LVIII – Da origem da Reverenda.

by F. Pergher

Capítulos I-L
LI – Da batalha contra Caim e Abel.
LII – Do vestido verde oliva.
LIII – Do vestido verde oliva, segunda parte.
LIV – Da queda de Bernardo.
LV – Da técnica final de Abel.
LVI – Da força da Reverenda.
LVII – Do pacto de silêncio.

– Fausto – disse Elisa, tão logo saímos do cemitério – algo na Reverenda está me incomodando.
– Ora – eu respondi – tudo na Reverenda me incomoda.
– Não, algo sobre ela em específico.
– Pois o que é?

Elisa parou, antes que entrássemos no bosque. Parei, para não deixá-la para trás.

– Você viu minha aura, não viu?
– Que parecia um touro? Vi sim, o que tem ela?
– Aquilo era um dos espíritos sagrados dos Catarianos. Não tenho como falar muito sobre eles agora, mas cada um deles basicamente representa algum aspecto fixo, algo que supera a longevidade humana.
– Acho que consigo entender, continue.
– Pois bem, a aura do Touro geralmente é associada ao castigo, à punição dos injustos. E você viu como a Reverenda tornava-se estática, até mesmo enfurecida, na presença de minha aura.
– E o que isso pode significar? Que ela teme pelo crime que cometeu?
– Mais do que isso, Fausto. Para ela ter tido contato com a punição, com a aura do Touro, ela já deve ter tido alguma ligação com o meu povo. Mas provavelmente isso é mais importante para mim do que para você. – Elisa tornou a andar.
– Depois que resolvermos o problema com Raquel – eu falei – podemos investigar isso a fundo.
– Eu agradeceria se você me ajudasse, Fausto – Elisa pareceu imediatamente mais radiante – mas vamos ver o que nos espera aqui nesse lugar.

Em poucos passos, adentramos o capão. Reconheci a mórbida trilha pela qual havia passado antes, mas agora sem a luz incidente de Elisa, ela parecia ainda mais assustadora. Fomos andando, desviando dos cipós, pedras soltas e outros obstáculos da trilha, quando finalmente avistei a clareira.

– Vamos com calma agora – Elisa tomou a frente – pelo que consegui ver desse lugar antes, temos que cuidar onde encostamos.
– Correto. Mas seria uma tarefa mais fácil se tivéssemos luz.
– Ah, é claro – disse Elisa, acendendo um pouco de energia em sua mão esquerda.

Com a clareira mais iluminada, pude perceber o aspecto do lugar: não era mais do que uma espécie de altar cerimonial simplório – que consistia basicamente em um espaço aberto – com duas estruturas metálicas de um dos lados, e alguns servos iguais aos de Abel de outro. Provavelmente fora o epicentro das grandes variações de entropia que havíamos detectado anteriormente. Andei até as estruturas de metal, instintivamente, e ao chegar perto delas, percebi que eram feitas de um metal parecido com o composto do pigmento condutor que usávamos.

Elisa averiguava os servos, enquanto eu continuava olhando ao redor. Nada digno de menção, além desses elementos, podia ser visto naquele lugar. Quando Elisa terminou sua rápida inspeção pelos servos que lá estavam, veio até o lugar onde eu estava.

– O que é isso, Fausto?
– É o mesmo material que eu e a maioria dos usuários de Artes Ocultas usamos. É um supercondutor da energia potencial que usamos.
– E por que eles teriam isso aqui?
– É uma boa pergunta, de fato – eu falei, ainda tentando formular uma teoria – talvez houvesse aqui uma reserva de energia?
– Para ser usada caso tudo desse errado na batalha. Isso explicaria o motivo de Caim e Abel terem voltado para o matagal depois de serem derrotados na primeira vez.
– Sim, possivelmente isso seria uma reserva de energia. Mas isso deixa um buraco: por que dar-se ao trabalho de levantar uma espécie de quartel general, sendo que isso tornaria mais fácil de rastreá-los e desmantelar seu plano?

Elisa permaneceu em silêncio por alguns momentos.

– Isso se torna ainda mais estranho, sendo que a Reverenda é uma sanguessuga, que poderia reestabelecer suas energias simplesmente atacando a gente. – Ela falou, depois de algum tempo. De repente algo pareceu-me mais coerente do que a teoria da reserva de energia.
– Sanguessuga… Elisa, talvez nosso pensamento ainda esteja muito restrito. E se a função dessas bobinas fosse a de armazenar energia que seria coletada em batalha?
– E dá para fazer isso de um jeito discreto?
– Lembra de como ela energizou Abel e Caim? Por que não fazer o mesmo com essas bobinas?

Elisa relutou por alguns segundos, como se digerisse a informação, até que finalmente abriu um sorriso de satisfação.

– Certo, então possivelmente a Reverenda, que foi mandada por Raquel, estava aqui em uma missão de coleta?
– Essa é a hipótese mais correta. E combina também com sua escolha de servos: Abel também utilizava-se de sanguessugas, isso permitiria a ela juntar uma imensa quantidade de energia em um tempo razoável. Caim, por sua vez, poderia ser o último recurso caso algo desse errado, poderia ser a eliminação.
– Então por que Caim atacou Mefisto e Margarida primeiro?
– Vejamos: os dois foram separados logo no início. Podemos pensar que a Reverenda simplesmente não esperava um poderio do tamanho que veio a seu encontro, então primeiro usou seus poderes de manipulação para separar os dois, e depois usou Caim e Abel para eliminá-los, contra seus planos.
– Bom, isso tudo podemos confirmar com a própria Reverenda, que com certeza ainda está quietinha onde deixamos ela.

Saímos, então, do capão de mato que antes ocupávamos. A caminhada de volta foi mais rápida do que a de ida, em partes, suponho, por termos nossa curiosidade saciada, e então voltamos ao cemitério. Encontramos, como Elisa havia suposto, a prisão de luz ainda lá. Quando tinha afastado-me dela, conseguia perceber os primeiros indícios da aurora vindos do céu, mas próximo à luz, ela parecia ainda ser a única iluminação de todo o ambiente.

Elisa desfez sua prisão de luz, e tão logo a Reverenda voltou a recobrar seus sentidos, Elisa voltou a interrogar-lhe, do mesmo jeito maternal que o havia feito antes.

– Por favor, você só precisa dizer sim ou não. Sua missão aqui era de coletar energia? – novamente, a Reverenda manteve-se em silêncio. – E essa energia, era para Raquel? Por que ela precisava da energia?

Como eu já previra, a Reverenda simplesmente não respondia pergunta alguma. Continuava a fitar Elisa com o mesmo olhar de desprezo com que a olhava anteriormente. Elisa tirou os olhos dela, virando-se para mim.

– O que faremos com ela, Fausto?

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