LXI – Do retorno à cidade.

by F. Pergher

Capítulos I-LX

Acordei novamente quando o sol já nascia. Elisa, a meu lado, também acordara, e ao perceber que me movi, ela virou-se para mim. Não tivesse eu presenciado a luta da noite anterior, não poderia dizer que aquela Elisa anteriormente estivera a ponto de perder todas as suas energias. Ela agora cumprimentava-me com um simpático sorriso.

– Olá, Fausto – disse ela, levantando da cama que ficava ao lado da minha – quer comer algo? Posso buscar alguma coisa, já que estamos desde ontem à noite sem.
– Não mesmo – disse Emília, que entrava pela porta – vocês dois mal conseguiam permanecer em pé quando chegaram aqui ontem. Deitem-se que eu logo vou trazer algo para vocês.
– Muito obrigado – respondi, fazendo uma pequena reverência com minha cabeça.

Só então comecei a perceber o quanto estava com fome. Afinal, eu não havia comido nada por pelo menos doze horas, e havia gasto uma grande parte de minha energia graças a Caim, Abel e à Reverenda. Logo voltei a pensar sobre como estariam Plínio, Margarida e Basílio, dos quais eu não havia tido mais notícia alguma.

– Eu já volto – Elisa interrompeu meus pensamentos com sua voz enquanto levantava e andava na direção da porta – Se precisar de algo, chame Emília.

Não posso dizer que não aprovava algum tempo para ficar sozinho. Sentia como se ainda não tivesse digerido os acontecimentos da noite anterior, ou a magnitude do que eles representavam. O Errante voltara novamente ao lugar onde pertencia: o limbo multiplanar. Tanto Abel quanto Caim estavam expurgados, e seria muito difícil trazê-los de volta, quando quer que fosse, e havia Raquel, de quem eu pouco ouvira falar desde algum tempo atrás, que agora fazia-se uma inimiga de peso.

Por último, e que não menos incomodava minha mente, havia a situação de Oscar. O motivo dele ter me atacado tão enfurecidamente ainda era um grande mistério, ainda mais contando com sua fuga do hospital. E no fim das contas, eu não sabia o motivo da volta de Glória, ou por que ela seria necessária de volta à cidade, quando também o era lutando a meu lado.

Quando Emília finalmente entrara em meu quarto, e junto com ela um aroma que eu não sabia distinguir do que era, mas que enchia o ambiente de forma deliciosa, imaginei que talvez fosse melhor deixar esses pensamentos de lado, pelo menos por hora. Ela trazia em suas mãos uma rasa e larga panela fumegante, e sobre ela, dois pratos empilhados, junto com talheres e ainda um pequeno recipiente com um creme de cor suave.

– Desculpe, Fausto, foi tudo que conseguimos fazer em pouco tempo. Espero que te agrade. Aliás, onde está Elisa?
– Disse que logo voltaria. E não se preocupe quanto à comida, tenho certeza de que ela está muito bem preparada.
– Sinta-se à vontade – disse Emília, com um discreto sorriso – e deixou o ambiente.

Decidi esperar Elisa para começar a comer, enquanto observava a panela fumegante e os dois pratos colocados na pequena penteadeira à minha frente. Nunca deixei de me impressionar com a organização minimalista dos Catarianos, bem como de sua capacidade de adaptar-se fácil a um ambiente novo, e nele agir tal qual sua própria casa.

Elisa não demorou a voltar, e assim que viu a panela, sua expressão tornou-se ainda mais feliz do que antes era.

– Olha, trouxeram alguma coisa! Por que não começou a comer, Fausto?
– Estava esperando por ti. Seria rude se eu terminasse minha refeição antes que viesse.
– Não precisava se preocupar com isso – ela tinha um largo sorriso no rosto quando abriu a panela e serviu aquilo que parecia uma sopa de legumes e vegetais. Alcançou o primeiro prato para mim.
– Muito obrigado – eu falei.
– De nada. A propósito, se depois você quiser se lavar, tem uma fonte aqui nas redondezas, perto do rochedo.
– Talvez eu vá até lá depois – exclamei, entre uma colherada e outra.

Aquela sopa com certeza estava entre as melhores que eu já havia provado. Elisa e eu não demoramos muito tempo para esvaziar a panela, e eu sentia-me satisfeitíssimo após a refeição. Depois dela, pedi licença para Elisa e andei até a fonte que ficava próxima ao rochedo. Um córrego saía dentre as rochas, e em um ponto de sua travessia, desaguava em uma espécie de fosso, que era grande o suficiente para que um homem adulto banhasse-se nele tranquilamente. O sol batia nas rochas lisas de uma maneira que mantinha a água – assim como todo o ambiente ao redor delas – aquecida, e o transbordo do fosso constantemente sendo cheio formava novamente o riacho, que continuava seu curso.

Bebi um pouco da cristalina água, antes que chegasse ao fosso, e lavei meu rosto e minhas mãos com sua água morna. A paz do lugar era tanta que provavelmente eu teria gasto horas banhando-me nele, não fosse a maior urgência do que acontecia a meu redor. A água e meu rosto limpo haviam dado-me novas energias para continuar o que havia começado: deveria agora voltar à cidade, ver o quanto poderia ser útil sobre Raquel e mais possíveis subordinados.

Quando voltei ao vilarejo onde acampavam os Catarianos, Elisa já me esperava fora das cabanas. Ao perceber minha chegada, o Pastoreio, Pânfilo e Emília vieram até onde estávamos.

– Vocês já estão indo? – perguntou Emília.
– Sim – Elisa respondeu em tom sério, como se soubesse o que eu pensara – ainda não terminamos com Raquel.
– Tomem cuidado – Pânfilo falou, não parecendo muito preocupado.
– Tenho certeza que vocês farão um bom trabalho – disse, finalmente, o Pastoreio – E se encontrarem Glória, digam a ela para que não se esforce demais.
– Com certeza direi – eu respondi, tentando ignorar minha ansiedade e insegurança.

E desse jeito, sem uma cerimônia muito grande, como quem sabe que logo haverá de rever-se, voltamos a andar, eu e Elisa, em direção ao centro da cidade, onde provavelmente estariam agora Margarida, Plínio e Glória. Eu lembrava-me do caminho até o hospital, então isso não seria um grande problema.

Apesar de Elisa agora estar mais alegre do que estava enquanto voltávamos para o assentamento dos Catarianos, pouco conversamos na caminhada até a cidade, e admito que muito se devia às minhas preocupações. Afinal, por mais que eu mesmo tivesse treinado Margarida, já tivesse visto do que Plínio e Glória eram capazes e o modo como os Catarianos lidaram com nossa saída, confiantes, não podia deixar de preocupar-me com os mesmos fatores que descrevi. Raquel, se fosse uma entidade tão poderosa quanto era dito, não cairia tão facilmente.

Logo antes de começar a anoitecer, estávamos na entrada da cidade. Como dificilmente o hospital permitiria visitas tarde da noite, e eu acima de tudo ainda me encontrava sujo e exausto fisicamente da caminhada e da batalha, sugeri a Elisa que passássemos a noite em minha casa, já que provavelmente teríamos um longo dia. Elisa concordou, e rumamos ao conhecido caminho até minha casa.

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