Projeto sem título (2)

by F. Pergher

No alto da cadeia de montanhas, pouco se percebe do anoitecer. Testemunha o sol, ainda deixando resquícios de vermelho no véu celestial, completando sua descida e dando espaço para a tintura negra da noite, pontilhada por botões e miçangas astronômicas. Não inspira-lhe uma cor como as planícies antes inspiravam, o frescor da grande altitude. Ao invés disso, pensa apenas em seu repouso.

Tão pouco quanto lembrava do que procedera à planície lembra-se do que vinha antes da cadeia montanhosa. Em sua mente, havia passado a vida toda sobre as ásperas rochas, contemplando o céu cada vez mais pontilhado; apreciando os constantes sons de aves de rapina, pequenas pedras rolando, e principalmente de sua delicada respiração ressoante em seu crânio. Respirava contra as correntes de ar que cantavam suas agudas sinfonias enquanto presas em meio aos picos rochosos.

E dessa forma, em seu estado quase meditativo, ele mal percebe quando as estrelas ganham mais destaque ao céu montanhês, sem nenhum tipo de poluição visual. Não percebe a grande faixa galáctica que corta o céu, as milhões de estrelas, de onde é possível que esteja sendo também ele contemplado. Ao percebê-las, esquece do canto dos picos e das aves de rapina, e concentra-se apenas na magnitude do céu cintilante.

Sua mente novamente vaga. Nem se tentasse muito agora conseguiria lembrar o que se passara antes de chegar até ali. É inverno, o dia demora a clarear, e quando finalmente raia, já quase adormeceu. E em estado de sono mal enxerga o topo das montanhas iluminando-se, as aves de rapina recolhendo-se, o vento cantante que agora cessa, e a luz que ofusca-lhe as estrelas.

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