LX – Do retorno à sede dos Catarianos.

by F. Pergher

Capítulos I-L
LI – Da batalha contra Caim e Abel.
LII – Do vestido verde oliva.
LIII – Do vestido verde oliva, segunda parte.
LIV – Da queda de Bernardo.
LV – Da técnica final de Abel.
LVI – Da força da Reverenda.
LVII – Do pacto de silêncio.
LVIII – Da origem da Reverenda.
LIX – Da escolha da Reverenda.

Assisti, no mínimo surpreso, à Reverenda ateando fogo com suas chamas azuis a seu próprio corpo. A meu lado, Elisa também olhava atônita, cobrindo a boca com as mãos. As chamas azuis decompõem energia, portanto o que ela fazia era drenar toda a energia de seu próprio corpo, tal como havia feito a meu servo.

Poupo-me de descrever o aspecto final de seu corpo. Esperamos, eu e Elisa, até todo o calor resultante da combustão dissipar-se, e uma vez que ele o foi, aproximamo-nos do cadáver. Elisa não falava nada, apenas acompanhava meus movimentos, ajudando-me quando fosse conveniente. Peguei um pouco da liga de prata que usava para selar cadáveres, e marquei nele aquele infame símbolo angular.

Quando tornei a levantar e finalmente prestei atenção em Elisa, percebi que seus músculos do rosto estavam contraídos, e ela mordia seu lábio inferior. Quando ela percebeu que eu a fitava, caiu de joelhos ao chão, chorando compulsivamente. Não soube o que fazer em primeira instância: havia um bom tempo que não convivera com pessoas sensíveis, ou pelo menos emotivas. Depois, sentei-me a seu lado, e esperei que parasse de soluçar. Em alguns minutos, seus soluços haviam sido reduzidos a suspiros.

Confesso que achava um exagero, por mais cruel que fosse o modo com que ela acabou sua própria vida, o sofrimento de Elisa perante a morte de alguém que antes fora um inimigo feroz, que queria matá-la a todo custo. Fiquei com essa dúvida assolando meus pensamentos até que Elisa finalmente virou-se para mim e começou a falar.

– Fausto, ela não queria estar fazendo aquilo.
– Acalme-se. Como tens certeza disso? – perguntei, tentando ser mais compreensivo do que curioso.
– Eu consegui sentir… Ela não queria ter morrido, não daquele jeito. Se ela pudesse, provavelmente teria cooperado conosco.
– Correto – falei, tentando consolá-la – mas pense que pelo menos ela tirou apenas sua própria vida. Ela podia ter levado um de nós junto.

Minha única resposta foram novos soluços. O dia estava começando a clarear, e o cemitério estava totalmente revirado, o que eu considero um desrespeito à memória dos que aí descansam. Disse a Elisa que iria começar a limpar o cemitério, e que quando ela se sentisse bem, poderia juntar-se a mim. Não sabia ao certo se estava agindo corretamente, mas foi o que consegui pensar no momento.

Tornei, então, a limpar o cemitério, como posso dizer. Comecei removendo todos os corpos que haviam antes servido como servos para Abel e Caim, e exilando as almas do exército de Caim. Era um processo relativamente simples, já que os corpos produzidos tinham um aspecto diferente dos corpos naturais. Feito isso, comecei a providenciar algo para Abel, Caim e Bernardo.

Primeiro, exilei a alma de Bernardo. Como já expliquei anteriormente, servos vivos, com alma, não possuem algo como a morte, quando sua alma e seu corpo são definitivamente separados. O que eles sofrem é a chamada morte física: suas funções vitais param, mas sua alma ainda está imbuída ao corpo. Portanto, para que seja libertada a alma de um servo, é necessário que ela seja exilada ou expurgada. Depois, ajuntei os corpos de Caim e Abel, partindo, por último, ao da Reverenda.

Assim que tirei o corpo da Reverenda do lugar onde ele ocupava, Elisa levantou-se, enxugando o que restava de lágrimas ao seu rosto. Nunca fui adepto de religião nenhuma, mas sabia conduzir um cortejo fúnebre de um modo razoável. Coloquei os corpos improvisadamente alinhados sobre o altar da velha capela, e procurei ajeita-los do modo mais digno possível. Ficamos, eu e Elisa, encarando os quatro corpos que estavam sobre o altar, e logo prosseguimos a enterrá-los, sem muitas cerimônias. Guardei um pedaço da túnica de Caim, que havia se rasgado quando ele caíra ao chão depois de ser expurgado, e também um pequeno fragmento do ombro da armadura já deteriorada de Abel. Talvez aquelas peças pudessem fazer-me falta depois.

Saímos do cemitério após enterrar aqueles corpos no pequeno bosque, onde dificilmente seriam encontrados. Algo parecia inquieto em minha cabeça, e eu estava levemente ansioso para que aquela tensão, na verdade para que todo o incidente com Raquel se resolvesse. Então, eu finalmente poderia dar o uso que planejara para a peça de tecido que havia removido do vestido da Reverenda. Não mencionei o fato a Elisa, já que ela ainda parecia abatida, mas assim que possível, pretendia fazê-lo.

Caminhamos quase mecanicamente, já que Elisa sabia o caminho, até o acampamento dos Catarianos. Durante a caminhada, poucas vezes foi iniciada uma conversa, e naquelas vezes, a conversa amornava e extinguia-se em pouco tempo. Quando Elisa avisou-me que já passávamos da metade do caminho, o sol já estava tornando-se árduo sobre nossos corpos.

Na segunda metade da caminhada, fui acometido por um cansaço sem precedentes. Era como se a exaustão de todo o tempo que havia lutado até então, e é necessário dizer que eu não lutava desse jeito havia muito tempo, estivesse caindo de uma vez sobre mim. Em certos pontos da caminhada, tive que pedir que Elisa parasse, para que eu pudesse recuperar meu corpo, mesmo que fosse durante pouco tempo. Nesses intervalos, conseguia perceber que sua respiração também fazia-se pesada e enfraquecida. Pela primeira das vezes que havia visto-a, Elisa não parecia radiante.

Julguei que fosse o efeito da exaustão sobre seu jovem corpo, e continuamos andando até finalmente chegarmos no assentamento dos Catarianos. Fomos recebidos por Pânfilo, que assim que nos viu avisou Emília e o Pastoreio, e depois disso, minhas lembranças fazem-se turvas. Lembro-me de apagões em meus sentidos por duas vezes, na segunda delas, fui amparado por Emília. Após isso, lembro que acordei sob algumas árvores, com um forte cheiro de vegetação a meu redor. Por fim, tenho esparsas imagens do Pastoreio olhando-me de cima, como se eu estivesse deitado, e de ter sido carregado para dentro de uma cabana.

Provavelmente aquele havia sido o sono mais longo que eu dormira em muito tempo. Quando acordei, pude ver, de uma das janelas, a lua, a mesma que conseguia enxergar do cemitério. Meus olhos demoraram um pouco a acostumar-se com as condições de iluminação do lugar, mas assim que voltei a enxergar, pude ver que havia outro leito simplório ao lado do meu, e nele repousava Elisa, ainda dormindo profundamente. Suas feições agora pareciam mais tranquilas, ela lembrava mais a radiante Elisa que eu conhecera. Afora isso, não escutava barulho nenhum do lado de fora. Considerei o fato estranho, mas pouco me importei: ainda estava cansado demais para isso.

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