LXIV – Do relato de Glória.

by F. Pergher

Capítulos I-LX
LXI – Do retorno à cidade.
LXII – Do reencontro com Margarida.
LXIII – Do relato de Basílio.

Chegamos ao acampamento dos Catarianos quase ao final daquela mesma tarde. Como já era de se esperar, nenhum tipo de imprevisto ocorreu durante nossa ida até o lugar. Eu fazia mais uma vez – a terceira em questão de dois dias – aquele caminho, porém dessa vez, sentia-me muito mais tranquilo do que sentira-me nas outras duas. O fato de estar caminhando em direção às respostas que tanto buscava antes acalmava meus nervos, e fazia-me capaz de não pensar exclusivamente na situação.

Logo que começamos a enxergar as cabanas, vi também uma familiar figura nos limites do acampamento, parecendo entediada enquanto acendia uma fogueira. Elisa, que também a avistara, correu em sua direção.

– Glória! – ela gritava, empolgada.

Ao perceber sua aproximação, Glória também largou a lenha que segurava na mão e ergueu-se, como se para vê-la melhor. Era clara a diferença entre o espírito das duas, e apesar de Glória não ter retribuído com a mesma empolgação o longo abraço de Elisa, podia-se adivinhar que ela também estava muito feliz por ver a amiga. Elisa só largou a outra quando nos aproximamos das duas, eu e Margarida.

– É bom ver vocês novamente – disse Glória, na voz robótica que costumava usar quando falava qualquer cois além do necessário. – Acho que o Pastoreio gostaria de vê-los.

Encaminhei-me, junto com Elisa e Margarida, na direção do acampamento, até ser interrompido por Glória.

– Você não, Fausto. Tem algo que você precisa saber, e eu fiquei encarregada de te contar.

Aproximei-me dela, que a esse ponto já havia terminado de acender sua fogueira, pois a noite já se aproximava, e sentei-me de frente ao fogo. Glória sentou-se do lado oposto da fogueira, e logo começou a me contar sua história.

Ela contou-me que assim que ela e Plínio estiveram a sós, depois de deixar Basílio no hospital, ele elucidou toda a situação a Glória. Disse a ela que mantinha sua vigilância em Oscar o mais oculta possível, pois sabia que ele novamente tentaria fugir. Plínio, inteligente como toda a nobreza costumava ser, acreditava que Oscar dar-lhes-ia alguma pista, onde quer que estivesse indo.

Meu velho amigo Plínio tirou a sorte maior: após a segunda fuga de Oscar, ele e Glória buscaram segui-lo o mais ocultos possível. Não sabiam se haviam sido eficazes, mas o que importava era que Oscar havia levado-os até um lugar remoto da cidade. Agora, os dois viam-se em uma ruela periférica da cidade, onde o esgoto era conduzido a céu aberto e a paisagem era composta por casas e prédios caindo aos pedaços.

Oscar entrou em um dos pequenos prédios, e Plínio projetou-se, seguindo-o. Lá dentro, ele pode avistar o que mais tarde descreveria a Glória como a última visão que esperava ter: Ao invés de uma Raquel altiva, lúcida e sã, como ele esperava que fosse, o que viu foi uma idosa em tais condições que era impossível imaginar que em algum ponto de sua vida tivesse mantido-se em pé. Pôde ouvir um diálogo entre ela e Oscar, em que Oscar dizia a ela que não queria mais saber de servi-la, porque ela havia sido-lhe infiel.

A idosa, Raquel, por sua vez respondeu-lhe que o único infiel estava sendo ele, e que ele não podia simplesmente abandoná-la, ao que Oscar respondeu simplesmente dando-lhe as costas. Raquel mudou sua postura e passou a implorá-lo, praticamente arrastando-se a seus pés, dizendo que já havia sido morta sua Reverenda, e que ele era o único capaz de salvar a vida dela.

Surpreendentemente, tudo que suas súplicas renderam-lhe foi o desdém de Oscar, que disse-lhe que, se ela tivesse valorizado sua palavra desde o início, talvez tivesse servos mais dispostos a entregar sua vida a ela. Depois disso, ele simplesmente saiu pela porta, deixando uma irada Raquel na porta. Tão logo ele deixou o prédio e caminhava em direção ao portão externo dele, onde estavam Plínio e Glória, foi covardemente atacado pelas costas.

Raquel pareceu, através de uma massa disforme de energia escura, sugar entropia suficiente para manter-se em pé – como ela pretendia que Oscar e sua Reverenda fizessem por ela. Não sem antes tombar ao chão e debater-se inutilmente por alguns minutos, Oscar foi salvo por Glória e Plínio. Ao ver-se confrontada, Raquel voltou para dentro do velho edifício, tão rápido quanto seu fraco corpo lhe permitia, sendo, obviamente, perseguida pela eficiente Glória.

Plínio acompanhou-a em forma de projeção, enquanto recolhia Oscar do chão. Não estava gravemente ferido, apenas queixava-se de dor em uma das pernas e possuía escoriações por todo o corpo, mas em contrapartida havia redimido-se totalmente com Plínio, que achou-o digno de cuidados. Glória, após alcançar Raquel na entrada de seu pequeno apartamento que cheirava a mofo, atacou-a, sentindo-se covarde. Afinal, seu estado estava tão deplorável que Glória nem mesmo precisou concentrar sua energia para derrubá-la ao chão.

Sem dizer uma palavra e sentindo qualquer coisa que não fosse vontade de lutar, Glória trouxe à tona a aura de uma das entidades superiores dos Catarianos: um antigo xamã. Através dele, sob juras de vingança, conseguiu expurgar a alma de Raquel para o grande plano inferior, e seu corpo desfez-se em um amontoado de cinzas e ossos tão logo foi-lhe retirada a alma. Depois disso, Plínio e Glória levaram Oscar de volta ao hospital e então rumaram de volta para o acampamento dos Catarianos, onde estavam até o momento.

Meu alívio ao saber de tal história havia sido tanto que por alguns segundos, não consegui tomar forças para levantar-me. Ao fim da história de Glória, a fogueira já estava quase extinguindo-se, e a noite já levantava-se, estrelada e cada vez mais fria. Recompus-me depois de algum tempo, levantei do chão, e rumamos, eu e Glória, para o lugar onde encontrava-se o resto de seu povo.

Raquel, afinal, provara ser apenas restos de algo que um dia já fora. Experiente como era, eu sabia que ela estava usando uma técnica inferior para manter-se viva, que consistia em absorver energia de corpos e usá-la para rejuvenescer-se. Seu maior braço de luta, sua Reverenda, a misteriosa mulher do vestido verde oliva, havia deixado de existir, e com isso, todo o peso de sua idade verdadeira caíra sobre seus ombros.

 

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