Projeto sem título (4)

by F. Pergher

Tão logo passara a tormenta, da qual nem procurou refugiar-se, retomou sua marcha solitária. Uma marcha que compassava exatamente com a perda das memórias anteriores, numa jornada de constante olvido. Sem saber, limpava constantemente sua própria mente, como um lavrador que ara os restos ressecados da terra após a colheita para naquele mesmo lugar deixar brotar o frescor da nova cultura.

E verdes como a nova colheita pareciam nascer, em um lapso temporal superacelerado, os resquícios de um bosque à sua frente. Assim que os troncos cinza sobre um chão irrelevante davam lugar a uma fina cobertura de relva, assim que os galhos secos agora eram pequenos arbustos de um verde vivaz, sentiu-se compelido a andar ainda mais, e ao mesmo tempo pensou em parar. Apreciar.

Em dúvida, continuava caminhando. Antes de dar-se por conta, já fora engolido pela floresta que vira aflorar. Engolido, submergindo totalmente nas entranhas daquele emaranhado de teias, folhas e pequenos frutos. Explorando seus brônquios até que mais nenhum canto restasse. Sem que suas grandes coníferas recobertas por delicadas vinhas; sem que suas delicadas gramíneas não menos dignas de atenção; sem que os sons do vento, não de um vento meramente atmosférico, mas de um vento vivo por sua própria conta; não tivessem sido contempladas por seu olhar atento.

Finalmente parou, diante de uma clareira. Não sentia-se capaz de sintetizar os raios do sol, já no limiar entre escaldante e confortante. Contentava-se com a brisa que vinha das árvores, com o aroma das cortiças renovando-se, com a explosão de tons esverdeados, tons do alegre renascimento e da vívida juventude que irradiavam daquela floresta.

Depois de finalmente aquietar-se, permitiu-se pisar na clareira. No meio dela, uma única árvore, de folhas perfumadíssimas. Oferecia-lhe um lugar à sombra. Deitou-se, sobre o orvalho que congelava-lhe os poros. Sentindo a floresta sob sua pele, ouvindo seus sons, provando de seus aromas e sabores e deliciando-se com suas cores, adormeceu.

Advertisements