L – Da aparição de Plínio.

by F. Pergher

Capítulos I-XL
XLI – Do retorno à cidade e da visita a Oscar.
XLII – De Caim.
XLIII – Do segundo cemitério.
XLIV – De Abel.
XLV – De oportunos reencontros.
XLVI – Da aparição de Caim.
XLVII – Da confrontação.
XLVIII – De minha intervenção.
XLIX – De como Abel lutou.

Basílio e Bernardo, dispondo da energia de Elisa, conjuraram para si um verdadeiro arsenal. Os dois agora trajavam armaduras, iguais, talvez até mesmo as próprias, às armaduras com que lutavam da última vez que eu os vira. Uma liga de metal com força suficiente para aguentar ser pisoteada sem estar minimamente amassada depois constituíam suas botas, e protegiam suas pernas, antes cobertas por tão pouco quanto uma calça de linho.

Depois, haviam os peitorais, construídos de forma a serem leves e eficientes com a menor quantidade possível de metal – o reino a que serviram era conhecido pela qualidade de sua engenharia. Por fim, seu elmo, que cobria todos os pontos sensíveis de seu crânio, além de possuir proteção de malha de ferro ao pescoço. Apenas as flâmulas e o penacho diferiam da última vez que os vira: Se antes eram de um azul de lápis-lazúli, agora pareciam tecidas com a cor do céu noturno.

Não menor era seu arsenal: cada um deles portava duas espadas na cintura, uma lança na mão direita, um escudo na mão esquerda, uma maça presa estrategicamente ao ombro da armadura, e duas pequenas adagas discretamente colocadas nas botas, das quais eu só sabia por já ter visto a eficiência daquelas armaduras em ação.

Glória, também, havia usado sua parcela da energia de Elisa: Havia reestabelecido sua integridade física e ainda absorvido um pouco daquela aura para ao redor de seu corpo, como proteção. Elisa, percebendo que os três já haviam feito o uso de sua energia, expandiu-a o máximo que pôde, até que envolvesse a área inteira do cemitério e boa parte de seus arredores, e então pareceu libertar toda a energia de uma só vez: pequenas espadas subiam, parecendo saber a quem deveriam atacar, perfurando todos os servos hostis.

– Bom, só terei essa oportunidade – falou Plínio.

Percebi que preparava um ataque, pude sentir sua concentração massiva de energia. Experiente como era Plínio, canalizava sua energia para um ponto no centro do cemitério, para só a partir daí começar a executar sua técnica. Eu reconhecia aquelas chamas azuis, que alastravam-se pelo cemitério, e crescendo em um foco de incêndio quase incontrolável ao encontrar restos mortais de algum servo qualquer. Elisa virou a cabeça discretamente em minha direção, sorrindo, como se houvesse entendido a ajuda, e depois gritou para Abel:

– Agora seus servos estão mortos, e seus corpos queimados até não sobrar possibilidade nenhuma de voltarem à vida. Acham que conseguem continuar sem ser de uma forma covarde?

Abel permaneceu em silêncio perante a provocação de sua inimiga. Assim que a última labareda terminou de queimar, a luz do solo do cemitério diminuía progressivamente, e agora voltava a ser apenas uma aura brilhante ao redor dela.

– Ainda tenho uma mensagem para elas, Fausto. Obrigado por emprestar seu corpo, e até mais. – dizendo isso, Plínio voltou a ser uma projeção astral, constituída meramente de energia, e encaminhou-se para longe do cemitério, buscando não revelar minha presença no lugar.

– Devo admitir – disse Abel – que fostes superiores a mim. Mas isto não implica que nossa batalha haja terminado, caros.

Abel voltou, com a mesma falta de imponência com a qual viera até o cemitério, para dentro do pequeno bosque que atrás dele ficava. Eu sabia, nesse momento, que deveria me manter passivo: não acreditava que ele não possuía um plano além daquele. Calculei, pela posição da lua, que já passava da meia noite. O cemitério voltava a ser silencioso, e as duas Catarianas haviam baixado sua guarda. Eu gostaria de avisá-las para que tomassem cuidado, mas não possuía meios de fazê-lo sem me revelar.

De repente, todos sobressaltaram-se, e olharam na direção da porta do cemitério. Assustei-me por um breve momento, até lembrar que era a projeção astral de Plínio que chegava até eles. Pude confirmar isso logo em seguida, com ela sendo recebida alegremente pelas duas Catarianas.

– Plínio, que bom te ver! – exclamou uma sorridente, como de costume, Elisa.
– Olá, Elisa e Glória. E saudações aos dois jovens que ainda não conheço.
– Sou Basílio, e esse é Bernardo. Somos guardas reais, e viemos em auxílio às moças.
– Hum, fazia tempo que eu não via guardas reais. Isso facilita meu trabalho.
– Seu trabalho? – perguntou Glória.
– Sim, tenho uma mensagem, na verdade é mais uma convocação, a vocês. Glória, você deve vir comigo agora. E precisa vir acompanhada, já que pouco eu posso fazer além de guiar o caminho.
– Acompanhada… Elisa, você vai comigo? – perguntou Glória, talvez um pouco apreensiva.
– Não – interrompeu Plínio – acredito que seria uma melhor escolha se um dos garotos viesse conosco. Afinal, eles são guarda costas.
– Se alguma donzela necessita de qualquer tipo de apoio, posso fornecê-lo – Basílio pôs-se frente a Plínio.
– Ótimo, já temos um voluntário. Agora, eu gostaria de conversar mais com vocês, caros, mas infelizmente não tenho muito tempo a perder. Glória, Basílio, sigam-me – falou Plínio, e procedeu em sair do cemitério pela porta principal.

Os dois seguiram-no, Glória à frente, e Basílio um pouco mais atrás. Antes que estivesse longe, Plínio ainda deu um último aviso:

– Mantenha sua guarda alta, Elisa. Acho que os ataques não vão parar ainda.

Plínio, parecendo ler minha mente, havia alertado-a que ficasse em guarda, evitando assim ser pega de surpresa. Ela pediu que Bernardo montasse guarda por algum tempo, e assumiu a mesma posição de lótus que havia assumido anteriormente, voltando a acumular sua energia. Haviam mais ou menos sete horas, ainda, antes que o sol começasse a nascer. Secretamente, eu esperava poder me mover em pouco tempo, pois minhas pernas já estavam adormecidas. Ainda assim, mantive-me apenas observando enquanto Elisa recuperava suas energias e Bernardo sentava a seu lado, com uma das espadas em mãos, pronto para dizimar qualquer servo que ainda pudesse aparecer.

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