Projeto sem título (3)

by F. Pergher

Sob um resquício de bruma, descera a montanha sem lembrar-se. Talvez nem mesmo a tivesse descido. O fato é que agora encontrava-se abaixo dela, deixara as últimas lufadas da noite atrás de si e já não a via atrás das montanhas. Sentia a umidade pesar-lhe nos ombros, como um suave cansaço. Desses confortável de sentir.

A alvorada, mesmo sem sol, reservou-lhe um belo espetáculo. Andara mais um pouco por um terreno de relevo mais ou menos regular, com algumas poucas árvores já ressecadas pelo início do inverno. De onde estava, pela primeira vez desde que lembrava-se, podia contemplar o céu diurno em sua quase integridade.

Sua memória pouco lhe valia. Ao ver as nuvens que esbranquiçavam a grande epiderme azul do céu, parou surpreso. Os escuros galhos ressecados tornavam as grandes formações de névoa ainda mais brancas, e o silêncio parecia pleno. Além da fina bruma que se projetava sobre ele e do cheiro da terra sendo umedecida que lentamente atiçava seu olfato, nada parecia despertar-lhe o menor interesse.

Seu êxtase solitário tomara completamente o espaço da planície, da montanha. Agora, observava tranquilamente o volume das nuvens acima do horizonte. As montanhas pareciam-lhe pouco além de pequenas saliências. Seus ângulos rudes e precisos não lhe traziam o mesmo conforto das lânguidas curvas e esferas imperfeitas que via acima de si.

E abaixo das nuvens, ainda no horizonte, parecia ter algo que o instigava ainda mais. O pouco azul que restava do céu em meio ao branco das nuvens parecia condensar-se em profundos tons esverdeados, que de certo ângulo completavam os troncos e galhos secos com a vida que lhes faltava. Mas tudo isso podia esperar, que aguardassem pacientemente pelo menos até seu suave torpor dissipar-se como uma nuvem após tempestade.

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