O Antro da Pretensiosidade

ou: mais um desses pseudo-escritores medíocres.

Pequeno semanário irregular

Olá, estimadíssimos leitores. Como eu havia mencionado no post anterior, estou postando uma vez a cada duas sextas feiras aqui, e nos intervalos, lá na Grande Gruta. O texto da semana passada está aqui, e como meu primeiro artigo na plataforma, acho que foi um sucesso.

Acredito ter mencionado isso também, mas os textos de lá possuem um teor bem diferente dos textos daqui (embora a tendência é que essa diferença vá ficando cada vez menos aparente). Vou procurar escrever e postar coisas bem menos… narrativas na Grande Gruta. Ainda nesse assunto, acho que vou ampliar minha frequência de postagem para três textos quinzenais, ao invés de dois. Ou seja, um dos meus dois espaços terá posts contínuos, só ainda não decidi qual.

Hoje, como havia prometido, trago conteúdo novo. É a primeira parte de uma série de alguns pequenos textos, um exercício de descrição e ambientação, que comecei em dezembro do ano passado. Acabei broxando na metade, tive um certo problema com frequência e assiduidade, e nunca mais retomei. A ideia é que sejam doze pequenos textos, já tenho seis deles prontos, e pretendo ver se tomo vergonha na cara e escrevo os outros seis.

Enquanto isso, projetos maiores virão. 30 de abril é o prazo final para um edital em que inscreverei um dos meus textos ainda não publicados. Se esse texto não for selecionado vou ligar aquele botãozinho vermelho no fundo de meu coração, o foda-se, e colocar ele na íntegra aqui. De qualquer jeito, na pior das hipóteses vocês ganham um texto novo e na melhor, eu dou mais alguns passos na direção de meu objetivo de vida (obviamente, ficar rico e famoso).

No fim, estamos já no segundo trimestre do ano de 2015, que (lá vem um grande clichê) está passando absurdamente rápido até então. E espero que esteja sendo tão prolífico para vocês quanto está sendo para mim. Até nosso eventual reencontro, caros leitores, e continuem acompanhando o(s) blog(s)!

Novidades, como prometido.

Olá, possíveis e eventuais leitores. O texto dessa semana traz boas novas. Embora não sejam elas (ou pelo menos não diretamente) conteúdos novos, acredito que sejam coisas interessantes a compartilhar.

A primeira, e talvez mais relevante. Agora eu oficialmente faço parte da Obvious Magazine. Minha página por lá é essa aqui, e apesar de estar vazia, logo ela será povoada. Como alguns devem saber, a maioria das postagens desse site são sobre cultura em geral. Isso significa que me aventurarei a escrever não ficção. Em uma nota de rodapé, significa também que minha jornada em direção à fama e à fortuna está alguns passos mais curta, mas não vem ao caso. “Um pequeno passo para um homem, um grande passo para o ego desse homem.”

Ainda não sei como funcionará minha rotina de postagem, mas pretendo no mínimo intercalar semanalmente os posts, postando aqui a cada duas semanas, e nas semanas de “intervalo”, postar algo por lá. Posso aumentar essa frequência dependendo da receptividade, mas não a diminuirei. Até porque só um texto por semana é razoável até demais para meu gosto.

Outra novidade interessante é que o Escrito V (ou “aquele texto comprido e cansativo que tive preguiça de ler até o final”) está completo, e pode ser acessado nas Histórias Finalizadas. Não foi revisado, e talvez seja ridiculamente grande para ser postado aqui. Já tenho a impressão de ter falado o porque dele ser importante para mim: apesar das inconsistências, foi o primeiro “projeto” que terminei exatamente no tempo previsto. Foram duas mil palavras por dia, escritas durante um mês de férias. Tenho algum carinho por ele, então a quem interessar possa, está publicado até o final.

Pretendo tirar o atraso desse tempo todo sem publicar conteúdo, porque bom, esse ano tem tudo para ser um período extremamente prolífico na minha vida. E se toda essa prolificidade não for desperdiçada dormindo ou assistindo paródias de desenhos japoneses na internet, vocês terão a oportunidade de ler bastante textos.

