XLIX – De como Abel lutou.

by F. Pergher

Capítulos I-XL
XLI – Do retorno à cidade e da visita a Oscar.
XLII – De Caim.
XLIII – Do segundo cemitério.
XLIV – De Abel.
XLV – De oportunos reencontros.
XLVI – Da aparição de Caim.
XLVII – Da confrontação.
XLVIII – De minha intervenção.

 

Eu continuava em meu esconderijo. Meu terceiro servo estava pronto para lutar, quando fosse necessário. Enquanto isso, Bernardo e Basílio afrontavam Abel, impassíveis, pondo-se no caminho entre ele e o lugar onde estavam Glória e Elisa. Abel, por sua vez, analisava tudo com olhos predatórios, não parecendo intimidado, e muito menos disposto a frear seu ataque.

– Não vem-me à memória quem são, ou de onde vem – ele falou em um tom de voz tranquilo, amigável – mas está fora de meus planos fazer qualquer vítima além das duas mulheres que vós defendeis.
– Pois bem – Bernardo retrucou, ainda agindo com a mesma seriedade de quem luta pela própria vida – não está em meus planos que tu faças qualquer vítima, incluindo as duas mulheres que defendemos.
– Sois mesmo determinados, jovens. Acredito que deva mostrar a vocês o que enfrentam aqueles que se opõem à mim! – Abel disse, mais enérgico.

Imediatamente, seus servos fecharam o cerco a Basílio e Bernardo. Escusado dizer que, para dois homens que quando em vida haviam sido guardas reais, não seria difícil esmagar uma pequena horda dos servos que eram comparáveis a crianças, no máximo pré adolescentes em constituição física. E que, por mais que possuíssem uma inteligência acima da média, não possuíam nenhuma resistência física que os possibilitava viver para pô-la em prática.

Basílio e Bernardo continuavam lutando como verdadeiros guardas: exterminando-os com eficiência, sem recuar e nem avançar a menos que soubessem exatamente onde estavam pisando. Eu sabia que Abel provavelmente teria alguma estratégia maior e gostaria de poder alertá-los sobre tal, mas deveria transcorrer o máximo de tempo possível sem revelar minha presença ali. Afinal, nenhum de nós sabia o que esperar depois de Caim e Abel, talvez o elemento surpresa fosse uma chance grande demais para ser desperdiçada.

O que importava, por enquanto, é que Basílio e Bernardo, sem qualquer tipo de armadura, munidos cada um de apenas uma espada, conseguiam segurar a absoluta maioria dos servos de Abel, e de alguns dos de Caim que haviam sido restaurados e insistiam em atacar. Os poucos que passavam por seu bloqueio eram prontamente incapacitados por Glória, assim que aproximavam-se dela. Abel observava passivo enquanto cada um de seus servos era subjugado por um ou outro de meus guerreiros.

De repente, como não se podia esperar menos, Abel mudou sua estratégia de luta. Alguns de seus servos que aguardavam do lado de fora do cemitério começavam a entrar nele, e iam em direção a Elisa e Glória, tanto por seus flancos, quanto por trás de onde elas estavam. Eu achei que deveria avisá-los no mesmo momento, mas felizmente Glória tratou do assunto.

– Moços! Tem muitos vindo daqui! – ela gritou, não perdendo um segundo entre dois golpes que arrasaram dois servos.
– Basílio – Bernardo chamou – cubra-me!

Bernardo deu as costas para os poucos servos que ainda o atacavam, e correu na direção de Glória. Basílio, vendo-se sozinho entre os poucos inimigos que ainda restavam, também começou a recuar de costas, incapacitando mais servos, mas ao mesmo tempo deixando-os avançarem cada vez mais em direção a Glória e Elisa. Enquanto as ofensivas eram repelidas por Bernardo, junto com Glória, Elisa continuava fazendo o que fizera até então: acumulando energia, em posição de lótus.

