LVII – Do pacto de silêncio.

by F. Pergher

Capítulos I-L
LI – Da batalha contra Caim e Abel.
LII – Do vestido verde oliva.
LIII – Do vestido verde oliva, segunda parte.
LIV – Da queda de Bernardo.
LV – Da técnica final de Abel.
LVI – Da força da Reverenda.

A Reverenda olhava, em silêncio, ao redor, como se tentasse prestar atenção a tudo que acontecia em torno de si, com todos os seus sentidos. Eu tinha que me comunicar com Elisa na voz mais baixa que conseguisse, por enquanto.

– Então, tem alguma ideia? – ela me perguntou, sussurrando.
– Tenho: expurgá-la o mais rápido possível. – respondi, também sussurrando.
– Por que? Será que não podemos conseguir informações sobre Raquel com ela?
– É arriscado.
– Não sei como pode ser arriscado.

Elisa parecia mais confiante do que aquilo que eu consideraria seguro.

– Veja – eu tornei a sussurrar – se eu for executar um expurgo, isso nos torna dois lutadores que precisam de tempo para executar qualquer técnica que seja.
– Eu acho que não – ela retrucou – ainda tenho uma grande quantidade de energia armazenada.
– Então tente criar uma abertura para que eu ataque-a, de preferência deixe ela cansada.
– Isso vai ser fácil. – Elisa mal esperou para levantar-se e saltar da capela, na direção da Reverenda.

Ao ver Elisa, aparentemente uma presa fácil, a Reverenda avançou rapidamente em sua direção. Ela conseguia mover-se rapidamente, apesar de seu vestido parecer, à primeira vista, um grande retardador de seu movimento. Chegou perto de Elisa e tentou, diversas vezes, tocar nela com suas chamas. Elisa prontamente desviava, completamente desarmada. Para sua proteção, possuía apenas uma pequena e brilhante aura branca.

Comecei a concentrar-me na energia que o Errante havia deixado, e tentava absorvê-la para mim, para facilitar um contra ataque. A Reverenda parecia incansável: não parava de atacar nem por um momento, e Elisa talvez não fosse aguentar seu ritmo. Absorvi um pouco mais de energia e resolvi interferir na luta, mesmo que isso significasse torná-la mais longa, postergando o expurgo da Reverenda.

Antes de descer da capela, usei a invocação de almas no corpo da Reverenda, e pude ver que isso havia desconcertado-a: suas chamas azuis reduziram de tamanho, e Elisa começava a ter mais tempo para se mover. Não dei nenhuma chance para que a Reverenda me atacasse, e corri logo na direção dela. Elisa pareceu entender o recado, e buscou um lugar seguro atrás de uma capela simplória e aparentemente abandonada, de onde poderia recarregar sua energia.

Enquanto isso, eu atacava a reverenda com as costas da lâmina de minha espada de cabo longo: com ela, poderia manter uma distância segura, já que o raio de alcance de seus braços não era maior que o comprimento de minha espada. Isso não a impediu de atacar-me furiosamente, desviando de todas as estocadas e talhadas que eu desferia em sua direção, e vez ou outra obrigando-me a esquivar suas mãos flamejantes.

Eu começava a cansar, embora moderadamente. Enquanto isso, a Reverenda parecia ter energia ilimitada em seu corpo: lutava impassivelmente, mantendo sempre o mesmo ritmo. Eu esperava que Elisa conseguisse logo carregar sua energia. Tomei um pouco mais de distância dela, recuando, e antes que ela voltasse a atacar-me rapidamente, consegui conjurar mais almas em direção a seu corpo.

Dessa vez, porém, saturá-la de almas havia sido menos eficiente do que fora antes: embora suas chamas enfraqueceram e ela obrigou-se a parar por alguns momentos, pouco demorou para que ela novamente se reestabelecesse. Dessa vez, porém, ela não me atacou de imediato. Ao invés disso, olhava-me com uma expressão facial que poderia tanto ser um sorriso indiferente quanto uma irada e desdenhosa carranca.

– Vocês dois lutam contra mim, intercalando seus golpes, e ainda assim causam tão pouco estrago? Acho que nem mesmo vale a pena absorver sua energia.
– Se estivesse em teu lugar, eu teria continuado calado – respondi – E por gentileza, não fale como se derrotar-nos dependesse de tua própria vontade.
– E você acha que não depende? – imediatamente, ela voltou a avançar contra mim.

Eu não estava preparado para seu ataque, e pensei que no mínimo perderia uma grande parte de minha energia quando seu punho projetou-se contra meu peito. Fui momentaneamente cegado por uma forte luz branca, e assim que ela diminuiu, vi Elisa à minha frente. Ela tinha refletido o golpe da Reverenda de forma primorosa, e preparava, atenta, um contra ataque. A Reverenda estava praticamente desarmada, apesar de ainda estar com as chamas acesas em seus punhos, e Elisa estava com suas duas lâminas prontas para serem usadas.

– Fausto, afaste-se – ela disse, imperativamente.

Afastei-me sem muito relutar, afinal, provavelmente Elisa possuía um plano melhor do que o que eu poderia pensar. Ela procedeu em aumentar sua aura, até que eu pude ver a mesma fronte do grandioso touro que eu vira antes. Ele parecia ser uma entidade independente, como se em nada dependesse de Elisa, e suas atenções pareciam estar totalmente focadas na Reverenda.

Eu não conseguia imaginar uma explicação, mas a Reverenda estancava-se, amedrontada, à visão do Touro. Elisa então aproximou-se dela, enquanto o touro mantinha-se no mesmo lugar, desfez suas espadas luminosas e sentou-se em frente ao lugar onde a Reverenda estava paralisada.

– Agora me diga – Elisa começou, em uma voz nada ameaçadora – por que você temm oferecido sua ajuda a Raquel?

Sua única resposta foi o silêncio, o que não a impediu de continuar tentando estabelecer contato com a Reverenda.

– Ela te ofereceu alguma grande recompensa? Ou você simpatiza com a causa dela? Foi forçada a isso?

Dessa vez, além do silêncio, Elisa recebeu um olhar inflamado de volta.

– Não precisa me dizer nenhum detalhe se não quiser. Só me diga, por que você ajuda Raquel?

A Reverenda não disse uma sílaba sequer. Insisti que Elisa deixasse-a lá, e que fôssemos ver o que havia no bosque do lado do cemitério, para que depois voltássemos a falar com ela. Elisa concordou, e antes de sair, começava a acumular um pouco de energia, ao passo que sua grande aura de touro desaparecia. Tão logo ela deixou de ser visível, a Reverenda levantou-se, como se quisesse atacar-nos, mas Elisa, já sabendo o que esperar dela, havia uma técnica preparada.

As quatro esferas de luz que até então haviam iluminado o cemitério foram atraídas até o lugar onde estávamos. A energia luminosa das esferas então, sem deixar de irradiar aquela forte luminosidade por um minuto sequer, converteu-se em uma espécie de caixa, que envolveu totalmente a Reverenda. Eu só podia imaginar o que seria feito da visão dela, constantemente bombardeada por paredes de luz, que eram suficientes para ainda iluminar o cemitério inteiro de dentro para fora.

– Não vou deixar ela solta por aí, tenho certeza que ela não vai esperar até que saíamos de lá.
– Quando estiveres pronta, Elisa, podemos averiguar.
– Eu estou – ela disse, toda a sua aura já havia desaparecido. Saímos do cemitério, em direção ao pequeno capão de mato que eu antes vira rapidamente. Havia uma imensa chance de que lá dentro tivesse algum indício do que era a Reverenda.

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