Por essa semana, é isso. Não deixem de ler meus textos, aqui e na Grande Gruta também. Se cuidem e até a próxima semana. Ou a que vier depois da próxima. Ou a segunda depois da próxima.

LXV – Da partida dos Catarianos.

Capítulos I-LX
LXI – Do retorno à cidade.
LXII – Do reencontro com Margarida.
LXIII – Do relato de Basílio.
LXIV – Do relato de Glória.

Voltamos até o centro do acampamento dos Catarianos, e lá, deparei-me com uma paisagem aterradora, se comparada ao que presenciara antes: Não havia mais sequer uma cabana em pé. Todas haviam sido desmontadas, e a madeira utilizada em sua construção estava perfeitamente empilhada, próxima ao rochedo que havia lá perto.
Tão logo viu que eu e Glória nos aproximávamos dos restos de brasa ao redor dos quais estavam reunidos, além de Plínio e Margarida, Elisa, Pânfilo, Emília, Lúcio e o Pastoreio, o último aproximou-se de mim e saudou-me cordialmente. Logo em seguida, do jeito que a ele era típico: não assumindo muitas formalidades, o Pastoreio começou a falar.
– Caro Fausto, infelizmente não tenho um modo de agradecer a você imediatamente pelo que fez por meu povo.
– Ora – eu disse – nada mais fiz do que o que normalmente haveria feito em uma situação dessas.
– De qualquer jeito, sua contribuição foi grandiosa. Mas nosso serviço aqui está terminado, portanto estamos voltando à nossa terra.
– Tão cedo? – perguntei, não muito surpreso por já ter notado que seus assentamentos haviam já sido inutilizados.
– Sim, Fausto. Temos que voltar para nosso lugar, mas acredito que nos encontraremos de novo, assim que você fizer questão.
– O que queres dizer?
– Habitamos um pequeno vilarejo, em outro continente. Como agradecimento por ter auxiliado Elisa, você pode entrar lá quando quiser.
– E como encontrarei vocês? – perguntei.
– Ora – disse Lúcio – eu continuarei aqui na cidade, mantendo o grande arquivo. Pode falar comigo sempre que quiser entrar em contato com meu povo.
– E entraremos em contato com certeza – disse Margarida, com um sorriso.
Procederam, então, os simpáticos Catarianos, a abraçar-nos como forma de despedida. Depois de todos eles, Plínio também tornou a despedir-se de mim.
– E tu, Plínio? Vais partir também?
– Partirei junto com os Catarianos. Meu lugar não é aqui, caro Fausto. Mas você sabe como me encontrar também – eu não tinha certeza se sabia.
O Pastoreio, Pânfilo, Emília e Plínio começaram a andar, em ritmo lento, ainda assim constante. Elisa e Glória ficaram para trás.
– Espero que lutemos juntos de novo – disse Glória, parecendo, pela primeira vez, não falar mecanicamente. – Ainda tenho muito a aprender.
– Isso é um elogio – falei, feliz com a cordialidade de Glória – vindo de quem caçou Raquel sozinha.
– Não teria sido possível sem a ajuda de vocês – o lapso de sua humanidade havia desaparecido, tão subitamente quanto aparecera.
– Por falar nisso – começou Elisa – realmente não teríamos conseguido caçar a Reverenda se não fosse por sua ajuda.
Pude ver que ela ainda sentia algo que parecia algum tom de remorso ou piedade ao mencionar a Reverenda.
– Vocês fizeram um trabalho ótimo, mesmo sozinhas – eu respondi.
– E tenho certeza que teriam conseguido fazer mais do que isso, com ou sem o Fausto – Margarida falou, tentando ser amigável.
– Isso veremos com o tempo – respondeu Elisa, também com seu amigável sorriso – Mas agora temos que ir.
Elisa e Glória abraçaram novamente a mim e Margarida, e logo em seguida caminharam na mesma direção para onde seu grupo havia ido antes. Observamos em silêncio até que se tornassem pouco mais do que silhuetas à distância, e então Lúcio chamou-nos para que voltássemos à cidade. Já passava da meia noite quando começamos a andar.
