Projeto sem título (1)

by F. Pergher

Mesmo após uma longa queda livre, parece ser impossível atingir a paisagem abaixo. Entre alcançá-la ou não, porém, existe uma ínfima diferença. Porque a grande planície, já avermelhada pela luz crepuscular, parece fundir-se ao decadente céu diurno. Parte pelo solo de terra rubra e parte pela luz que o vela, tudo abaixo amalgama-se em um grande poço de chamas.

Aos olhos mais atentos, surgem algumas árvores em pleno outono com suas folhas cor de ouro. Não saltam aos olhos em primeiro lugar. Antes ficam lá, humildemente postas, esperando ser descobertas pelos observadores que tomam seu tempo para contemplá-las. Também pouco visíveis são os pequenos charcos, ainda aguados demonstrando que há pouco tempo houve uma chuvarada. Refletem em si toda a vermelhidão do céu, e assim compõem esconderijos perfeitos para todo o tipo de vida aquática que consiga viver sem mover a água.

Ele não se lembra de como chegou até ela. Não se lembra das dunas, da sede, da intransponível imensidão monocrômica. De repente o aconchegante carmenesim da vasta e úmida planície inunda seus sentidos. Como um viajante que acabava de descer de seu camelo – embora o último de seus camelos o tenha abandonado há mais tempo do que conseguiria recordar-se – ele pôs-se a correr.

Correria ao horizonte, se soubesse da existência de um. Tal como alguém que observa de longe aproximava-se, perdendo detalhes periféricos. Concentrava-se apenas no vento que tocava sua face, na cor de fogo que inundava sua visão como o breu inunda olhos que repousam fechados. O frescor da meia estação, após uma estoica e infindável onda de calor, finalmente trazia a si uma experiência sensorial agradável. Pela primeira vez, julgava que sentia.

Sentia o mundo ao seu redor, afinal. Sentia o horizonte fazendo a si mesmo à distância, sentia o céu se juntando à terra sem sequer um horizonte. Se pudesse descrever o vento, descreveria como vermelho, assim como era o gosto da água empoçada da qual ele finalmente provava. Vermelho como o cheiro da essência das folhas secas que incensava naturalmente todo o ambiente, vermelho assim como o som morno das folhas quebrando-se a cada um de seus passos. Vermelho como toda aquela paisagem, e dentro de uma grande ânfora rubra, uma linha de fuga começava a formar-se.

Advertisements