LIV – Da queda de Bernardo.

by F. Pergher

Capítulos I-L
LI – Da batalha contra Caim e Abel.
LII – Do vestido verde oliva.
LIII – Do vestido verde oliva, segunda parte.

As vinhas haviam cessado. Abel parecia satisfeito apenas em segurar o corpo inerte de Bernardo, envolto totalmente por suas vinhas, há mais ou menos dois metros de altura do chão. Os ataques a Elisa haviam também cessado, como se Abel esperasse uma plateia para seu espetáculo.

– Veja o rapazinho da honra, como está agora – disse Abel – nunca matei ninguém em toda a minha existência como ocultista, mas não gosto de desonra. E muito menos de segundas chances.
– Não lhe dê tempo, Abel – encorajou-lhe a Reverenda, em sua tipicamente irritante voz.
– Como quiserdes, senhora. – ele respondeu, em um tom soturno.

Pude ouvir o rangido das vinhas pressionando-se umas às outras, e pouco tempo depois, os estalos dos ossos de Bernardo rompendo-se. As vinhas apertavam cada vez mais forte, e Bernardo, apesar da constituição robusta que eu havia dado a seu corpo, não teve a mínima oportunidade de resistir. Quando pareceu-lhe suficiente, Abel desfez a pressão das vinhas, deixando seu corpo flácido tombar ao chão. Evitei olhá-lo, ao invés disso olhei para Elisa, que assistia a tudo impassível.

– Agora, vamos ver o que fazer com você, Fausto. Pelo visto seu amigo estava errado sobre ser suicídio a luta com vocês dois – disse a Reverenda, quase zombando de mim.

Tudo que eu podia fazer agora seria seguir a ideia original de Elisa e deixar-me capturar sem resisti. Não esbocei a menor reação quando fui envolvido pelas vinhas, tal qual tinha visto Bernardo ser. Ao invés disso, concentrei-me ao meu redor. Apesar de não poder ver nada do que se passava, eu conseguia ainda ouvir e sentir variações de entropia a meu redor.

– E você, cara Elisa – eu ouvia a voz da Reverenda – vai vir comigo.
– Por que apenas eu? – perguntou Elisa, em um tom trêmulo, porém obviamente confiante.
– Raquel tem planos maiores para você – foi a única resposta da Reverenda – Abel, leve-a.

Ouvia novamente o rangido das vinhas esfregando-se contra si. Apesar disso, eu ainda podia sentir a energia de Elisa. Concentrava-me ao máximo, para sentir sua energia de forma nítida, e conforme eu me concentrava, ia percebendo um fino traço de energia potencial ao redor de onde eu estava. Tentei acompanhá-la sensorialmente, e conforme sentia a energia, conseguia também ver uma projeção dela, quase como um desenho da área. Aquela energia que eu sentia, formava um grande arco, cujas pontas cada vez mais ameaçavam encontrar-se. Até que enfim, pude distinguir um círculo.

Através da grande quantidade de energia que Elisa estava acumulando, pude sentir que a levavam do cemitério em um ritmo calmo, típico de quem sabe que ganhou a batalha e possui tempo de sobra para fazer o que bem entender. Podia ouvir que conversavam tranquilamente, Abel e a Reverenda, ao passo de que as formas no chão começavam a fazer cada mais sentido para mim.

De repente, lembrei-me. Lembrei-me do que me salvara na noite em que Oscar havia me atacado, lembrei-me do que me havia dito o Errante depois dela. E finalmente comecei a entender aqueles padrões circulares de energia no chão. Eu não sabia que tipo de material Mefisto havia utilizado, mas ele ainda não havia desvanecido. Sob meus pés, estava uma reserva de energia do precavido Errante dos Múltiplos Planos, deixada por ele na mesma noite em que marcara o cemitério onde vira Oscar treinando. Ninguém, aparentemente, pisara no cemitério até então.

Agora eu tinha certeza: deveria agir. Meu servo ainda estava em algum lugar do cemitério, servindo de hóspede para minha projeção astral. Eu ainda não sabia ao certo como controlá-las, o que eu sabia é que ela basicamente pensava como eu. Tentei focar meus pensamentos, então, em tudo que eu lembrava da geografia do cemitério: imaginei-me descendo da capela por trás dela, dando voltas pelos túmulos até chegar ao mausoléu onde eu estava preso pelas vinhas.

Pareceu infinito o tempo que esperei por meu servo, que cortava as amarras com a espada que eu havia deixado cair. Tão logo consegui levantar-me, corri em direção ao bosque, e antes mesmo de conseguir sair do cemitério, pude ver um clarão que emergia por entre as árvores. Imaginei que algo estivesse acontecendo com Elisa, então corri até lá, tão rápido quanto meu corpo permitiu. Deixei meu servo no cemitério, caso algo acontecesse e ele fosse necessário como um elemento surpresa.

Assim que pisei no matagal, vi que possuía um aspecto mais medonho do que eu imaginava: com exceção de uma pequena trilha, a vegetação era densa a ponto de ser impossível passar por ela, fosse pelas árvores, pela grande quantidade de cipós ou pelos arbustos que emergiam do chão. Segui a trilha, não dando muita atenção a meu medo, até que finalmente cheguei em uma clareira. A cena que enxerguei nela era, no mínimo, única.

Eu via Elisa, não mumificada em vinhas, como imaginei que a veria, mas completamente livre de qualquer amarra. Por detrás de seu corpo, a luz de sua aura havia projetado-se em um imenso touro, ou pelo menos a fronte de tal touro. Possuía ainda suas duas lâminas de energia nas mãos, porém agora elas pareciam imensamente mais compridas.

– Você demorou, Fausto! – ela saudou-me.
– E pelo que posso perceber, não ficaste nem um pouco atrás.
– Se tivesse esperado por você, eu ainda estaria esperando agora.
– Eu fiz o melhor que pude.
– Eu imagino. Você viu Abel e a Reverenda no caminho?
– Não, embora estivesse preparado.
– Então vamos voltar logo ao cemitério, Fausto! Não podemos deixar eles ir.

Voltamos ao cemitério, do modo mais rápido possível, e ao chegarmos lá deparamo-nos com Abel e a Reverenda, ambos encarando meu servo, que lhes afrontava de modo destemido. A pedido de Elisa, diminuí meu ritmo.

– O que quer fazer, Fausto?
– Minha pretensão era de expurgar Abel, e depois tentar descobrir algo sobre Raquel através de sua Reverenda.

Elisa acenou com a cabeça, concordando com meu plano. Ela diminuiu sua aura ao máximo, para que não fôssemos vistos em primeira instância, e entramos no cemitério. Abel tentava, sem sucesso, atacar meu servo. Eu tinha fornecido a ele um corpo jovem e saudável, não lhe era difícil desviar das vinhas de Abel. Assim que entramos no cemitério, Elisa não mais se conteve.

– Dois contra um é desonra – ela falou, sorrindo.

Ao virarem-se, pude ver a fisionomia assustada da Reverenda, e a mesma expressão impassível de Abel.

 

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