E pela maioria do caminho de volta até a entrada da cidade, Lúcio manteve-se calado. Eu e Margarida trocávamos eventuais observações, todas sem resposta por parte dele. No fim das contas, eu me sentia extremamente aliviado, sabendo que, pelo menos por enquanto, não teria minha vida ameaçada. Ainda pensava muito, porém, sobre os Catarianos e sua conturbada história, e de certa forma ansiava por conhecê-los, saber sobre o lugar onde viviam, como haviam chegado até lá, suas origens mais profundas. Tudo no povo Catariano, basicamente, encantava-me.
E parecendo entender meu pensamento, tão logo chegamos à entrada da cidade, Lúcio tornou a falar, em um tom sério, talvez mais do que eu esperaria naquele momento.
– Fausto, não posso deixar de alegrar-me com sua recente vitória, mas não esqueça que Raquel era apenas mais um nome de nossa extensa lista – ele fez uma pequena pausa, e em seguida sorriu – Acredito que nos veremos em breve.
– Espero que sim, Lúcio. Também sua ajuda foi imprescindível – falei, afinal, nada daquilo teria começado se não fosse por ele.
Tomamos rumos distintos. Lúcio voltaria, eu imaginava, a seus arquivos, já que a noite estava já passada de sua metade. Eu e Margarida rumamos à minha casa, que ficava na direção oposta em que Lúcio fora. No caminho, conversamos, pela primeira vez calmamente, sobre sua experiência fora do continente. Não havia tido sucesso em reencontrar a família e amigos que deixara para trás, e resolveu que passaria, independentemente de ser ou não junto comigo, mais algum tempo naquela pequena e confortável cidade.
Obviamente, aceitei que Margarida passasse algum tempo em minha casa, como já havia sido por vários meses. Ela seria, de uma forma ou outra, uma companhia a meu velho e amargo coração, e eu não recusaria nenhum companheiro, em momento algum. Ter alguém como Margarida a meu lado era mais do que eu poderia esperar.
Enfim, chegava à porta da minha casa. Embora não fizesse muito tempo que de lá saíra, sentia-me outra pessoa. Não estava mais apreensivo, talvez estivesse até mesmo feliz, e se não isso, satisfeito. Conforme aproximava-me da porta, começava a distinguir suas formas: nove gatos aguardavam-me em frente à porta, sentados, observando-me como gárgulas gravitadas. Três deles eram pretos, dois brancos, outros três possuíam tons de laranja. Mas apenas um era completamente cinzento.
Passei entre os gatos para entrar em minha casa, e tão logo entrei, abasteci seu pote de comida. Afinal, já estavam há alguns dias sem comerem da ração que eu lhes dava regularmente. Depois de alimentá-los, decidi que não faria nada pelo resto do dia, nada além de um merecido descanso.
E quase no final de meu dia, quando pensei que nada além de uma pacata noite aguardava-me, ouvi minha campainha tocar. Imaginei que talvez Lúcio prestasse-me uma visita, mas quando abri a porta, sob o olhar curioso de Margarida, vi ninguém menos do que Oscar. Andava com a ajuda de muletas e portava uma mochila que parecia pesada demais para quem possuía uma perna quebrada. Mesmo assim, mantinha sua aparência estranha e deslocada.
Encarei-o por alguns segundos com o que imagino que seja a pior carranca que conseguiria fazer, e quando sua expressão converteu-se em uma cara assustada, dei por mim. No fundo, eu não guardava nenhum ressentimento sobre Oscar. Ele havia sido manipulado, não mais que a pobre Reverenda. Minha fisionomia provavelmente tornou-se mais amena, porque depois de um curto pigarro, ele tornou a falar.
– Boa noite, senhor Fausto, digo, Fáris. Podemos conversar por alguns minutos?