Basílio já havia exterminado a maioria dos servos que efetuavam ataques frontais, e a exaustão já começava a abater-se sobre os três guerreiros quando Glória caiu, não suportando mais o próprio peso. Seus socos haviam gradualmente enfraquecido, e ela demonstrava ainda outros sinais de esgotamento, tendo seu último golpe praticamente errado o alvo. No chão, seria presa fácil para os servos, não fosse a eficaz guarda de Bernardo.

Tão logo Basílio eliminou o ataque frontal, correu até onde estava Bernardo, desviando de Elisa. Em geral, Basílio possuía uma maior resistência do que Bernardo, cujo preparo físico era mais baseado na força de ataque.

– O que sucedeu à moça, Bernardo?
– Não suportou a exaustão. – Bernardo desviou, a duras penas, uma investida de um dos sanguessugas. – ela está lutando sem parar desde o início da noite.
– Tire ela daqui – Basílio falou, sem parar de atacar – não sei quanto tempo aguentarei.

Bernardo pegou Glória nos braços e afastava-se do foco dos ataques, na direção da capela onde eu estava. Era a única possível rota de fuga, já que qualquer uma das outras estava bloqueada pelos ainda remanescentes servos de Abel. Quando o viu afastando-se, porém, Elisa finalmente abriu seus olhos e chamou-o de volta.

– Bernardo, fique perto de mim.

Ele parou e olhou para ela, incrédulo. Elisa levantou-se de sua posição de lótus, e repetiu a mesma ordem para Basílio. Os dois relutaram um pouco, mas obedeceram-na, e apesar dos servos de Abel ainda avançarem em sua direção, os dois agora estavam de frente a Elisa.

– Não tenho muito tempo para agradecer – ela disse – mas vocês fizeram um bom trabalho. Eu assumo daqui.

E dizendo isso, virou-se na direção das hordas. Senti a presença de alguém perto de mim, e mal tive tempo de sobressaltar-me antes de perceber que era Plínio, ou pelo menos uma projeção astral, parecida com aquela que ele costumava usar ao passar por mim casualmente na rua.

– Fausto – ele disse, rapidamente – empreste-me seu servo!
– Como assim, Plínio?
– Quero fazer um pequeno favor às Catarianas, e além disso, tenho uma mensagem a elas.
– Pode usá-lo – eu falei – mas o que pretende fazer?
– Apenas observe – ele respondeu, e projetou, então, sua alma no corpo de meu servo. Depois, colocou-se a meu lado – eu posso descer lá?
– Não – falei – minha existência aqui está encoberta, se tiver que fazer algo, faça-o sem revelar meu esconderijo.
– Hum, quem diria, salvo pela própria incapacidade de seus ocultistas – Plínio entendeu rápido que se não fosse visto, dificilmente minha energia seria detectada por outros usuários. – Aguardemos, então.

Elisa continuava virada para seus atacantes, parecia esperar que eles chegassem perto o suficiente. Quando pareceu o momento certo, ela liberou a energia da aura brilhante que a envolvera até então, mas dessa vez, projetou-a no solo. Em um raio de três metros, o chão sobre ela passou a resplandecer com a mesma aura que emanava seu próprio corpo, e qualquer um dos servos que pisava lá era perfurado por uma espécie de estalagmite que parecia feita de pura luz.

– Agora, esse é meu solo sagrado – disse ela aos outros três – abasteçam-se de energia, antes que eu use o resto dela para terminar essa luta de uma vez por todas.
– Ouviste a garota, Bernardo? – Basílio falou, animado. – Hora de descobrimos se ainda somos capazes de conjurar como éramos.
– Ouvi, Basílio – Bernardo expressava um sorriso – E era justamente do que precisávamos.

Os dois guardas reais prosseguiram para, através da reserva de energia de Elisa, conjurarem trajes completos de batalhas para si. Em questão de segundos, vestiam em seu corpo – além de em suas suas almas – a dignidade de verdadeiros guerreiros, tais foram no passado.

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