XLVI – Da aparição de Caim.

by F. Pergher

Capítulos I-XL
XLI – Do retorno à cidade e da visita a Oscar.
XLII – De Caim.
XLIII – Do segundo cemitério.
XLIV – De Abel.
XLV – De oportunos reencontros.

 

Eu estava avisado sobre a capacidade acima da média da mente de Glória, mas não entendi onde ela pretendia chegar, mandando que me escondesse. Questionei-a, mesmo sabendo não termos muito tempo útil para tal.

– Perdão, Glória, por que pedes que eu me esconda?
– Por que sim. A gente não veio até aqui pra ficar olhando o grande ocultista lutando contra seus inferiores. – o escárnio em sua voz era evidente.
– Eu e Glória já lutamos junto, Fausto, temos uma estratégia concisa. – Elisa explicou, talvez cumprindo o papel que originalmente seria de Glória – E também, caso o inimigo nos surpreenda, você pode surpreender ele também a partir de seu esconderijo. Sem contar que pode até mesmo nos ajudar, a partir dele.
– Terei que concordar com vocês. Glória, não estrague tudo – falei, tentando retribuir o escárnio. Fui respondido com um olhar fulminante da valente Catariana, que parecia ansiosa para que qualquer forma de vida atacável aparecesse.

Pensei, então, em possíveis esconderijos naquele cemitério. Não podia negar que estava com muita vontade de finalmente ver Glória lutando, queria saber se ela merecia a estima que o Pastoreio lhe dava. Por isso, considerei algum esconderijo que me possibilitasse enxergar o campo de batalha, até por fins estratégicos. Havia uma capela amplamente decorada, um pouco distante do canto onde estávamos, pus-me a andar o mais rápido que pude até ela. Por entre os balaustres, lambrequins e estátuas, pude esconder-me tranquilamente, e ainda enxergar o campo de batalha de um ângulo favorável.

As duas pareciam em uma espécie de transe, enquanto sentiam o que quer que fosse no capão de mato à sua frente. Nenhuma fazia sequer um movimento, e eu conseguia sentir uma leve variação de entropia na direção delas, se me concentrasse. Uma suave brisa agitava as árvores de folhagem densa, brisa que aumentava aos poucos.

De repente, sem nada que permitisse que prevíssemos, alguns servos saíam do mato. Pude ver Glória colocando-se à frente, e Elisa concentrando entropia em seu corpo. Um a um, os servos foram saindo pela curta trilha, e parando quando faltavam cerca de vinte passos para que estivessem próximos de Glória. Lentamente, entravam no cemitério por um lugar onde o muro era caído, e antes de me perder em meus cálculos, pude contar cento e vinte servos. Podendo vê-los mais de perto, eles tinham praticamente a mesma altura de Glória, porém eram maiores em estatura corporal.

Quando todos eles finalmente haviam se assentado em dois blocos uniformes, separados por um pequeno espaço, o suficiente para que alguém passasse caminhando por entre os servos, consegui ver Caim saindo de dentro do pequeno bosque. Ele andava calmamente, como se quisesse prolongar ao máximo o tempo até a batalha. O sol já quase terminava sua descida quando pôs-se frente às duas Catarianas. Mal podia distinguir seu vulto, com a pífia claridade que ainda iluminava o ambiente. Agora, a luz mais forte era a aura que se projetava do corpo inerte de Elisa, que permanecia em pé com os olhos fechados.

– Façam livre meu caminho. – sua voz soava como uma tuba das mais ásperas.

Nenhuma das duas Catarianas disse nada. O cemitério manteve-se totalmente estático por alguns segundos, e finalmente Elisa abriu seus olhos. Glória, como se sentisse o movimento das pálpebras de sua companheira, virou-se para trás e pôde ver Elisa acenando-lhe afirmativamente.

– Vai depender só de você – disse Glória – mas enquanto a gente tiver em pé, nenhum caminho vai ser feito livre.
– Como desejares, Catariana. – respondeu Caim – Eu não esperava ter que manifestar meu poderio, mas se preferes de tal forma, que digladiemos.
– Lutaremos sim – Elisa falava, não menos calma do que naturalmente era – mas em condições justas.

E tampouco terminou sua frase, abaixou-se em um movimento rápido, e encostou as palmas de suas mãos no chão. De repente, tudo pareceu fazer sentido para mim: a aura branca que eu via ao redor dela intensificou-se, e quatro correntes de energia espalhavam-se pelo solo, em direção a cada um dos cantos do cemitério, porém, ultrapassando seus limites. As correntes, ao atingirem um determinado ponto, lançaram-se ao céu como projéteis, e acenderam-se, gerando uma claridade que praticamente fez amanhecer no perímetro perfeitamente quadrado demarcado pelos vértices luminosos.

Finalmente eu conseguia ver Caim, nesse momento tive certeza que era com ele que lidávamos. Podia ver seu diadema de aço, já corroído pela ferrugem, emoldurando seu rosto, os ombros de sua armadura ainda inteiros, apesar de igualmente oxidados, e a túnica de linho que ele vestia normalmente, amarelada em alguns pontos e imunda de terra em outros. As feições, apesar de emagrecidas e acinzentadas, eram as mesmas às quais estava acostumado: olhos profundos, nariz afinado e rosto quadrangular, de linhas agudas, quase como um mármore cinzento esculpido aos cortes de cinzel.

Elisa, por sua vez, irradiava entropia na forma de uma aura branca. Eu havia entendido finalmente o princípio das misteriosas Artes usadas pelos Catarianos: já sabia que energia branca derivava diretamente de fenômenos naturais: fotossíntese, mudança de estados físicos, amadurecimento, até mesmo emoções. O que eu não sabia é que eles conseguiam controlá-la conforme sua própria vontade.

Caim não demonstrou relutância alguma perante as duas Catarianas: simplesmente deu-lhes as costas, voltando por onde havia chegado: pelo corredor de seus servos perfeitamente moldados. Chegando no fim dele, sem ao menos virar seu rosto, gritou da forma mais horrível que eu poderia ter imaginado, se sua voz antes soara como uma tuba, agora havia soado como uma cacofônica orquestra de metais desafinados.

– Criaturas da noite, impetuosas almas que até mim vieram, avancem!

E tendo dito isso, voltou em direção ao pequeno bosque, que parecia menor ainda iluminado pelas chamas de Elisa. Lentamente, embora de forma caótica, os servos de Caim avançavam sobre Glória, que se mantinha imóvel, afrontando-os. Elisa recuava, ainda envolta pela brilhante aura branca. Pareciam esperar o último segundo para tomar qualquer tipo de atitude contra seus atacantes.

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