LXII – Do reencontro com Margarida.

by F. Pergher

Capítulos I-LX
LXI – Do retorno à cidade.

 

As ruas do bairro onde eu morava, mesmo sendo cedo de noite, pareciam agora mortas. Não se via sequer um passante, níveis tão baixos de movimento não eram comuns nem mesmo para um frio anoitecer. Chegamos até minha casa sem nada digno de menção acontecer, e não havia nenhum gato em frente à minha porta, fato que estranhei um pouco.

Coloquei a chave que sempre levava em um dos bolsos internos de meu capote na fechadura, e para minha surpresa, a porta não estava trancada. Assim que entrei em casa, tomei um susto ainda maior: Toda a casa havia sido organizada de forma impecável: tudo o que estava desorganizado havia sido posto em seu lugar, e tanto os móveis quanto o chão exalavam cheiro de produtos de limpeza. Fazia algum tempo que não encontrava minha casa assim, mas lembrava exatamente de quando fora a última vez.

Por isso, em nada fui surpreendido quando vi Margarida sentada sob a lâmpada da cozinha, vestida confortavelmente com um largo e velho vestido, lendo um de meus livros antigos sobre as Artes Ocultas. Ao perceber nossa entrada, cumprimentou-me com um sorriso.

– Vocês demoraram um bom pouco, hein?
– Tivemos alguns percalços – disse Elisa, retribuindo seu sorriso.
– Sei. Eu esperava mais de uma equipe como vocês. – Margarida assumiu um tom sério, tornando a rir alguns momentos depois, como costumava fazer para zombar de pessoas que conhecia.

No fundo, eu imaginava que ela realmente esperasse mais de mim e de Elisa. Mas nada falei, estava cansado demais para entrar em qualquer tipo de discussão, por menor que fosse, naquele momento.

– Obrigado por limpar minha casa, Margarida.
– Tudo bem. Eu podia ter limpado três delas, com a demora de vocês.
– Desculpe, nossa única prioridade realmente era chegar em casa para encontrar Margarida.
– Tanto faz, como foi a luta? – ela perguntou, ainda em tom zombeteiro.
– Pois bem – eu disse – prefiro deixar que Elisa conte a ti, preciso de uma ducha urgentemente. Depois é tu quem terás de me atualizar.
– Acho bom que tome logo sua ducha, você é a única parte dessa casa que eu não pretendo limpar tão cedo.

Apesar do cansaço, não consegui deixar de esboçar um sorriso. Subi rapidamente até meu quarto – não menos ordenado do que o resto da casa – e tornei a tomar uma ducha, que imagino ter sido a mais longa que eu tomei em muito tempo. De repente, meus problemas não pareciam tão relevantes quanto eram há algumas horas, e consegui esquecer totalmente Plínio, Oscar e Raquel durante o tempo que permaneci sob a água quente de meu chuveiro elétrico.

Antes de descer de volta ao andar térreo, pude ouvir Margarida e Elisa conversando ativamente, entre risadas. Procurei demorar-me um pouco mais no segundo piso, para não atrapalhar a desenvolta conversa das duas. Fui até o quarto de Mefisto e conferi sua máquina: Não mostrava nenhuma grande variação de entropia em toda a tela, portanto respirei aliviado. O pior já tinha passado.

Desci, então, as escadas, e diferentemente do que havia esperado, minha presença não interrompeu, em absoluto, a conversa das duas. Logo, inclusive, fui convidado a participar dela.

– Eu duvidava que você fosse conseguir expurgar alguém, Fausto, eu realmente duvidava. Mas parece que você fez isso duas vezes, meus parabéns – disse Margarida.
– Vejo que já está a par do que aconteceu comigo. Agora conte-me sobre o que foi feito em minha ausência – eu disse, fazendo meu máximo para tentar ser agradável, ao mesmo tempo em que supria minha ansiedade.
– Calma, Fausto. Por que tanta pressa?
– Sabes com o que estamos lidando, não sabes, Margarida?
– Sim, já me falaram isso. Mas relaxa, o que importa é que você não pode fazer nada por agora.
– Como assim?
– Bem, nada tem acontecido por hora. Oscar fugiu de novo do hospital, o Plínio e a Glória foram atrás dele, acharam ele machucado, e levaram de volta pro hospital depois de umas horas.
– E agora, o que foi feito de Oscar? – eu perguntava, cada vez mais ansioso.
– Eu já disse pra você se acalmar, Fausto. Ele já está de volta ao hospital, o Plínio fez questão de ficar por lá de corpo presente, não só em projeção.
– E o que será que aconteceu enquanto eles estiveram fora? – perguntei.
– Calma, Fausto, pela quarta vez! Provavelmente nada demais. Mas se você quiser, podemos ir até onde eles estão amanhã pela manhã, acho que o Plínio gostaria de falar com você.

Eu considerei a proposta por alguns segundos.

– Tudo bem, iremos amanhã até onde estão Plínio, Oscar e Glória. E quanto a Lúcio, o que aconteceu com ele?
– O Lúcio aparece de vez em quando no hospital, mas ele já voltou para suas atividades normais. Como eu disse, nada de muito grave aconteceu.
– Eu suponho que não – eu disse, mais tentando tranquilizar a mim mesmo do que Margarida – e quanto a Basílio?
– Ah, o menino engraçado. De onde ele veio, Fausto? – o tom de voz de Margarida mudara completamente, ela passara a falar mais baixo, como se confidenciasse algo.
– Não respondeste minha pergunta, Margarida. Mas responderei a tua: Basílio é um antigo guarda real, que colocou-se à minha disposição desde que ajudei a ele e a Bernardo.
– Bernardo? – Margarida interrompeu-me – Quer dizer que tem mais um como ele?

Elisa, até então quieta, deixou escapar uma risada. Eu percebi que não saberia o que fora feito de Basílio até me encontrar com o próprio, então ignorei a pergunta e contei-lhe sobre Basílio e Bernardo. A conversa voltou a fluir normalmente, depois que decidimos ir até onde estavam Oscar, Plínio e Glória no dia seguinte. Eu não esperava, mas dormira uma noite extremamente tranquila.

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