LIII – Do vestido verde oliva, segunda parte.

by F. Pergher

Capítulos I-L
LI – Da batalha contra Caim e Abel.
LII – Do vestido verde oliva.

Mantínhamos-nos estáticos, como se possuíssemos à nossa disposição todo o tempo do mundo. A Reverenda ainda encarava-me, seu olhar transparecia uma mistura da frustração de quem sente que seus planos deram errado com raiva pessoal. Não me lembrava, em nenhum outro ponto de minha vida, ter-me encontrado com ela. Elisa e Bernardo ficavam atrás de mim, e eu podia ouvir a respiração pesada de Bernardo. Dificilmente ele aguentaria outra luta naquele estado.

– Veja – recomeçou a falar a Reverenda de Raquel – agora me parece que a desvantagem está a meu lado, sendo que você – ela mudou seu tom de voz para uma rouquidão enojada – acabou de expurgar Caim.
– Devo discordar de ti – disse Bernardo, atraindo olhares de minha parte e de Elisa.
– Como discordas? – ela retrucou, com o desdém de quem teve uma conversa interrompida – São três contra dois.
– Não serão três contra dois. Eu não lutarei – ele disse.
– Ora, parece que temos um covarde – disse a Reverenda.
– Não senhora – Bernardo disse, com um meio sorriso – se eu me mantivesse ativo durante mais uma batalha, dificilmente poderia acompanhar o ritmo de Fausto, que recém chegou a ela, ou de Elisa, que consegue lutar sem impedimentos físicos. Eu serviria apenas para atrasar meu grupo.
– Como preferir, garoto. Para alguém que falava em honra até pouco tempo, você não me parece mais do que um covarde.
– Não preciso provar minha coragem para um inimigo, muito menos para um inimigo suicida.
– Ora – a Reverenda pareceu realmente irritada – não suporto infâmias vindas de alguém que está deixando a batalha antes mesmo que ela comece.
– Como eu já disse, senhora, não sou suicida.
– E por que você me acusa de ser?
– Tenho certeza que já sabes do que te falarei. Qualquer um que confronta um expurgador e um regenerador está a cavar sua própria cova. Com ou sem um mero guardião para auxiliá-los.

A Reverenda não disse nada, apenas observou enquanto Bernardo dava-lhe as costas e caminhava na direção da capela onde antes estivéramos. Parou brevemente para ajuntar sua armadura, que carregou consigo até chegar a um mausoléu, onde os túmulos elevavam-se como se fossem uma escada, sentou no penúltimo mais alto e lá ficou, observando catatônico o campo de batalha.

Por alguns instantes, o cemitério foi tomado por uma aura de tensão. Elisa começava a acumular sua energia discretamente, enquanto a Reverenda parecia considerar seus adversários calmamente. Depois de pouco tempo, ela sinalizou para Abel, que sabendo o que fazer, iniciou seu ataque. O mesmo que havia usado anteriormente para prender Elisa. Dessa vez, porém, seu alvo era outro: suas vinhas emergiram da terra em direção a Bernardo.

Mesmo desprevenido e sem a metade de sua armadura, Bernardo conseguiu reagir a tempo com seu escudo e uma das adagas. Defendeu-se de alguns e cortou outros tentáculos, porém pouco pôde fazer antes de encontrar-se totalmente amarrado ao túmulo que antes servia-lhe de assento.

– Agora tenho certeza que ele não incomodará – disse a Reverenda – posso me concentrar naquilo que me traz até aqui.

E dizendo isso, sinalizou novamente a Abel. Ele tentou novamente usar suas vinhas, direcionadas a mim nessa vez, mas eu estava preparado. Minha agilidade, ou falta dela, não permitiria que eu desviasse acrobaticamente de seus ataques, então concentrei-me na eficácia de meus escassos movimentos. Desviei-me de um foco que saía do chão, e consegui juntar forças para conjurar a espada de cabo longo que costumava usar. Cortei algumas vinhas que tentavam atingir-me pelas costas, e mal pude parar antes de ser atacado por mais delas.

Tentava lutar recuando, mesmo sabendo que seria perigoso deixar Elisa sozinha à frente. De qualquer jeito, seria pior se eu fosse incapacitado. Comecei a perceber uma queda na velocidade das vinhas de Abel, provavelmente era mais difícil para ele manipulá-las conforme a distância aumentava. Em certo ponto de minha recuada, percebi que suas vinhas haviam parado de perseguir-me. Estava próximo à capela de onde havia assistido a luta anteriormente, e tendo construído um pouco de energia enquanto desviava das vinhas, resolvi projetar-me no terceiro servo que havia criado.

Quando terminei a projeção, voltei meu olhar para Abel, e de repente entendi porque seus ataques haviam parado: Sua atenção agora estava direcionada a Elisa. Ela, por sua vez, defendia-se com suas lâminas de energia, como eu já a vira fazer primorosamente antes. Fui andando o mais rápido que pude em sua direção, e ajudei-a a livrar-se das vinhas. Percebi que a Reverenda energizava Abel do mesmo modo que a vira fazer antes, enquanto ele atacava Elisa.

– Fausto – ela falou, tão discretamente quanto pôde em meio às vinhas e lâminas – acho que eles me querem viva.
– Como assim? – respondi, um pouco surpreso.
– Ele não está me atacando de forma mortal, pretende vencer pelo cansaço. Acho que só tem um jeito de contra atacarmos.
– E qual é? – perguntei, após uma curta pausa para dilacerar uma vinha que quase atingira meu pescoço.
– Vou acumular energia suficiente pra me livrar dessas vinhas, você deixe que te derrotem.
– Conceder? Eles irão matar-me, Elisa!
– Não, Fausto. Você mesmo disse que Abel nunca matou um inimigo. Nem mesmo Bernardo está morto, eu ainda o sinto. Agora vá, antes que sejamos mesmo derrotados.
– Elisa, eu posso deixar-te assumir a luta se quiser, mas não concederei a vitória a eles.

Eu havia me irritado com Elisa: não pretendia conceder a batalha em momento algum. Saí de perto dela, correndo tanto quanto podia na direção onde estava o corpo de Bernardo. Afinal, eu não deveria abandonar meu fiel servo. Eu podia ouvir as vinhas de Abel atrás de mim, e eventualmente virava-me para neutralizá-las. Logo que cheguei até Bernardo, cuidadosamente comecei a cortar, ao mesmo tempo que defendia-me, as vinhas que o envolviam.

Apesar de demorado, não foi tão difícil quanto eu esperava que houvesse sido. Quando finalmente libertei Bernardo, porém, Abel intensificou a força dos ataques contra mim, e, mesmo com Bernardo me ajudando a rebatê-los, mal pude reagir quando Bernardo foi novamente capturado, e pouco tempo depois já estava praticamente mumificado pelas vinhas. Tentei correr em sua direção, e foi quando percebi que vinhas já envolviam minhas pernas até o joelho.

 

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