LXV – Da partida dos Catarianos.

by F. Pergher

Capítulos I-LX
LXI – Do retorno à cidade.
LXII – Do reencontro com Margarida.
LXIII – Do relato de Basílio.
LXIV – Do relato de Glória.

Voltamos até o centro do acampamento dos Catarianos, e lá, deparei-me com uma paisagem aterradora, se comparada ao que presenciara antes: Não havia mais sequer uma cabana em pé. Todas haviam sido desmontadas, e a madeira utilizada em sua construção estava perfeitamente empilhada, próxima ao rochedo que havia lá perto.
Tão logo viu que eu e Glória nos aproximávamos dos restos de brasa ao redor dos quais estavam reunidos, além de Plínio e Margarida, Elisa, Pânfilo, Emília, Lúcio e o Pastoreio, o último aproximou-se de mim e saudou-me cordialmente. Logo em seguida, do jeito que a ele era típico: não assumindo muitas formalidades, o Pastoreio começou a falar.
– Caro Fausto, infelizmente não tenho um modo de agradecer a você imediatamente pelo que fez por meu povo.
– Ora – eu disse – nada mais fiz do que o que normalmente haveria feito em uma situação dessas.
– De qualquer jeito, sua contribuição foi grandiosa. Mas nosso serviço aqui está terminado, portanto estamos voltando à nossa terra.
– Tão cedo? – perguntei, não muito surpreso por já ter notado que seus assentamentos haviam já sido inutilizados.
– Sim, Fausto. Temos que voltar para nosso lugar, mas acredito que nos encontraremos de novo, assim que você fizer questão.
– O que queres dizer?
– Habitamos um pequeno vilarejo, em outro continente. Como agradecimento por ter auxiliado Elisa, você pode entrar lá quando quiser.
– E como encontrarei vocês? – perguntei.
– Ora – disse Lúcio – eu continuarei aqui na cidade, mantendo o grande arquivo. Pode falar comigo sempre que quiser entrar em contato com meu povo.
– E entraremos em contato com certeza – disse Margarida, com um sorriso.
Procederam, então, os simpáticos Catarianos, a abraçar-nos como forma de despedida. Depois de todos eles, Plínio também tornou a despedir-se de mim.
– E tu, Plínio? Vais partir também?
– Partirei junto com os Catarianos. Meu lugar não é aqui, caro Fausto. Mas você sabe como me encontrar também – eu não tinha certeza se sabia.
O Pastoreio, Pânfilo, Emília e Plínio começaram a andar, em ritmo lento, ainda assim constante. Elisa e Glória ficaram para trás.
– Espero que lutemos juntos de novo – disse Glória, parecendo, pela primeira vez, não falar mecanicamente. – Ainda tenho muito a aprender.
– Isso é um elogio – falei, feliz com a cordialidade de Glória – vindo de quem caçou Raquel sozinha.
– Não teria sido possível sem a ajuda de vocês – o lapso de sua humanidade havia desaparecido, tão subitamente quanto aparecera.
– Por falar nisso – começou Elisa – realmente não teríamos conseguido caçar a Reverenda se não fosse por sua ajuda.
Pude ver que ela ainda sentia algo que parecia algum tom de remorso ou piedade ao mencionar a Reverenda.
– Vocês fizeram um trabalho ótimo, mesmo sozinhas – eu respondi.
– E tenho certeza que teriam conseguido fazer mais do que isso, com ou sem o Fausto – Margarida falou, tentando ser amigável.
– Isso veremos com o tempo – respondeu Elisa, também com seu amigável sorriso – Mas agora temos que ir.
Elisa e Glória abraçaram novamente a mim e Margarida, e logo em seguida caminharam na mesma direção para onde seu grupo havia ido antes. Observamos em silêncio até que se tornassem pouco mais do que silhuetas à distância, e então Lúcio chamou-nos para que voltássemos à cidade. Já passava da meia noite quando começamos a andar.
E pela maioria do caminho de volta até a entrada da cidade, Lúcio manteve-se calado. Eu e Margarida trocávamos eventuais observações, todas sem resposta por parte dele. No fim das contas, eu me sentia extremamente aliviado, sabendo que, pelo menos por enquanto, não teria minha vida ameaçada. Ainda pensava muito, porém, sobre os Catarianos e sua conturbada história, e de certa forma ansiava por conhecê-los, saber sobre o lugar onde viviam, como haviam chegado até lá, suas origens mais profundas. Tudo no povo Catariano, basicamente, encantava-me.
E parecendo entender meu pensamento, tão logo chegamos à entrada da cidade, Lúcio tornou a falar, em um tom sério, talvez mais do que eu esperaria naquele momento.
– Fausto, não posso deixar de alegrar-me com sua recente vitória, mas não esqueça que Raquel era apenas mais um nome de nossa extensa lista – ele fez uma pequena pausa, e em seguida sorriu – Acredito que nos veremos em breve.
– Espero que sim, Lúcio. Também sua ajuda foi imprescindível – falei, afinal, nada daquilo teria começado se não fosse por ele.
Tomamos rumos distintos. Lúcio voltaria, eu imaginava, a seus arquivos, já que a noite estava já passada de sua metade. Eu e Margarida rumamos à minha casa, que ficava na direção oposta em que Lúcio fora. No caminho, conversamos, pela primeira vez calmamente, sobre sua experiência fora do continente. Não havia tido sucesso em reencontrar a família e amigos que deixara para trás, e resolveu que passaria, independentemente de ser ou não junto comigo, mais algum tempo naquela pequena e confortável cidade.
Obviamente, aceitei que Margarida passasse algum tempo em minha casa, como já havia sido por vários meses. Ela seria, de uma forma ou outra, uma companhia a meu velho e amargo coração, e eu não recusaria nenhum companheiro, em momento algum. Ter alguém como Margarida a meu lado era mais do que eu poderia esperar.
Enfim, chegava à porta da minha casa. Embora não fizesse muito tempo que de lá saíra, sentia-me outra pessoa. Não estava mais apreensivo, talvez estivesse até mesmo feliz, e se não isso, satisfeito. Conforme aproximava-me da porta, começava a distinguir suas formas: nove gatos aguardavam-me em frente à porta, sentados, observando-me como gárgulas gravitadas. Três deles eram pretos, dois brancos, outros três possuíam tons de laranja. Mas apenas um era completamente cinzento.
Passei entre os gatos para entrar em minha casa, e tão logo entrei, abasteci seu pote de comida. Afinal, já estavam há alguns dias sem comerem da ração que eu lhes dava regularmente. Depois de alimentá-los, decidi que não faria nada pelo resto do dia, nada além de um merecido descanso.
E quase no final de meu dia, quando pensei que nada além de uma pacata noite aguardava-me, ouvi minha campainha tocar. Imaginei que talvez Lúcio prestasse-me uma visita, mas quando abri a porta, sob o olhar curioso de Margarida, vi ninguém menos do que Oscar. Andava com a ajuda de muletas e portava uma mochila que parecia pesada demais para quem possuía uma perna quebrada. Mesmo assim, mantinha sua aparência estranha e deslocada.
Encarei-o por alguns segundos com o que imagino que seja a pior carranca que conseguiria fazer, e quando sua expressão converteu-se em uma cara assustada, dei por mim. No fundo, eu não guardava nenhum ressentimento sobre Oscar. Ele havia sido manipulado, não mais que a pobre Reverenda. Minha fisionomia provavelmente tornou-se mais amena, porque depois de um curto pigarro, ele tornou a falar.
– Boa noite, senhor Fausto, digo, Fáris. Podemos conversar por alguns minutos?

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