XLVIII – De minha intervenção.

by F. Pergher

Capítulos I-XL
XLI – Do retorno à cidade e da visita a Oscar.
XLII – De Caim.
XLIII – Do segundo cemitério.
XLIV – De Abel.
XLV – De oportunos reencontros.
XLVI – Da aparição de Caim.
XLVII – Da confrontação.

 

A situação parecia estável no campo de batalha. Elisa aproximou-se de Glória, por entre os servos enraivados que, embora vivos, pouco podiam fazer para alcançá-las. As duas ainda eram protegidas por auras de luz branca, e não pude ouvir o que elas conversavam entre si. Terminei nesse momento meu terceiro servo, e comecei o processo de trazê-los de volta à vida. Puxei de minha bolsa duas insígnias de combate: eu as usaria para trazer almas a meus servos. Não me serviria uma qualquer alma.

Quem eu chamaria para enfrentar Caim e Abel eram dois velhos amigos que eu havia ajudado mais cedo em minha vida: Basílio e Bernardo. Ambos eram membros de uma guarda real de um reino que não mais existe, portanto é irrelevante seu nome. Introduzidos nas Artes Ocultas, após sua morte em combate pediram a mim, ainda um jovem que passava algum tempo explorando os Planos Paralelos, para que levasse-os de volta ao plano material. Diziam seu dever ainda não havia sido cumprido. Não tinham nada a oferecer-me, além de sua força de vontade.

Dei a eles uma chance, e posso dizer que eles voltaram a nosso plano e cumpriram seu dever bravamente. Desde então, tenho considerado-os amigos, visto que já tivemos várias ocasiões onde nos reencontramos. Tendo suas duas insígnias em mão, trouxe suas almas em dois dos corpos que eu havia preparado anteriormente. Os dois não mostraram-se muito surpresos ao serem invocados, e fiz-lhes sinal para que mantivessem-se quietos. Expliquei a situação brevemente a eles, e assim que terminei de fazê-lo, olhei para o chão do cemitério, e pude ver uma movimentação no pequeno bosque.

De repente, mais dos servos de Caim estavam saindo do bosque. Glória e Elisa saíram do meio dos cadáveres, buscando espaço para o quase inevitável confronto. Os servos continuavam avançando na direção do cemitério, embora em ritmo mais rápido do que anteriormente fizeram. Voltaram para sua formação original, Glória na frente e Elisa na retaguarda. Não tardou até que chegassem onde estava Glória, porém, dessa vez, seu objetivo não era simplesmente atacá-la.

Enquanto Glória se esforçava para conter o avanço de alguns dos servos, outros passaram por seus flancos e avançavam em direção a Elisa. Glória foi obrigada a recuar alguns passos para conter seus avanços, e quando conseguiu derrubá-los, usando seus fortes punhos amparados ainda pela aura de Elisa, outros já atingiam o ponto onde ela estava. Em pouco tempo, Glória não mais conseguia segurar os servos longe de Elisa, que, ao perceber o rumo que as coisas tomavam, levantou-se.

– Tudo bem, teremos que mudar nossos planos – ela disse em voz alta suficiente para que eu ouvisse.
– Espero que não seja um incômodo pra você – Glória respondeu, não parecendo nem um pouco cansada – eu poderia continuar batendo neles até o dia nascer.
– Não vamos precisar – disse Glória, com uma expressão séria.

Ela então concentrou novamente a energia em suas mãos, porém dessa vez posicionando cada uma delas de um lado de seu corpo. Concentrou-se por menos de um segundo, e a energia tomou a forma de duas estacas, pontiagudas e afiadas.

– Acabaremos com isso com bastante tempo pra olhar a lua, ainda – disse a Glória, e correu, em uma velocidade que em nada se comparava à de Glória, em direção ao exército de servos.

Enquanto Glória lutava melhor atacando-os de fora e dizimando o que aparecesse em seu caminho, Elisa abria seu caminho até o centro da formação e, manipulando suas duas etéreas lâminas, desfazia-a de dentro para fora. Eu começava a entender por que havia sido deixado de fora da formação das duas: lutando de modo oposto, formavam a combinação tática mais perfeita que se pode esperar de um par.

O que eu via eram apenas lapsos de luz, e logo em seguida, servos amputados ou seriamente machucados que caíam ao chão. Seu número diminuía gradativamente, embora de forma rápida, e eu começava a duvidar de meus olhos. Nunca imaginei que poderiam os servos de Caim ser derrotados tão facilmente. Em pouco tempo, não havia sobrado nenhum deles em condições de combater as duas Catarianas.

