LV – Da técnica final de Abel.

by F. Pergher

Capítulos I-L
LI – Da batalha contra Caim e Abel.
LII – Do vestido verde oliva.
LIII – Do vestido verde oliva, segunda parte.
LIV – Da queda de Bernardo.

Estávamos agora, pela primeira vez desde o início de luta, em pleno controle dela. Meu servo bloqueava a saída principal do cemitério e eu e Elisa bloqueávamos a saída dos fundos. Eles não podiam acessar o pequeno bosque, onde possivelmente teriam alguma base, e se tentassem sair lateralmente, teriam de enfrentar os ataques de mim e de meus dois aliados ao mesmo tempo.

– Três contra dois também é – disse a Reverenda.
– Não estamos em três – eu disse – o que afronta vocês dois é apenas um servo sem uma alma. É tanta desonra quanto o que Caim exercia-nos.
– Ora… – a Reverenda olhava-me com fúria.
– Fausto – disse Elisa, discretamente – tome cuidado. Acho que eles tem uma armadilha no cemitério.
– Armadilha? – perguntei.
– Sim, apenas tome cuidado. – disse ela, em voz baixa, elevando o tom de sua voz em seguida – E então Fausto, como eliminaremos eles?
– Você vigia minha retaguarda enquanto eu despacho Abel. Conforme a Reverenda comportar-se, decidiremos o que fazer com ela depois – respondi, em voz igualmente alta.

Eles não esperaram mais. Sob uma ordem enfurecida da Reverenda, Abel iniciou seu ataque, dessa vez mais rápido do que antes: suas vinhas atacavam simultaneamente a mim, meu servo e Elisa, mal deixando-nos margem para que nos defendêssemos. Apesar disso, eu avançava na direção de Abel, tanto quanto podia.

Elisa lutava com as lâminas crescidas que eu havia visto anteriormente no bosque, e fazia-o primorosamente: cortava as vinhas tão logo elas apareciam, fazendo-as voltarem novamente à terra, divididas ao meio. Em uma esquiva infeliz de minha parte, acabei deixando-me tocar por uma das vinhas, que imediatamente tornou-se afiada, cortando minha perna de forma rasa. Pensei em avisar Elisa, mas não podia parar.

Apesar do ataque de Abel mudar constantemente: as vezes não eram as vinhas que subiam da terra, mas verdadeiras lâminas, podia sentir que os dois atacavam desesperados. A Reverenda não conseguia enviá-lo uma corrente constante de energia, e Abel pouco conseguia acertar o alvo. Eu imaginava a impressão que a grande aura em forma de touro de Elisa havia-lhes causado.

Em um ponto de minha investida, quando faltavam poucos metros para que eu chegasse a uma distância suficiente para expurgar Abel, seu ataque cessou completamente. Mantive-me parado, e já começava a analisar o melhor caminho para alcançá-lo quando suas vinhas começaram a brotar novamente da terra. Dessa vez, porém, brotavam ao redor dele mesmo, formando uma espécie de crisálida que o protegeria.

Com a crisálida pronta, mais vinhas começaram a surgir ao redor dela, em feixes. Essas vinhas mais concentradas do que as outras subiram mais alto do que o topo da mais imponente capela daquele cemitério, e logo em seguida, mais à frente, feixes de vinhas mais curtos surgiam ininterruptamente. Quando finalmente pararam, foi uma questão de segundos até que começassem a projetar-se sobre mim e Elisa. Primeiro os mais altos, que alcançariam o terreno mais distante, e depois os mais baixos dobravam-se, como em uma tempestade sincopada. Pude ver o reflexo de pontas metálicas assim que as primeiras vinhas começavam a descer, alvejando diretamente Elisa.

Tentei correr até ela, era possivelmente o único jeito de escapar com vida de seu ataque, porém mal pude chegar até onde ela estava quando a segunda circunferência de feixes caiu. Tentei usar minha espada para cortá-los, mas tudo que o toque de minha afiada lâmina pôde causar foi um infrutífero som metálico. Pouco poderia fazer por ela, pensei, e ainda precisava fazer algo por mim mesmo.

Eu poderia correr apenas à frente, já que já estava trancafiado no alcance de seu golpe. Procurei então avançar o mais rápido que pude, e senti a ponta afiada da lâmina perfurando meu capote antes que conseguisse me abaixar o suficiente para avançar na direção de Abel. Agora estava entre a parede radial de vinhas e a crisálida onde Abel abrigava-se.

Estava próximo o suficiente a ele para que pudesse expurgá-lo, porém nada podia fazer, naquelas condições, para quebrar sua crisálida. Pensei que talvez ela não bloqueasse projeções mentais, e tentei, absorvendo um pouco da energia que Mefisto havia deixado instalada no cemitério, projetar almas condenadas sobre seu corpo.

Surpreendi-me ao perceber um pequeno movimento nas vinhas que compunham seu escudo: Abel havia sentido pelo menos um pouco do impacto de minhas almas, mas eu provavelmente precisaria de uma quantidade imensamente maior de energia. Calculei que Elisa, se tivesse conseguido desviar a tempo do golpe, agora estaria provavelmente enfrentando a Reverenda, que não perderia uma chance tão óbvia de ataque. Pensava em meu servo, talvez ele estivesse tentando, de algum jeito, cortar as vinhas para que eu chegasse até o lado de fora delas.

Qualquer que fosse a situação do lado de fora, não poderia demorar-me lá dentro: por menos que pudesse fazer, deveria estar de prontidão. Ademais, não sabia do que Abel seria capaz, se conseguisse concentrar energia dentro da crisálida. Concentrei-me, buscando absorver o máximo que podia da energia do Errante, da qual o cemitério estava impregnado, e finalmente, cheio de receios, projetei minha alma na direção da de Abel.

Não foi muito difícil encontrá-la: suas barreiras materiais pouco significavam a mim. Assim que cheguei perto dele, agarrei metaforicamente sua alma, e busquei levá-la até o grande plano inferior. Abel estava enfraquecido: quase não possuía energia com a qual confrontar-me, e mal fez esforços para manter-se em seu corpo. Quando finalmente consegui portá-lo até o seu destino e lá despejei sua alma, já estava preparado para a grande força de sucção com a qual seria atraído de volta a ele, e a grande quantidade de energia que absorvi de Mefisto me permitiu regressar sem maiores dificuldades.

Apesar disso, ainda me sentia cansado quando voltei ao plano central. Ainda estava entre as vinhas de Abel, e nenhum sinal de que eu seria resgatado de lá se fazia claro. Olhava atentamente à crisálida que se erguia à minha frente, não sabia muito bem o que esperar dela. De repente, ela começou a desfazer-se, as vinhas se recolhiam lentamente à terra, e quando elas estavam baixas o suficiente, o corpo já sem vida de Abel projetou-se em minha direção.

Sobressaltado, desviei dele quase imediatamente, deixando-o tombar de bruços. Quando pude analisá-lo com calma, vi que estava magro, mais ainda do que o que era usual a Abel. Haviam estrias pronunciadas em suas costas, como se toda a sua energia tivesse sido drenada dele. Como bom estrategista que era Abel, ele não utilizaria toda a energia restante em seu corpo para um ataque que poderia arriscar sua própria vida. Não bastasse isso, um ataque que possuísse um ponto fraco tão evidente quanto aquele espaço onde me encontrava agora. Não pude deixar de entristecer-me: Abel, que durante sua vida fez seu máximo para não criar inimigo nenhum, que apesar de subversivo nunca fora maligno, forçado a usar um ataque suicida, provavelmente contra sua vontade.

 

Advertisements