LII – Do vestido verde oliva.

by F. Pergher

Capítulos I-L
LI – Da batalha contra Caim e Abel.

Bernardo, vendo o estado em que se encontravam os nervos de Caim, deixou um pequeno sorriso apoderar-se de seus lábios. O irado Caim, que se esforçava ao máximo para equilibrar o amontoado de metais retorcidos que saía de seu braço esquerdo, grunhiu de modo indecifrável e partiu para cima de Bernardo, com sua arma em riste.

Bernardo continuou a sorrir, visivelmente satisfeito. Pareceu esperar tão pouco quanto o momento certo, e assim que lhe parece oportuno, desviou do golpe de Caim, abaixando-se e em seguida retaliando a estocada com seu escudo. Depois, avançou, ainda abaixado e de lança em punho, em direção ao corpo de Caim. Parecia forçar, com seu braço esquerdo munido do escudo, o braço esquerdo de Caim e sua gigante lâmina. O ruído metálico do choque entre os dois era assustador.

No que pareceu o momento mais oportuno possível, Bernardo estocou com sua lança na direção do flanco descoberto de um desequilibrado Caim. Sua lança atravessou-o sem dificuldade, Bernardo fez questão de empurrá-la com força, e soltou o cabo quando pareceu-lhe suficiente. O grito de raiva de Caim agora convertia-se em dor, e a grande espada que seu ódio havia criado agora fazia-o desequilibrar-se. Caim teria caído de costas ao chão, não fosse o cabo da lança de Bernardo, que, rompendo-se na queda, deixou-o estirado com seu flanco esquerdo no chão.

Bernardo, agora ainda mais cansado do que já estivera antes, retirou novamente seu escudo do braço. Virou-se e caminhou os poucos passos que o separavam de Caim, assistido por um atônito e impotente Abel. Tirou simultaneamente as duas espadas de sua cintura, e também enterrou as duas no peito de Caim, garantindo que ele não mais se levantaria por conta própria. Depois, ajuntou a maça do peitoral de sua armadura, e andou em direção a Abel, ainda mantendo seu sorriso debochado estampado no rosto.

Ao vê-lo se aproximando, Abel tentou conjurar algo que o atacasse, mas foi brutalmente repelido por um golpe de maça. O tempo que permaneceu caído foi o suficiente para que Bernardo usasse uma de suas adagas que ainda estavam em suas botas para cortar as amarras que envolviam Elisa. Ao ser cortadas, elas voltavam imediatamente para baixo da terra, como se puxadas. Elisa se levantou, aparentemente em silêncio. Eu podia ver as marcas vermelhas e o inchaço em seus pulsos e pescoço. Abel começava a levantar-se, e Elisa e Bernardo colocaram-se em posição de ataque, quando uma voz aguda, que parecia perfurar os tímpanos até mesmo de mim, que a ouvia apenas de longe, irrompeu no silêncio do cemitério, vinda do bosque.

– Eu não ouvia alguém falar de honra agora há pouco? Atacariam, em dois guerreiros, um que mal está de pé?

Espichei meu pescoço, tentando ver quem chegava até lá, e não fossem os balaustres que me serviram de apoio, eu teria caído da capela: na direção de Bernardo e Elisa, caminhava a mulher do vestido verde oliva, que eu havia avistado no navio em que fui levar Margarida. Lembrei-me de daquele dia, em que possivelmente estava sendo seguido, e tal detalhe pouco se havia pronunciado em minha mente por um bom tempo. Agora, ele finalmente voltava a ela, claro como a luz do dia.

Usava ainda o mesmo vestido ultrapassado e de cor característica, mas dessa vez, deixava seus cabelos levemente avermelhados descoberto. Entrou no cemitério e parou a uma distância segura de Bernardo e Elisa. Estendeu seu braço na direção de Abel, e até mesmo eu conseguia sentir o fluxo imenso de energia que ela estendia até ele, fortificando-o. Pude ver o rosto assustado de Elisa, que também sentira – melhor do que eu – a quantidade imensa de energia dela. Eu senti que deveria intervir, e comecei a acumular uma dose suficiente de entropia no pouco material condutivo que ainda me restava.

Em alguns instantes, mais até do que eu esperava, Abel levantou-se, já sem a aparência cadavérica que ostentava momentos antes. Sua pele agora apresentava uma cor saudável, e ele andava de forma pesada e firme. A dama do vestido verde oliva então estendeu seu braço na direção do corpo inerte de Caim, e começou a enviar energia a ele, tal como fizera com Abel. Eu não tinha muito tempo.

Pulei de meu esconderijo por trás da capela, e corri o quanto pude do modo menos visível que pude. Quando finalmente cheguei perto, conjurei minha espada e revelei-me, parando atrás do corpo de Caim.

– Agora, três revigorados contra dois acometidos pelo cansaço de três lutas sim, me parece uma desonra – falei, procurado esconder minha respiração irregular. Não esperei mais nem um momento, e imediatamente projetei minha energia contra a alma de Caim.

Expurgar sob pressão, como havia me dito o Errante, não era uma tarefa fácil. Usei quase toda a minha energia, e o caminho parecia duas vezes mais longo. Quando finalmente consegui projetar-me de volta, a sucção que antes parecia quase irrefreável tinha agora uma força infinitamente maior. Às custas de muito esforço, consegui reestabilizar meu corpo, ao passo de que Caim havia sido expurgado.

A mulher do vestido verde oliva olhava-me com cólera em seus olhos. Ela sabia que se tentasse fazer qualquer coisa a mim enquanto estivesse expurgando seu servo, seria atacada por Elisa e Bernardo imediatamente. Por pior que estivesse meu estado, por maior que tivesse sido a quantidade de energia que gastei, Caim havia sido expurgado. Nas condições atuais, isso poderia ser um fator determinante no resultado da luta.

– E desde quando Fausto sabe expurgar? – ela disse, visivelmente irritada.
– A partir do momento em que percebi que estava sendo constantemente seguido, achei que seria bom aprender.
– Hum, e desde quando Fausto presta atenção em qualquer coisa que aconteça a seu redor?
– Estás me subestimando, ao passo de que nem ao menos nos encontramos antes. Seria prudente apresentar-se, já que acabei de perceber que será fútil de minha parte fazê-lo.
– Sou a Reverenda eleita por Raquel, e é só o que precisa saber. O resto já não importa mais.

Estremeci. Eu já suspeitava que a Cruz Fumegante poderia estar relacionada àquele evento, mas não imaginava que ambos os elementos fossem tão coesos. Afinal, um Reverendo era o representante oficial de um usuário das Artes Ocultas, designado para cumprir uma ordem que o próprio usuário não conseguisse. Nunca havia ouvido, em todo o meu tempo como usuário, de alguém que tenha delegado um Reverendo com uma capacidade menor que a sua. O simples fato de pensar na escolha de Raquel, no motivo pelo qual ela teria escolhido aquela pessoa, causava-me arrepios.

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