XLV – De oportunos reencontros.

by F. Pergher

Capítulos I-XL
XLI – Do retorno à cidade e da visita a Oscar.
XLII – De Caim.
XLIII – Do segundo cemitério.
XLIV – De Abel.

Quando as duas figuras chegaram perto, finalmente identifiquei-as: eram Glória e Elisa que vinham na direção do cemitério. Vieram até onde estávamos, sem alterar seu passo rápido.

– Felizmente acabamos nos reencontrando mais cedo do que o esperado – começou Elisa, sorrindo, em seu tranquilo tom de voz.
– Lamento que as condições não sejam boas. – assumi que elas soubessem como estava a situação, afinal, haviam achado-nos.
– Sinceramente, pela quantidade de energia que eu pude sentir, achei que estariam piores. Fico feliz que vocês já tenham controlado, ou pelo menos estabilizado a situação. – ela disse, radiante como se nada grave estivesse acontecendo a seu redor. – Onde está Mefisto?
– Mefisto caiu em combate – eu disse, imitando a resposta que Plínio havia dado a Margarida. – lutaremos por nós mesmos a partir de agora.
– Isso não é uma boa notícia – tudo que o sorriso de Elisa irradiava antes havia convertido-se em uma expressiva tristeza – não é bom perdermos um reforço tão importante agora.
– O Errante disse que seríamos capazes de passar pelo que estaria nos atacando – interveio Plínio – além do mais, não podemos perder nosso moral. Elisa, Glória, o que trouxe vocês até aqui, exatamente?
– Acho que o mesmo que trouxe vocês até aqui: uma perturbação muito grande de energia. Gostaríamos de ter trazido mais reforços, mas Lúcio já estava fora e o Pastoreio resolveu ficar para defender nosso acampamento, junto com Pânfilo e Emília, caso alguma coisa acontecesse por lá.
– Lúcio está fora?
– Sim, ele voltou aos arquivos da biblioteca assim que vocês partiram.
– Eu acho melhor irmos ao encontro dele – disse Plínio, dirigindo-se a Margarida – Como Mefisto já havia dito antes, não é bom que deixemos qualquer um de nós sozinho.
– Por mim tá tudo bem. Vamos brincar de bombeiros e ir atrás do pequeno Lúcio – disse Margarida, não parecendo muito animada com a ideia.

Sem muitas delongas, Plínio e Margarida partiram, apressadamente, de volta à cidade. Fui deixado sozinho com a antes alegre Elisa, que parecia cada vez mais preocupada com a situação, e Glória, que, tipicamente, não falava uma palavra. Sua comunicação comigo resumia-se em alguns olhares ocasionais.

– A gente não tá em um bom lugar pra conversar – finalmente falou Glória. – Acho bom procurar um lugar mais seguro, porque ainda tem muita variação de entropia por aqui.

Saímos do lugar onde antes ocupávamos, praticamente o centro do cemitério de solo ainda quente, e sentamos perto de um dos cantos do muro que o envolvia. Glória recomendou que sentássemos de costas um para o outro, assim cada um teria um campo de visão diferenciado, e poderíamos estar em alerta mais facilmente caso algum inimigo se fizesse presente.

– Acredito que seja necessário – comecei a falar – que vocês saibam sobre nosso possível inimigo.
– Que possível inimigo? – perguntou Glória, parecendo legitimamente interessada.
– Não tenho certeza absoluta – respondi – mas tanto o próprio Errante quanto Plínio chegaram à conclusão que enfrentamos Caim e Abel, uma mítica dupla de usuários das Artes Ocultas.
– Fale mais sobre eles – disse Glória – só ouvi rumores até hoje.
– Pois bem. Caim e Abel passaram a ser conhecidos por essa alcunha devido a seus extremismos, que lembravam os bíblicos filhos de Adão. Caim é uma apaixonada força bruta arrasadora, impiedoso, pronto a fazer o que for possível para satisfazer seus interesses. Teria tudo para ser um típico vilão na história, não fosse por Abel. A frieza calculista de Abel, somada à bondade de suas intenções, permitiu a ele agir como uma barreira para o ímpeto de seu parceiro. Apesar de serem considerados usuários subversivos, nunca foi sequer especulado que ambos tivessem tido algum vínculo com ordens malignas de usuários.
– E por que estão atuando contra a gente agora? – Glória parecia finalmente interessada no que eu dizia.
– Ainda não tenho a mínima ideia. O que importa que saibamos sobre eles é o modo que atuam: durante suas curtas vidas, eles praticavam a mercenária para sustentar suas pesquisas, muitas delas táticas, e outras diretamente relacionadas à entropia. Sobre as táticas, tive a oportunidade de testemunhar o modo de combate padrão dos dois em separado, mas nunca os vi lutando juntos.
– E como isso vai nos ajudar? – Glória interrompeu-me.
– Vocês saberão algo sobre eles, pelo menos. Caim utiliza almas em seus servos, e consegue invocar uma imensa quantidade deles em pouco tempo. Fisicamente, possuem uma constituição robusta, mais até do que os vivos, e áreas cognitivas superdesenvolvidas, o que os torna verdadeiras máquinas de matar. Abel é mais metódico: usa-se de poucos servos, bem resolvidos, mas de constituição minúscula, se comparados aos de Caim. Não possuem alma e atacam como sanguessugas, drenando a energia do inimigo. Além disso, Abel é um grande estrategista, e consegue cercar qualquer inimigo com a quantidade mais eficiente de seus servos e nenhum a mais. Mesmo com toda essa potência, Abel é conhecido por nunca ter matado, nem mesmo por intermédio de servos, um de seus inimigos. É um agente de captura.
– E isso faz com que os dois juntos sejam um time perfeito – Elisa falava em um tom emotivo, como se estivesse prestes a chorar – captura e extermínio. Estratégia e força.
– Se acalma, Elisa – disse Glória, parecendo impaciente – a gente tem essas duas coisas também.
– Gosto de sua autoconfiança, cara Glória. – eu falei a ela. Minha única resposta foi o silêncio.

A respiração funda e pesada de Elisa era o som mais proeminente que eu consegui ouvir durante uma quantidade razoável de tempo. Gostaria de estar mais tranquilo sobre minhas aliadas naquela possível luta, mas o jeito que Elisa agia não me encorajava nem um pouco. Mais fácil o contrário.

Eu prestava atenção a meu redor, esperando por algo que eu nem sabia o que era, quando de repente senti um sobressalto simultâneo em minhas duas aliadas. Glória levantou-se de imediato, e Elisa também levantou após um curto espaço de tempo. As duas olhavam na direção do pequeno bosque que havia nas redondezas, e Elisa foi a primeira a falar, apontando na direção do bosque.

– Senti uma variação enorme de entropia vinda daquele lugar. É bom estarmos prontos.
– Fausto, esconda-se. – disse Glória, quase imediatamente.

 

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