LXIV – Do relato de Glória.

Capítulos I-LX
LXI – Do retorno à cidade.
LXII – Do reencontro com Margarida.
LXIII – Do relato de Basílio.

Chegamos ao acampamento dos Catarianos quase ao final daquela mesma tarde. Como já era de se esperar, nenhum tipo de imprevisto ocorreu durante nossa ida até o lugar. Eu fazia mais uma vez – a terceira em questão de dois dias – aquele caminho, porém dessa vez, sentia-me muito mais tranquilo do que sentira-me nas outras duas. O fato de estar caminhando em direção às respostas que tanto buscava antes acalmava meus nervos, e fazia-me capaz de não pensar exclusivamente na situação.

Logo que começamos a enxergar as cabanas, vi também uma familiar figura nos limites do acampamento, parecendo entediada enquanto acendia uma fogueira. Elisa, que também a avistara, correu em sua direção.

– Glória! – ela gritava, empolgada.

Ao perceber sua aproximação, Glória também largou a lenha que segurava na mão e ergueu-se, como se para vê-la melhor. Era clara a diferença entre o espírito das duas, e apesar de Glória não ter retribuído com a mesma empolgação o longo abraço de Elisa, podia-se adivinhar que ela também estava muito feliz por ver a amiga. Elisa só largou a outra quando nos aproximamos das duas, eu e Margarida.

– É bom ver vocês novamente – disse Glória, na voz robótica que costumava usar quando falava qualquer cois além do necessário. – Acho que o Pastoreio gostaria de vê-los.

Encaminhei-me, junto com Elisa e Margarida, na direção do acampamento, até ser interrompido por Glória.

– Você não, Fausto. Tem algo que você precisa saber, e eu fiquei encarregada de te contar.

Aproximei-me dela, que a esse ponto já havia terminado de acender sua fogueira, pois a noite já se aproximava, e sentei-me de frente ao fogo. Glória sentou-se do lado oposto da fogueira, e logo começou a me contar sua história.

Ela contou-me que assim que ela e Plínio estiveram a sós, depois de deixar Basílio no hospital, ele elucidou toda a situação a Glória. Disse a ela que mantinha sua vigilância em Oscar o mais oculta possível, pois sabia que ele novamente tentaria fugir. Plínio, inteligente como toda a nobreza costumava ser, acreditava que Oscar dar-lhes-ia alguma pista, onde quer que estivesse indo.

Meu velho amigo Plínio tirou a sorte maior: após a segunda fuga de Oscar, ele e Glória buscaram segui-lo o mais ocultos possível. Não sabiam se haviam sido eficazes, mas o que importava era que Oscar havia levado-os até um lugar remoto da cidade. Agora, os dois viam-se em uma ruela periférica da cidade, onde o esgoto era conduzido a céu aberto e a paisagem era composta por casas e prédios caindo aos pedaços.

Oscar entrou em um dos pequenos prédios, e Plínio projetou-se, seguindo-o. Lá dentro, ele pode avistar o que mais tarde descreveria a Glória como a última visão que esperava ter: Ao invés de uma Raquel altiva, lúcida e sã, como ele esperava que fosse, o que viu foi uma idosa em tais condições que era impossível imaginar que em algum ponto de sua vida tivesse mantido-se em pé. Pôde ouvir um diálogo entre ela e Oscar, em que Oscar dizia a ela que não queria mais saber de servi-la, porque ela havia sido-lhe infiel.

A idosa, Raquel, por sua vez respondeu-lhe que o único infiel estava sendo ele, e que ele não podia simplesmente abandoná-la, ao que Oscar respondeu simplesmente dando-lhe as costas. Raquel mudou sua postura e passou a implorá-lo, praticamente arrastando-se a seus pés, dizendo que já havia sido morta sua Reverenda, e que ele era o único capaz de salvar a vida dela.

Surpreendentemente, tudo que suas súplicas renderam-lhe foi o desdém de Oscar, que disse-lhe que, se ela tivesse valorizado sua palavra desde o início, talvez tivesse servos mais dispostos a entregar sua vida a ela. Depois disso, ele simplesmente saiu pela porta, deixando uma irada Raquel na porta. Tão logo ele deixou o prédio e caminhava em direção ao portão externo dele, onde estavam Plínio e Glória, foi covardemente atacado pelas costas.

Raquel pareceu, através de uma massa disforme de energia escura, sugar entropia suficiente para manter-se em pé – como ela pretendia que Oscar e sua Reverenda fizessem por ela. Não sem antes tombar ao chão e debater-se inutilmente por alguns minutos, Oscar foi salvo por Glória e Plínio. Ao ver-se confrontada, Raquel voltou para dentro do velho edifício, tão rápido quanto seu fraco corpo lhe permitia, sendo, obviamente, perseguida pela eficiente Glória.

