LXIII – Do relato de Basílio.

by F. Pergher

Capítulos I-LX
LXI – Do retorno à cidade.
LXII – Do reencontro com Margarida.

Partimos cedo pela manhã para o hospital onde Oscar, segundo haviam me dito, ainda estava internado. Lá também eu encontraria Glória, Plínio e Basílio, que estavam encarregados de garantir que Oscar não sairia de lá novamente. Caminhávamos pela rua, eu, Margarida e Elisa, ainda conversando casualidades como na noite anterior.

O caminho que eu fizera por várias vezes anteriormente: de minha casa até o centro da cidade, agora parecia extremamente distante e estranho para mim. Como se a última vez em que eu houvesse andado por ele tivesse acontecido há muitos anos. Não dei muita atenção para esse fato, mas surpreendia-me com os cruzamentos entre as ruas e as placas de lojas que se impunham à minha frente.

Após aquela caminhada que estranhamente não me era familiar, chegamos ao hospital. Na recepção, identifiquei-me como professor de Oscar, como havia sido da última vez, e consegui facilmente entrar no quarto dele. Porém, sendo que já havia alguém lá dentro, apenas eu pude entrar: Elisa e Margarida me esperariam na recepção, e não pareciam nem um pouco afetadas por isso.

Entrando lá, encontrei-me com Basílio sentado, com uma expressão absolutamente neutra, ao lado de Oscar. Este, permanecia deitado inconsciente, e embora uma de suas pernas estivesse engessada e imobilizada e alguns curativos insinuassem escoriações em seus braços e seu pescoço, seu semblante encontrava-se tranquilo, muito mais do que da última vez que o vira.

Ao perceber que eu entrava pela porta, Basílio ergueu-se e cumprimentou-me com uma reverência, como estava acostumado. Ele havia trocado toda sua resplandecente armadura por um capote negro, que reconheci como sendo um dos que eu usava com menos frequência.

– Bom dia, Basílio – falei – como tem passado?
– As coisas estão em uma imperturbável calmaria – ele falou – o sujeito não tem dado sinal de vida desde ontem à noite.
– E antes disso, o que aconteceu? – perguntei-lhe, apreensivo.
– Pois bem, ele decidiu que seria uma excelente ideia fugir da tutela do hospital – ele respondeu – mas conseguimos capturá-lo.
– E onde estavam Plínio e Glória? Não conseguiram interceptá-lo?
– Acalme-se, Fausto. Eu pretendo contar-te tudo, mas antes diga-me o que foi feito de Bernardo e como acabou-se sua luta.

Haviam duas poltronas no pequeno quarto de hospital onde Oscar repousava. Basílio estava em frente a uma delas, portanto sentei-me à outra, posicionada paralelamente à primeira. Prossegui a contar-lhe, tão minuciosamente quanto lembrava, o que se passara no cemitério. Contei-lhe sobre Bernardo, omitindo detalhes sobre como fora morto de forma covarde, contei-lhe sobre a Reverenda e a suspeita de Elisa de que na verdade fosse também ela uma das Catarianas.

Basílio mostrou-se pouco abatido sobre a morte do amigo. Depois de algum tempo comigo, acredito que ele já conseguia entender que a morte, para si mesmo e para Bernardo, era uma mera questão de tempo. Ele prosseguiu, depois de sanar toda a sua curiosidade sobre pormenores da luta, ele prosseguiu a contar-me sua história, que tomo a liberdade de narrar conforme meu entendimento dela.

Pois bem, depois de Basílio e Glória terem deixado o cemitério, guiados pela projeção astral de Plínio, tomaram imediatamente o rumo da cidade. No caminho, porém, confrontaram-se com alguns dos servos de Caim e Abel, principalmente do segundo, que haviam sido colocados em pontos estratégicos: encruzilhadas e áreas de difícil fuga. Com um pouco de dificuldade, chegaram até a cidade. Antes que entrassem nela, Plínio, que os observava, disse que esperassem.

Receosos de terem caído em uma armadilha, os dois esperaram na noite por um pouco de tempo, sem a presença da projeção astral de Plínio. Foi posto um fim em sua espera quando o próprio Plínio e Margarida apareceram no lugar onde estavam os dois, deixando Oscar sozinho por motivos que desconheço.

Imediatamente, Glória e Basílio foram levados até minha casa, onde eles foram limpos e algumas roupas novas providenciadas. A pedido de Plínio, também alimentaram-se e descansaram. Desde o amanhecer, pelo resto daquele dia, os quatro permaneceram em minha casa. Plínio fechara-se no quarto onde estivera antes hospedado o Errante, Glória passara boa parte do tempo no sofá, entediada e Margarida tornou a, acompanhada por Basílio, organizá-la, como sempre havia sido seu hábito.

O dia teria sido calmo, não tivesse sido pelo súbito estado de alerta em que Plínio estava, pouco antes do final da tarde. Disparou escada abaixo, logo Plínio, que procurava manter suas emoções sob controle o máximo possível. Perguntados sobre o que havia acontecido, ele mandou que Glória e Basílio saíssem com ele, dizendo para que Margarida cuidasse da casa, fato que, conhecendo minha discípula, provavelmente deixara-a irritada.

Os três foram até o hospital, onde deixaram Basílio, ordenando-o que fosse até o quarto onde Oscar estaria hospedado, e aguardasse-o por lá. Basílio disse que esforçou-se para manter-se o mais alerta possível, e acreditava não ter dormido em nenhum ponto daquela noite – que era a noite em que eu e Elisa havíamos voltado ao assentamento dos Catarianos.

Na manhã seguinte, Oscar havia sido levado de volta ao hospital, extremamente machucado, porém ainda consciente, e com uma expressão serena. Glória e Plínio também não pareciam em nada descansados, provavelmente por terem perseguido Oscar avidamente. Então, Plínio e Glória tinham supostamente voltado para o acampamento Catariano, pois mandaram Basílio avisar-me de que estariam na companhia de Lúcio.

Demorei um pouco para digerir as informações, após ouvir atentamente o relato de Basílio. Apenas voltamos a conversar porque ele mesmo quebrou o silêncio.

– Senhor – ele disse, em tom solene – acredito que minha função por aqui já esteja cumprida. Acredito que já possa voltar ao outro plano.
– Basílio – eu disse, saído de meus pensamentos – deves, com certeza, mas primeiro quero certificar-me de que tua ausência aqui não nos fará falta.
– Deixe ele ir, Fausto. – disse uma voz familiar, vinda de um dos cantos da sala. Virei meu rosto imediatamente para tal canto, e pude ver a familiar projeção astral de Plínio. – O garoto Oscar não irá mais tentar fugir.
– E como tens tanta certeza, Plínio? – perguntei, contendo minhas perguntas.
– Pretendo contar-te mais tarde. Por hora, deixe que Basílio volte para o lugar onde ele deve ficar – afinal, essa é a ordem natural das coisas – e siga para o assentamento dos Catarianos. Todos estamos lá.

Concordei com Plínio, e, seguindo suas instruções, exilei a alma de Basílio de volta para um dos planos superiores. Pude perceber que Plínio apossou-se do corpo antes por ele ocupado, para que ninguém no hospital achasse estranha uma morte súbita, e assim que o vi, saí do quarto, encontrando Margarida e Elisa na recepção.

Contei a elas do que havia acontecido a Plínio e a Basílio, e pude ver um pequeno lampejo de descontentamento no rosto de Margarida. Sem muito esperarmos, almoçamos modestamente em um restaurante que havia aí por perto, e seguimos em direção ao lugar onde, segundo Plínio, estávamos sendo aguardados.

 

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