LVI – Da força da Reverenda.

by F. Pergher

Capítulos I-L
LI – Da batalha contra Caim e Abel.
LII – Do vestido verde oliva.
LIII – Do vestido verde oliva, segunda parte.
LIV – Da queda de Bernardo.
LV – Da técnica final de Abel.

Coloquei o corpo de Abel deitado de costas, em uma posição um pouco mais digna. Imaginava que a essas alturas, meu servo ou Elisa já teriam encontrado alguma maneira de libertar-se da prisão criada pelo ataque de Abel. Enquanto eles não vinham, eu esperava sentado, para que meu corpo se recuperasse pelo menos um pouco dos efeitos adversos do expurgo que eu havia acabado de executar.

Nesse meio tempo, pude ver intensas variações da luminosidade do ambiente exterior. Quando uma luz mais forte do que todas as auras de Elisa iluminou mesmo a prisão onde eu estava, resolvi que deveria agir. Comecei a acumular energia potencial, enquanto estudava as vinhas afiadas que saíam da terra. Não havia nada muito especial nelas, fora o fato de que eram feitas de um metal denso e consistente. Talvez fosse ser um tanto difícil romper sua estrutura usando a alquimia, mesmo porque eu nunca fora um grande dominante dela.

Ainda assim, concentrei-me em uma daquelas grandes estruturas de metal, que atuavam como grades intransponíveis, e com menos esforço do que eu esperava, consegui torná-la maleável, quase como uma borracha. Percebi também, enquanto o fazia, que aquele metal, fosse qual fosse, servir-me-ia perfeitamente como um condutor de energia

Segurando duas das barras, então, comecei a dispersar minha energia através delas, pelo solo, e conforme espalhava-a circularmente pela terra, ela era rapidamente atraída e concentrada nas grades. Depois, esforcei-me para diminuir seu ponto de fusão, e com um pouco de esforço, o metal agora derretia-se, denso porém nada viscoso, e arrastava-se pelo chão.

Ao finalmente conseguir ver o que as densas grades antes ocultavam, testemunhei uma cena um tanto imprevisível: Elisa, novamente valendo-se de sua grande aura em forma de touro e com suas duas lâminas fortalecidas prontas para uso, mantinha os olhos fixos na Reverenda. Esta, encontrava-se mal posicionada no chão, como se estivesse ainda na posição em que fora derrubada. Elisa tinha subjugado-a completamente, e agora olhava para mim.

– Eu disse – Elisa falou, de modo que ainda aparentava estar completamente satisfeita com a situação – que Fausto conseguiria sair por conta própria.
– Ora… – resmungou a Reverenda, sem tirar os olhos de Elisa e de sua aura em forma de touro, que agora, gradualmente apagava-se.
– Quem não voltou foi Abel – Elisa falou, quase debochando.

Assim que a aura de touro desfez-se, a Reverenda se pôs de pé, como se toda a sua coragem tivesse voltado de repente. Eu me sentia pronto para lutar, sendo que ainda havia uma boa quantidade de energia sepultada naquele cemitério, e Elisa não parecia menos disposta do que eu.

– Acho que agora as coisas realmente podem ficar interessantes – disse a Reverenda.
– Até agora não estavam? – perguntou Elisa.
– Eu estava muito ocupada com Abel e Caim. Raquel, perdoe-me por descumprir suas ordens, mas é por um bem maior – ela bradou, em sua estridente voz, com o olhar fixo em nós.

E de forma imprevisível, a Reverenda tornou a avançar sobre Elisa, como se quisesse agarrá-la. Elisa rapidamente desviou, e a Reverenda não foi menos rápida em também mudar seu curso. Fui em auxílio a Elisa, que não tinha tido uma oportunidade para concentrar sua aura até então. A Reverenda voltou sua atenção a mim e atacou-me de mãos vazias, mesmo comigo tendo uma espada para defender-me.

Com as costas de minha espada, para não machucá-la covardemente, rechaçava alguns golpes, desviando dos que eu conseguia. A Reverenda era insistente: avançava em minha direção, forçando-me a desviar para trás até que finalmente não mais o pude fazer. Depois de uma sequência rápida de suas investidas, perdi meu equilíbrio e caí de costas no chão. No tombo, larguei minha espada. A Reverenda olhou -me ferozmente, como eu já estava acostumado, e correu na direção de Elisa.

Em pouco tempo me recompus, levantei, e fui até onde estava Elisa, agora muito mais longe de mim do que antes. Faltando ainda uma boa parte do caminho para chegar até as duas, Elisa foi derrubada também, quase da mesma forma do que eu. A Reverenda considerou o ambiente a seu redor, e vendo que eu estava longe e Elisa caída, colocou suas mãos no chão e começou a concentrar energia nele.

Pelo modo como ela concentrava energia, suspeitei que ela fosse uma usuária das artes nobres. Minhas suspeitas confirmaram-se assim que a energia potencial que ela havia concentrado começava a converter-se em labaredas azuladas, que, sob a forte luz branca que já incidia no cemitério, tornava-se ofuscante. Ela concentrou a pequena fogueira de chama azul à sua frente em forma de uma pequena aura em torno de suas duas mãos, e atacou na direção de Elisa, que ainda não tinha se levantado.

Eu continuava correndo em sua direção, e agora já chegava perto. Percebi que não poderia interceptar seu ataque, e então lembrei de meu servo. Não sabia o que tinha sido feito dele, sendo que não o vira desde que deixara a prisão de Abel, e no mesmo instante, o vi colocar-se entre o soco da Reverenda e o corpo de Elisa. Ele salvara Elisa, porém fora atingido em cheio pelo golpe.

Corri até Elisa, que ainda estava confusa, e a ajudei a levantar, colocando-nos a uma distância segura, atrás de um anjo de um modesto túmulo. A reverenda ainda permanecia com sua mão no peito de meu servo, no mesmo lugar onde havia acertado o soco, e as chamas azuis agora assumiam um tamanho maior do que antes. Foram gradualmente desfazendo-se, até que sumiram completamente. Nesse momento a Reverenda deixou que o corpo de meu servo caísse ao chão.

Mal pude reconhecer o corpo que havia recriado horas antes, e se me dissessem que era o mesmo, eu não poderia acreditar: ele possuía agora um aspecto magricelo, mais ainda do que Abel, quando eu o vira. Era como se toda a sua musculatura tivesse sido removida de seu corpo. A Reverenda olhava ao seu redor, nos procurando enquanto a chama azul de sua mão começava a se reconstituir.

– Uma sanguessuga. – disse Elisa – Vai ser mais difícil do que eu imaginava.
– Temos que tomar cuidado com ela – respondi, talvez mais a mim mesmo do que a Elisa.

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