Plínio acompanhou-a em forma de projeção, enquanto recolhia Oscar do chão. Não estava gravemente ferido, apenas queixava-se de dor em uma das pernas e possuía escoriações por todo o corpo, mas em contrapartida havia redimido-se totalmente com Plínio, que achou-o digno de cuidados. Glória, após alcançar Raquel na entrada de seu pequeno apartamento que cheirava a mofo, atacou-a, sentindo-se covarde. Afinal, seu estado estava tão deplorável que Glória nem mesmo precisou concentrar sua energia para derrubá-la ao chão.

Sem dizer uma palavra e sentindo qualquer coisa que não fosse vontade de lutar, Glória trouxe à tona a aura de uma das entidades superiores dos Catarianos: um antigo xamã. Através dele, sob juras de vingança, conseguiu expurgar a alma de Raquel para o grande plano inferior, e seu corpo desfez-se em um amontoado de cinzas e ossos tão logo foi-lhe retirada a alma. Depois disso, Plínio e Glória levaram Oscar de volta ao hospital e então rumaram de volta para o acampamento dos Catarianos, onde estavam até o momento.

Meu alívio ao saber de tal história havia sido tanto que por alguns segundos, não consegui tomar forças para levantar-me. Ao fim da história de Glória, a fogueira já estava quase extinguindo-se, e a noite já levantava-se, estrelada e cada vez mais fria. Recompus-me depois de algum tempo, levantei do chão, e rumamos, eu e Glória, para o lugar onde encontrava-se o resto de seu povo.

Raquel, afinal, provara ser apenas restos de algo que um dia já fora. Experiente como era, eu sabia que ela estava usando uma técnica inferior para manter-se viva, que consistia em absorver energia de corpos e usá-la para rejuvenescer-se. Seu maior braço de luta, sua Reverenda, a misteriosa mulher do vestido verde oliva, havia deixado de existir, e com isso, todo o peso de sua idade verdadeira caíra sobre seus ombros.

 

LXIII – Do relato de Basílio.

Capítulos I-LX
LXI – Do retorno à cidade.
LXII – Do reencontro com Margarida.

Partimos cedo pela manhã para o hospital onde Oscar, segundo haviam me dito, ainda estava internado. Lá também eu encontraria Glória, Plínio e Basílio, que estavam encarregados de garantir que Oscar não sairia de lá novamente. Caminhávamos pela rua, eu, Margarida e Elisa, ainda conversando casualidades como na noite anterior.

O caminho que eu fizera por várias vezes anteriormente: de minha casa até o centro da cidade, agora parecia extremamente distante e estranho para mim. Como se a última vez em que eu houvesse andado por ele tivesse acontecido há muitos anos. Não dei muita atenção para esse fato, mas surpreendia-me com os cruzamentos entre as ruas e as placas de lojas que se impunham à minha frente.

Após aquela caminhada que estranhamente não me era familiar, chegamos ao hospital. Na recepção, identifiquei-me como professor de Oscar, como havia sido da última vez, e consegui facilmente entrar no quarto dele. Porém, sendo que já havia alguém lá dentro, apenas eu pude entrar: Elisa e Margarida me esperariam na recepção, e não pareciam nem um pouco afetadas por isso.

Entrando lá, encontrei-me com Basílio sentado, com uma expressão absolutamente neutra, ao lado de Oscar. Este, permanecia deitado inconsciente, e embora uma de suas pernas estivesse engessada e imobilizada e alguns curativos insinuassem escoriações em seus braços e seu pescoço, seu semblante encontrava-se tranquilo, muito mais do que da última vez que o vira.

Ao perceber que eu entrava pela porta, Basílio ergueu-se e cumprimentou-me com uma reverência, como estava acostumado. Ele havia trocado toda sua resplandecente armadura por um capote negro, que reconheci como sendo um dos que eu usava com menos frequência.

