir sua entropia. Vou ver que tipo de energia elas emanam – e, após uma curta pausa olhando na direção das almas, Plínio desatou a rir – Ora, Fausto, acabei de entender por que você não conseguiu exilar essas almas.
– E por que zombas disso, Plínio?
– Por que não existe alma nenhuma aí. Quem quer que seja que invocou esses servos, não deu a eles uma alma. Lutávamos contra autômatos.
– E autômatos tão desenvolvidos a ponto de atacarem estrategicamente… Não interessa agora, temos que dar um jeito em Margarida, Plínio. Faça o que tiver que fazer com esses corpos, vou ver se consigo reanimá-la.
E mal Plínio iniciou a queima dos corpos com a chama fátua que eu já conhecia, eu estava do lado de Margarida. Pude sentir que ela ainda respirava, era difícil entender o porque daquelas criaturas deixarem-na viva. Sua alma estava definitivamente em seu corpo, mas no estado em que ambos estávamos, seria impossível que eu passasse a ela qualquer tipo de energia. Aguardei que Plínio chegasse perto de onde eu estava, com suas chamas ainda queimando.
– Já ressuscitou Margarida, Fausto? – ele perguntou, parecendo apressado.
– Não há ressurreição a se fazer, caro Plínio. Margarida está viva, mas drenada de energia.
– Posso resolver isso de um jeito fácil – ele disse, e procedeu a passar parte da própria entropia de seu corpo para Margarida – agora é só esperar que ela volte aos sentidos. Fausto, acho que temos um grande problema.
– Por que o afirmas, Plínio?
– Acredito que a suspeita do Errante dos Múltiplos Planos está correta: estamos lidando com os infames Caim e Abel.
– Isso não é possível, todos sabemos, entre as Artes Ocultas, que Caim e Abel não dominavam nenhum tipo de técnica que deixasse-os longevos como a maioria dos renomados usuários.
– Então alguém trouxe eles de volta.
– E por que tens tanta certeza disso, Plínio?
– Veja, no outro cemitério fomos atacados de forma brutal: um exército de almas em corpos primorosamente ressuscitados, e todas elas pareciam furiosas conosco. A técnica de luta de Caim, técnica que inclusive acabou fazendo ele ser conhecido pela alcunha bíblica, é basicamente ódio puro.
– Muitos dos usuários que desafiam o uso padrão das Artes Ocultas também tem como combustível o ódio. Isso não é uma boa evidência, meu caro.
– Certo, mas veja no segundo cemitério: Autômatos, sem alma e nem uma boa constituição física, confiando mais na estratégia do que na força bruta, e principalmente: não tinham o objetivo de matar. Abel era conhecido por sua piedade: apesar de ser transviado, jamais executava seus inimigos.
– E o fato de Abel estar vivo implica que Caim também esteja?
– Provavelmente sim. Os dois foram enterrados próximos um ao outro, além disso, estrategicamente, a combinação das duas táticas de luta é simplesmente mortal. Além disso, se nos prepararmos para enfrentar Abel e Caim, tenho certeza que estaremos preparados para enfrentar também qualquer outra ameaça menor que nos afetar.
Não pude deixar de concordar com Plínio. Se assumíssemos o pior, estaríamos também preparados para picuinhas menores. Margarida começava a levantar-se, sem sobressaltos.
– Margarida – eu disse, precipitando-me – o que aconteceu?
– Fausto… – ela começou, parecendo ainda meio atordoada – onde está Mefisto?
– Mefisto caiu em combate, e mandou que encontrássemos você – Plínio respondeu. Ele tinha muito mais facilidade do que eu em responder perguntas, principalmente desse tipo.
– Bom, se por acaso ele voltar, vou ter que pedir desculpas para ele. – ela falou enquanto colocava-se em pé.
– Por que? – perguntei – O que aconteceu no outro cemitério?
– Foi estranho, na verdade. Eu entrei lá com Mefisto, e aí alguma coisa ressoou na minha mente, não tenho certeza. Sei que ele parecia um inimigo, e prender ele parecia a coisa mais certa a se fazer.
– Não desconfiaste de nada quando mandaram-te atacar Mefisto?
– Não mesmo, Fausto. Só pensei nessa possibilidade quando cheguei aqui e tava completamente cercada por esses lacaios. Aí quando eu vi que não ia dar pra pegar todos eles sozinha, eu deixei eles me subjugarem, assim não me cansaria, e estaria pronta pra quando Mefisto chegasse. Mas não esperava que Mefisto caísse em combate, achei que ele logo viria. E não achei que fossem drenar minha energia também.
– Isso é um bom sinal – falou Plínio.
– Bom sinal? – retruquei.
– Ora, se tentaram separar os dois, é porque temem um ataque duplo, ou coisa do gênero. Enquanto ficarmos juntos, pelo menos vamos intimidar quem quer que seja que está por trás disso.
Ouvi um ruflo de mato seco vindo da estrada que se encaminhava até o cemitério, e olhei para ela, buscando o que causava o som. Pude ver duas figuras vindo ao longe, uma delas alta e longilínea, outra mais proporcional. Usavam roupas simplórias, e vinham caminhando num passo altivo e rápido, típico de quem sabe onde quer chegar. Não as reconheci de imediato, mas soube de onde vinham pela vermelhidão de suas cabeleiras.

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