XLVII – Da confrontação.

by F. Pergher

Capítulos I-XL
XLI – Do retorno à cidade e da visita a Oscar.
XLII – De Caim.
XLIII – Do segundo cemitério.
XLIV – De Abel.
XLV – De oportunos reencontros.
XLVI – Da aparição de Caim.

 

Em pouco tempo, um dos servos chegou até onde estava Glória. Direcionou a ela um soco, e eu podia apenas imaginar qual era o nível de força daqueles seres. Glória previsivelmente evitou o golpe e, sem recurar um passo que fosse, acertou o pescoço do servo com seu punho. O impacto foi suficiente para desnorteá-lo, e Glória, então, foi para perto de onde estava Elisa.

As duas conversaram algo em voz baixa, que de meu esconderijo não pude ouvir, e depois Elisa estendeu sua mão na direção de Glória. A aura de energia branca que iluminava Elisa e suas redondezas agora também envolvia Glória, que tornou a correr na direção dos inimigos assim que a se fez presente a aura. Assim que Glória atingiu o primeiro deles, entendi que aquela aura provavelmente aumentava sua força, ou resistência à dor, pois o servo caiu entre espasmos assim que recebeu um murro no alto da cabeça.

Eu mal conseguia acompanhar o ritmo de Glória: parecia que ela era atraída para as zonas com menos inimigos tamanha sua destreza ao mover-se. Ao mesmo tempo, derrubava quase instantaneamente qualquer um que se pusesse em seu caminho, sem derramar muito sangue: suas pancadas provavelmente causavam um maior dano interno do que externo. Conforme ela avançava, as fileiras de servos que deixava para trás, de alta capacidade cognitiva, viravam-se, e seguiam-na.

Mesmo parecendo cercada, Glória não teve muita dificuldade de passar pela desordenada horda que se impunha por todos os lados. Depois de derrubar um círculo de oito servos com pancadas e abrir um espaço que lhe permitiu parar por alguns segundos, pude vê-la ofegar. Olhou para seus dois lados, e não sei se por entre os servos ela pôde ver, mas já havia passado da metade da horda. Após um curto momento de incerteza, continuou correndo na direção do bosque, porém, mais esquivando-se do que atacando dessa vez.

Olhei para Elisa: eu gostaria de acreditar que as duas Catarianas tinham um plano de ação. Porém, Elisa parecia ainda parada no mesmo lugar: sentada em posição de lótus, próxima a uma das paredes limítrofes do cemitério, em uma espécie de meditação, provavelmente acumulando energia. De uma coisa eu tinha certeza: Fosse quem fosse o inimigo, aquela luta em nada era justa.

Decidi intervir, ou pelo menos estar preparado, a partir do momento em que os servos começavam a se organizar. De funções cognitivas amplamente desenvolvidas, não era difícil para eles adequarem suas estratégias uma vez que descobrissem como o inimigo agia. Agora, eles encurralavam Glória quase no mesmo lugar onde ela estava desde antes, e pareciam assumir uma postura mais defensiva em relação ao que faziam anteriormente. Também tomavam o cuidado de atacar sempre em grupos de três ou mais, já que a ambidestreza de Glória havia provado-se um problema para eles.

Do modo mais discreto que conseguia, para evitar chamar a atenção de possíveis sensores, comecei a concentrar minha energia, de cima da capela. Ocultistas não são bons detectores de variações da entropia. Eu possuo uma sensibilidade alta, que é resultado de anos de afinação e desenvolvimento, e ainda assim apenas consigo sentir variações na entropia quando concentro-me muito no mundo a meu redor. Catarianos e mestres das Artes Nobres o fazem com maior facilidade.

Glória parecia, pela primeira vez, não estar no controle da situação, mas ainda assim, continuava lutando, envolta pela alva aura que Elisa havia dado-lhe mais cedo. Assim que a energia que eu acumulava era suficiente, tratei de logo desfazer-me dela restaurando três dos corpos que jaziam na capela abaixo de mim. Glória, depois de quase ser capturada em um ataque simultâneo de cinco servos, correu na direção para a qual originalmente andava, mais empurrando do que golpeando os servos.

Parecia pretender tomar distância para algum outro tipo de ataque, mas tão logo desvencilhou-se do grupo que a atacava, pisou em falso em um pedregulho que havia se soltado do chão, e não conseguiu manter seu equilíbrio. Caiu debruçada ao chão, e imediatamente virou-se, permanecendo sentada. Analisava o inimigo à sua frente, a essa altura ainda existia mais de uma centena de mortos vivos em pé. Ela respirou fundo, tanto que pude ver de meu esconderijo seu movimento torácico, como quem estufa o peito.

– Elisa! – ela gritou, energicamente.
– Bom trabalho, Glória – ouvi Elisa falar, mais para si mesma do que para a outra, enquanto levantava-se da posição que ocupara até então. Começava a se aproximar da horda, que, voltada na direção de Glória, pouco percebeu, ou pouco se importou, com sua aproximação.

Quando alguns dos seres acinzentados estavam quase a ponto de atingir Glória, sua aura cresceu rapidamente, até tornar-se uma esfera de energia que a envolvia. Um dos mortos vivos de Caim, sem se intimidar, finalizou seu golpe em sua direção, e sua mão foi pulverizada assim que tocou a esfera, restando apenas parte de seu antebraço. Ele recuou, e outros fizeram o mesmo, assustados pelo que havia recém acontecido com seu companheiro.

A essa altura, um de meus servos já estava completamente restaurado, e eu trabalhava no segundo deles, sem tirar minha atenção do campo de batalha, ansioso pelo que viria a seguir. Elisa caminhou lentamente até chegar perto o suficiente da horda, ergueu suas mãos em concha à frente do rosto, e concentrou sua reluzente energia entre elas. Em pouco tempo, ela segurava uma esfera de energia maior do que seu próprio tronco, e não muito depois virou as palmas de suas mãos para a horda de servos de Caim.

Sua aura que já antes impressionava por seu brilho, tornou-se ainda mais brilhante: eu mal podia ver Elisa quando a grande quantidade de energia que ela havia armazenado foi arremessada diretamente contra seus inimigos. Mal pude distinguir, em meio àquele brilho, a energia pura formando-se em pequenas lâminas afiadas assim que tocava qualquer um dos inimigos. Em comparação ao tempo que levou para ser iniciado, seu ataque foi extremamente rápido. Antes que meus olhos pudessem acostumar-se à luz antes presente no cemitério, que depois da luminosidade que eu acabara de presenciar não passava de um tênue lampejo, a maioria dos servos atacados por Elisa estavam no chão. Alguns amputados, alguns com cortes viscerais distribuídos pelo corpo, alguns simplesmente privados de seus sentidos.

Sem perder tempo, Glória levantou-se e foi atrás dos que ainda estavam de pé, nesse momento não deviam ser mais de dez. Um a um, e com uma perícia invejável, ela os derrubou, do mesmo modo que havia feito antes: fortes pancadas em suas cabeças. Estava quase no fim da preparação do meu terceiro servo quando o último dos de Caim caiu fatalmente ao chão.

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