LI – Da batalha contra Caim e Abel.

by F. Pergher

Capítulos I-L

Assim que o ruído dos passos de Basílio e Glória indo na direção que Plínio os guiava cessou, não tardou para que o cemitério voltasse a ser uma calmaria. Os únicos ruídos audíveis eram os estalos metálicos de quando Bernardo movia-se, montando guarda para Elisa. Acreditava estarmos na hora mais escura da noite, embora não pudesse ter certeza devido à luz, ainda forte, de Elisa.

Pondo fim à minha agonia, pude sentir uma movimentação vinda do capão de mato onde se refugiaram Caim e Abel. Os dois agora andavam juntos em direção ao cemitério, mais ou menos na mesma velocidade, apesar da grande diferença no porte físico de ambos. Caminhavam lentamente, como se tivessem perdido toda a vontade de lutar que a eles cabia.

Elisa colocou-se em posição de luta, logo atrás de Bernardo, assim que perceberam a aproximação dos inimigos. Os dois subiram os degraus que conduziam até o cemitério e andaram poucos passos dentro dele. Haviam parado longe de Elisa e Bernardo. Quem começou a falar foi Caim, sem a ira que se fazia em sua voz anteriormente.

– Vós quereis um justo combate. Pois aqui estamos, par contra par.
– E o que nos garante que não vão sair servos de todas as frestas daqui em cinco minutos? – perguntou Elisa, incrédula.
– Nada além de nossa palavra – disse Abel – mas não precisais lutar, se não for de sua vontade.
– Ora, e que tipo de guarda seria eu se deixasse minha ama praticar tal ato? – Bernardo se interpôs – Lutarei, estejam vocês falando ou não a verdade.
– Pois bem, serás o primeiro – disse Caim.

Bernardo ergueu seu escudo, guardou a espada e ajuntou sua lança do chão. Caim andou em sua direção, lentamente, mas parecendo esforçar-se para tal. Ao chegar perto dele, desferiu-lhe um soco, que foi defendido pelo escudo de Bernardo. O impacto fez ressoar o tilintar metálico da armadura de Bernardo até meus ouvidos. Pude ver seu escudo avariado, com uma pequena área amassada.

Imaginava a força do golpe de Caim, para que amassasse aquele nobre metal. Bernardo recuou um pouco e investiu sobre Caim com a lança. Caim desviou do golpe, um pouco desajeitado, e segurou a lança de Bernardo com sua mão. O rosto de Bernardo começou a contorcer-se devagar, até virar em uma carranca horrível, parecendo que suas feições haviam sido exageradas. Bernardo largou a lança e caiu ao chão.

– Como conseguiste… eletrificar um bastão de madeira? – ele falava, esforçando-se ao máximo para voltar a ficar em pé.
– Alquimia, jovem guardião. O estudo dos materiais. A mesma coisa que permitiu-me aplicar um golpe firme como uma rocha em seu escudo.

Bernardo finalmente conseguira levantar-se. Caim alvejou-lhe com outro de seus fortes punhos, que dessa vez foi interceptado pela energia branca de Elisa.

– Já percebi que não dá pra falar em honra com vocês. – ela disse – Afinal, não me parece muito digno acertar um adversário enfraquecido.
– Assim como não o é interferir em uma luta que não é sua – disse Caim.
– Muito bem – disse Elisa – então agora quem você deve atacar sou eu.

Elisa materializou suas lâminas feitas de pura energia, como já havia feito antes, e correu na direção de Caim. Ao perceber o ataque dela, ele rapidamente solidificou seus braços, inutilizando os ataques de Elisa. Bernardo já tivera tempo suficiente para levantar-se, e estava novamente em guarda, analisando o campo de batalha com sua perspicaz visão.