– Bom dia, Basílio – falei – como tem passado?
– As coisas estão em uma imperturbável calmaria – ele falou – o sujeito não tem dado sinal de vida desde ontem à noite.
– E antes disso, o que aconteceu? – perguntei-lhe, apreensivo.
– Pois bem, ele decidiu que seria uma excelente ideia fugir da tutela do hospital – ele respondeu – mas conseguimos capturá-lo.
– E onde estavam Plínio e Glória? Não conseguiram interceptá-lo?
– Acalme-se, Fausto. Eu pretendo contar-te tudo, mas antes diga-me o que foi feito de Bernardo e como acabou-se sua luta.

Haviam duas poltronas no pequeno quarto de hospital onde Oscar repousava. Basílio estava em frente a uma delas, portanto sentei-me à outra, posicionada paralelamente à primeira. Prossegui a contar-lhe, tão minuciosamente quanto lembrava, o que se passara no cemitério. Contei-lhe sobre Bernardo, omitindo detalhes sobre como fora morto de forma covarde, contei-lhe sobre a Reverenda e a suspeita de Elisa de que na verdade fosse também ela uma das Catarianas.

Basílio mostrou-se pouco abatido sobre a morte do amigo. Depois de algum tempo comigo, acredito que ele já conseguia entender que a morte, para si mesmo e para Bernardo, era uma mera questão de tempo. Ele prosseguiu, depois de sanar toda a sua curiosidade sobre pormenores da luta, ele prosseguiu a contar-me sua história, que tomo a liberdade de narrar conforme meu entendimento dela.

Pois bem, depois de Basílio e Glória terem deixado o cemitério, guiados pela projeção astral de Plínio, tomaram imediatamente o rumo da cidade. No caminho, porém, confrontaram-se com alguns dos servos de Caim e Abel, principalmente do segundo, que haviam sido colocados em pontos estratégicos: encruzilhadas e áreas de difícil fuga. Com um pouco de dificuldade, chegaram até a cidade. Antes que entrassem nela, Plínio, que os observava, disse que esperassem.

Receosos de terem caído em uma armadilha, os dois esperaram na noite por um pouco de tempo, sem a presença da projeção astral de Plínio. Foi posto um fim em sua espera quando o próprio Plínio e Margarida apareceram no lugar onde estavam os dois, deixando Oscar sozinho por motivos que desconheço.

Imediatamente, Glória e Basílio foram levados até minha casa, onde eles foram limpos e algumas roupas novas providenciadas. A pedido de Plínio, também alimentaram-se e descansaram. Desde o amanhecer, pelo resto daquele dia, os quatro permaneceram em minha casa. Plínio fechara-se no quarto onde estivera antes hospedado o Errante, Glória passara boa parte do tempo no sofá, entediada e Margarida tornou a, acompanhada por Basílio, organizá-la, como sempre havia sido seu hábito.

O dia teria sido calmo, não tivesse sido pelo súbito estado de alerta em que Plínio estava, pouco antes do final da tarde. Disparou escada abaixo, logo Plínio, que procurava manter suas emoções sob controle o máximo possível. Perguntados sobre o que havia acontecido, ele mandou que Glória e Basílio saíssem com ele, dizendo para que Margarida cuidasse da casa, fato que, conhecendo minha discípula, provavelmente deixara-a irritada.

Os três foram até o hospital, onde deixaram Basílio, ordenando-o que fosse até o quarto onde Oscar estaria hospedado, e aguardasse-o por lá. Basílio disse que esforçou-se para manter-se o mais alerta possível, e acreditava não ter dormido em nenhum ponto daquela noite – que era a noite em que eu e Elisa havíamos voltado ao assentamento dos Catarianos.

Na manhã seguinte, Oscar havia sido levado de volta ao hospital, extremamente machucado, porém ainda consciente, e com uma expressão serena. Glória e Plínio também não pareciam em nada descansados, provavelmente por terem perseguido Oscar avidamente. Então, Plínio e Glória tinham supostamente voltado para o acampamento Catariano, pois mandaram Basílio avisar-me de que estariam na companhia de Lúcio.

Demorei um pouco para digerir as informações, após ouvir atentamente o relato de Basílio. Apenas voltamos a conversar porque ele mesmo quebrou o silêncio.

