LIX – Da escolha da Reverenda.

by F. Pergher

Capítulos I-L
LI – Da batalha contra Caim e Abel.
LII – Do vestido verde oliva.
LIII – Do vestido verde oliva, segunda parte.
LIV – Da queda de Bernardo.
LV – Da técnica final de Abel.
LVI – Da força da Reverenda.
LVII – Do pacto de silêncio.
LVIII – Da origem da Reverenda.

Eu pensava no que fazer, a partir do ponto onde estávamos eu e Elisa. A Reverenda estava à nossa frente, aparentemente subjugada, e caso não o estivesse, seria no mínimo facilmente controlável. Independente das questões de Elisa, ou da forma maternal como eram feitas, ela simplesmente se recusava a responder, como se algo prendesse as respostas dentro dela, e não permitisse que saíssem.

– Provavelmente Raquel não é boba – eu falei – e forçou sua Reverenda a algum tipo de sigilo sobre suas intenções.
– Talvez sim – Elisa respondeu, parecendo desanimada – não sei de que outro modo poderemos extrair informações dela.
– Não existe outro modo – eu respondi, rapidamente. – Ou ela vai dizer-nos por vontade própria, ou será preferível que ela permaneça em silêncio.

Qualquer tipo de tortura, ou forma semelhante de obtenção de informações por meio de ameaças ou agressões era visto com péssimos olhos entre os usuários das Artes Ocultas, bem como pelos membros da Nobreza. Eu sabia que Elisa nunca tentaria nenhuma chantagem sobre a Reverenda, era mais do que óbvio para mim que os pacíficos Catarianos provavelmente nem mesmo cogitariam tal método. Talvez eu tivesse dito aquilo mais para convencer a mim mesmo, já que me sentia cada vez mais curioso sobre a Reverenda, o que ela era ou o motivo pelo qual servia Raquel.

– De qualquer jeito – disse Elisa – ela teme a entidade justiceira dos Catarianos. Isso tem a ver comigo, quero descobrir o quanto ela está envolvida conosco.
– Siga em frente – falei – e se descobrir alguma coisa, avise-me. Vou estar logo ali, preciso recompor-me um pouco.

Fui em direção ao túmulo mais próximo, pois, além de ser uma posição estratégica para minha permanência, eu não estava disposto a caminhar muito e, ao mesmo tempo, precisava sair de perto da Reverenda, antes que perdesse minha paciência. Havia algum tempo que não me envolvia em uma verdadeira luta, e meus nervos estavam exaltados, agora percebo. Recostei-me na lápide que estava sobre o túmulo, e fiquei observando Elisa de longe.

Conseguia ver as costas de Elisa, escondendo parcialmente de minha visão a Reverenda. Não conseguia ouvir nem mesmo traços do que as duas diziam, e embora tenha cogitado enviar um servo discretamente até perto de onde as duas estavam, mas desisti da ideia. No fim das contas, seria melhor que eu não me importasse por hora. Olhei para o céu, e pela posição da lua, adivinhava que não faltavam muitas horas para o final da noite. Do lado oposto à lua, já conseguia ver o céu avermelhando, dando indícios de que logo a aurora trataria de eliminar o que sobrava daquela noite.

Especulava um pouco sobre a Reverenda, e sentia-me cansado a ponto de meus pensamentos divagarem facilmente. Logo, estava divagando em minha mente sobre o povo Catariano, e que tipo de mistérios estariam escondidos em sua reclusão. Depois disso, lembro-me de ser acordado por Elisa, não posso dizer exatamente quanto tempo se passara.

– Fausto – disse ela – acho que a Reverenda não vai dizer mais nada.
– Ela disse algo nesse tempo todo? – perguntei, tão atento quanto estava anteriormente.
– Não verbalmente, mas percebi algumas coisas indisfarçáveis nela.
– Conte-me mais – eu disse, levantando.

Sempre tivera um sono leve. Por mais tempo que eu dormisse, quando acordava, me sentia imediatamente disposto. Pequenos cochilos tornaram-se comuns, se não exclusivos, em minha vida, já que desde que eu costumava praticar ou exercer as Artes Ocultas, o fazia durante a noite, e depois de parar com elas, comecei a pesquisar. De qualquer jeito, os, suponho, minutos que passei de olhos fechados em muito haviam servido-me. Agora eu me sentia pronto para mais uma luta, se fosse necessária.

– Bem, percebi que sua expressão mudou um pouco quando comecei a mencionar a ordem dos Catarianos. – Elisa continuou – Sua fisionomia de raiva parecia mais uma tristeza contida, e seus olhos estavam marejados de lágrimas.
– E o que isso traz de conclusivo?
– Provavelmente ela tem, sim, algo a ver com minha ordem. Agora trata-se simplesmente de descobrir o que é.

Chegamos, em poucos passos, até onde Elisa havia deixado a Reverenda, que provavelmente havia caído inconsciente devido à sua exaustão. Quando nos aproximamos, devagar para não acordá-la, pude vê-la mexer-se de leve. Olhei aquela figura por alguns minutos, o vestido verde oliva agora parecia grande demais para seu corpo inerte sobre o chão de terra. Visto daquele ângulo, ele não me intimidava como havia feito desde a primeira vez que o havia visto. Pelo contrário: inspirava-me pena.

– E então, Fausto, o que faremos?
– Não sei – eu respondi, enquanto me abaixava. Rasguei, com um pouco de dificuldade, um pedaço do grosso tecido que compunha seu vestido.
– O que está fazendo? – Elisa perguntou.
– Guardando comigo – eu coloquei o pedaço da barra da grande saia do vestido no bolso de meu capote – gosto de manter troféus de meus inimigos, e talvez isso venha a ser útil.

Talvez eu tenha falado alto demais, porque assim que terminei minha frase, a Reverenda começou a acordar. Vendo-me próximo a ela, e com Elisa logo à frente, ela se sobressaltou. Empurrou-me com força, fazendo com que eu perdesse meu equilíbrio e caísse de costas ao chão. Elisa, vendo que a Reverenda se assustava, procurou se afastar dela.

– O que vocês vão fazer comigo, essa é a dúvida? – a Reverenda voltara a falar, na mesma voz ameaçadora que usava anteriormente – Não tem nada que vocês possam fazer comigo!
– Calma – disse Elisa – a gente só tava tentando decidir…
– Vocês não tem que decidir nada sobre mim! – ela interrompeu Elisa em um grito feroz.

Imediatamente, a Reverenda pôs se de joelhos no chão, e voltou a acender as duas chamas em suas mãos. Levantei-me rapidamente, fazendo para tal um esforço enorme, e procurei me afastar. Se tivéssemos que lutar novamente, teríamos uma maior vantagem conforme fosse maior a distância.

Surpreendentemente, quando as chamas em suas mãos já tinham atingido um tamanho suficiente, o que ela fez não foi investir contra Elisa e eu, como eu esperava que fosse. Ela juntou suas duas mãos à frente de seu corpo, e sob a luz criada pelas chamas azuis era possível ver claramente as grossas lágrimas que escorriam por seu rosto, e lançou ainda um grito desesperado, que ecoou em minha mente por vários dias depois do incidente.

– Perdoe-me, Raquel, mas não posso ser capturada viva!

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