Em meio aos ataques, pude perceber algo que Caim provavelmente não percebera antes: Elisa atacava-o somente com a espada em sua mão esquerda, enquanto a da mão direita havia praticamente sumido. Abel, por sua vez, parecia imaginar que Elisa planejava algo. De repente, Elisa recuou o suficiente para trocar a posição de seus braços, e atacou-o com a mão direita, que agora ostentava uma lâmina tão brilhante quanto eram as luzes que se colocavam atrás do cemitério. Conseguiu dar dois golpes: um decepou inteiramente o braço direito petrificado de Caim; o segundo foi esquivado, mas ainda assim inutilizou sua mão esquerda.

Elisa avançava para o derradeiro golpe, posicionando sua espada como quem está prestes a talhar horizontalmente, quando desequilibrou-se e caiu desajeitadamente ao chão. Seu pé estava preso por grossos cabos, que podiam muito bem ser também vinhas ou vermes, não conseguia discerni-los exatamente. Caim olhava, incrédulo, para seus dois braços arrancados, enquanto Abel aproximava-se de onde havia prendido Elisa ao chão.

– Ela desfez minha alquimia, Abel! – disse Caim, visivelmente deixando a ira tomar conta de si.
– Não, Caim, não se iluda. O que ela fez foi criar uma lâmina forte o suficiente para cortar sua pedra – Abel disse, e depois olhou para Elisa, como se falasse a ela – não será sábio contarmos com técnicas repetidas. Portanto, aproveitarei enquanto a minha ainda é eficaz.

Dizendo isso, Abel invocou mais dos vermes ou vinhas, que amarraram, além dos pés, os pulsos e o pescoço de Elisa ao chão.

– Não consigo respirar – Elisa gemeu, ao que Abel pareceu afrouxar um pouco a tensão que lhe imobilizava o pescoço.
– Abel! – gritou Caim – eu não consigo entender como ela foi capaz de penetrar através da rocha em que tornei meu braço.
– Isso só prova o quanto a Reverenda foi capaz de escolher, meu caro Caim.
– Terei minha vingança, e a terei agora mesmo – esbravejou Caim, parecendo se esforçar para concentrar energia no que restava de seu braço esquerdo.

Bernardo começou, imprevisivelmente, a tirar peças de sua armadura. Primeiro tirou seu escudo, expondo o inchaço de seu braço esquerdo, provavelmente devido à pancada que levara anteriormente. Depois, removeu as proteções para os braços, a peça que protegia seu peito, e, por fim, o elmo e a malha de ferro. Depois, ajuntou sua lança e escudo do chão, posicionando-os devidamente. Caim, que já sentia uma raiva enorme, teve a oportunidade que precisava para descontrolar-se.

-Bastardo, pensa enfrentar-me sem a única coisa que te manteve vivo até agora? – ele começava a liberar a energia que havia acumulado, e seu braço começava a transformar-se em estruturas de ferro que pareciam ter a intenção de ser espadas.

Porém, o estado mental em que se encontrava Caim provavelmente não o deixava raciocinar o suficiente para consolidar uma transformação bem sucedida. O que formava-se a partir de seu braço era um acumulado de vigas, lâminas duras ou mesmo simples pedaços de metal sem forma definida, que apontavam em todas as direções como se desabrochassem em uma mórbida flor. Ele possuía um apêndice de pelo menos um metro de comprimento emergindo de seu braço, antes de dar forma a uma lâmina retilínea o suficiente para que fosse utilizada em um ataque.

Caim parecia ter intenção de utilizá-la contra Bernardo, que por sua vez encarava-o tranquilamente. Estava visivelmente cansado, e talvez não conseguisse aguentar o peso de sua armadura, caso estivesse usando-a. Faziam-se ver também marcas fractais em forma de raio, típicas de quem sofrera uma descarga elétrica, cruzando toda a extensão de sua pele. Ainda assim, mantinha-se de pé, em postura de desafio perante Caim, enquanto Elisa jazia deitada, presa ao chão, e Abel apenas observava.

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