– Viu? – gritava Elisa, sorrindo empolgada com a vitória das duas – Acabamos nosso serviço.
– Mas vem mais por aí – respondeu Glória – se o mandante desse ataque é tudo aquilo que disseram, ele não vai deixar por isso.
– Tens razão, minha honorável adversária. – uma voz assustadora, embora menos que a de Caim, surpreendeu-as, vinda da porta do cemitério.

Um homem entrava por lá. Vestia uma túnica igual à de Caim, e possuía a mesma pele acinzentada. Não usava nenhum diadema, deixava soltos seus longos cabelos grisalhos com ainda algumas mechas negras. Sua única proteção, além da peça de tecido que caía sobre ele, era o ombro direito de uma antiga e enferrujada armadura. O esquerdo provavelmente não resistira ao tempo.

– Fausto – Bernardo sussurrou, à minha esquerda – aquele opositor armazena uma imensa força dentro de si.
– Explique-se, caro Bernardo. – Bernardo fora sensitivo desde a primeira vez que o encontrei, mesmo não tendo um treinamento profundo nas Artes Ocultas.
– Consigo sentir uma quantidade estrondosa de energia projetando-se dele. Manter-nos-emos a postos caso sejamos necessários. – Senti, então, Basílio tomando a dianteira por meu lado direito. Os dois tinham uma sincronia de combate incrível.

Continuava andando Abel na direção das duas Catarianas. Se Caim esbanjava seu porte, quase de um imperador, Abel era a figura da humildade.

– Não vai parar por aqui, então? Quantos desses marionetes medíocres eu ainda vou ter que explodir pra você nos deixar em paz? – disse Glória, sem parecer muito afetada.
– Provavelmente muitos – respondeu Abel, sem perder um segundo – mas se você perguntasse-me quantos ainda conseguirá explodir, a resposta é mais exata: nenhum deles.

Mal terminou de falar, e alguns de seus servos começaram a sair de todos os poucos cantos escuros que existiam ainda no cemitério: com as quatro luzes de Elisa, era difícil sobrarem sombras. Ainda assim, Abel, o metódico estrategista, conseguira escondê-los nas poucas que restavam pelo lugar. Antes que Elisa e Glória pudessem pensar em reagir, alguns dos servos antes caídos agora levantavam, totalmente reconstruídos, e corriam vorazes em sua direção.

– Não há motivos para que se exaltem – disse Abel – nunca matei nenhum de meus inimigos até então.

Naquele momento, Basílio e Bernardo pularam de cima dos balaustres que enfeitavam a capela que nos servia de esconderijo. No exato momento em que Glória e Elisa estavam encurraladas no centro de um círculo dos servos de Caim, prestes a ter sua energia absorvida pelos magros subordinados de Abel, os dois chegaram, em um sincronismo imperfeito por meros segundos.

Cada um abriu caminho por um dos lados, surpreendendo os servos, as Catarianas, e talvez até mesmo o próprio Abel, e alvejaram com espadas rapidamente conjuradas os pífios sanguessugas. Depois, conduziram-nas para fora do círculo e assumiram suas posições, ainda adotando a postura dos honrados guardas reais que haviam sido em vida. Falavam alto, então pude ouvi-los de meu esconderijo.

– Musaranhos de cemitério não são, de longe, os únicos que sabem encurralar – disse Basílio, com um meio sorriso de escárnio.
– Ignoro quem sois, porém advirto-os que deixem este lugar. O tempo já é meu inimigo.
– Se não queres mais inimigos além dele, musaranho, poderia começar não agredindo moças. – Basílio continuou.
– Acredito que não devamos vitimizá-las, meu caro Basílio – disse Bernardo, em um tom sério – mas colocar covardemente um exército contra um par de lutadoras, por mais honradas que sejam, é covardia. E covardia não afasta inimigos.
– Discordo de ti, Bernardo. Um exército tão mal composto quanto o dele, contra duas jovens tão desenvoltas, é mais fácil constituir-se uma covardia contra o musaranho.

Como da última vez que lutara ao lado dos dois valorosos guardas reais, Basílio mantinha seu senso de humor e seus falhos cortejos, e Bernardo mantinha seu senso de justiça. Apesar de encararem a batalha como uma simples briga de taverna às quais ambos estavam deveras acostumados, a única coisa impressa em suas faces, tudo que o brilho de seus olhos denotava, era um senso de dever extremo. Eu os concedera vida para levarem tal luta a cabo, e eles não descansariam até que ela não o fosse.

 

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