– Senhor – ele disse, em tom solene – acredito que minha função por aqui já esteja cumprida. Acredito que já possa voltar ao outro plano.
– Basílio – eu disse, saído de meus pensamentos – deves, com certeza, mas primeiro quero certificar-me de que tua ausência aqui não nos fará falta.
– Deixe ele ir, Fausto. – disse uma voz familiar, vinda de um dos cantos da sala. Virei meu rosto imediatamente para tal canto, e pude ver a familiar projeção astral de Plínio. – O garoto Oscar não irá mais tentar fugir.
– E como tens tanta certeza, Plínio? – perguntei, contendo minhas perguntas.
– Pretendo contar-te mais tarde. Por hora, deixe que Basílio volte para o lugar onde ele deve ficar – afinal, essa é a ordem natural das coisas – e siga para o assentamento dos Catarianos. Todos estamos lá.

Concordei com Plínio, e, seguindo suas instruções, exilei a alma de Basílio de volta para um dos planos superiores. Pude perceber que Plínio apossou-se do corpo antes por ele ocupado, para que ninguém no hospital achasse estranha uma morte súbita, e assim que o vi, saí do quarto, encontrando Margarida e Elisa na recepção.

Contei a elas do que havia acontecido a Plínio e a Basílio, e pude ver um pequeno lampejo de descontentamento no rosto de Margarida. Sem muito esperarmos, almoçamos modestamente em um restaurante que havia aí por perto, e seguimos em direção ao lugar onde, segundo Plínio, estávamos sendo aguardados.

 

LXII – Do reencontro com Margarida.

Capítulos I-LX
LXI – Do retorno à cidade.

 

As ruas do bairro onde eu morava, mesmo sendo cedo de noite, pareciam agora mortas. Não se via sequer um passante, níveis tão baixos de movimento não eram comuns nem mesmo para um frio anoitecer. Chegamos até minha casa sem nada digno de menção acontecer, e não havia nenhum gato em frente à minha porta, fato que estranhei um pouco.

Coloquei a chave que sempre levava em um dos bolsos internos de meu capote na fechadura, e para minha surpresa, a porta não estava trancada. Assim que entrei em casa, tomei um susto ainda maior: Toda a casa havia sido organizada de forma impecável: tudo o que estava desorganizado havia sido posto em seu lugar, e tanto os móveis quanto o chão exalavam cheiro de produtos de limpeza. Fazia algum tempo que não encontrava minha casa assim, mas lembrava exatamente de quando fora a última vez.

Por isso, em nada fui surpreendido quando vi Margarida sentada sob a lâmpada da cozinha, vestida confortavelmente com um largo e velho vestido, lendo um de meus livros antigos sobre as Artes Ocultas. Ao perceber nossa entrada, cumprimentou-me com um sorriso.

– Vocês demoraram um bom pouco, hein?
– Tivemos alguns percalços – disse Elisa, retribuindo seu sorriso.
– Sei. Eu esperava mais de uma equipe como vocês. – Margarida assumiu um tom sério, tornando a rir alguns momentos depois, como costumava fazer para zombar de pessoas que conhecia.

No fundo, eu imaginava que ela realmente esperasse mais de mim e de Elisa. Mas nada falei, estava cansado demais para entrar em qualquer tipo de discussão, por menor que fosse, naquele momento.

– Obrigado por limpar minha casa, Margarida.
– Tudo bem. Eu podia ter limpado três delas, com a demora de vocês.
– Desculpe, nossa única prioridade realmente era chegar em casa para encontrar Margarida.
– Tanto faz, como foi a luta? – ela perguntou, ainda em tom zombeteiro.
– Pois bem – eu disse – prefiro deixar que Elisa conte a ti, preciso de uma ducha urgentemente. Depois é tu quem terás de me atualizar.
– Acho bom que tome logo sua ducha, você é a única parte dessa casa que eu não pretendo limpar tão cedo.

Apesar do cansaço, não consegui deixar de esboçar um sorriso. Subi rapidamente até meu quarto – não menos ordenado do que o resto da casa – e tornei a tomar uma ducha, que imagino ter sido a mais longa que eu tomei em muito tempo. De repente, meus problemas não pareciam tão relevantes quanto eram há algumas horas, e consegui esquecer totalmente Plínio, Oscar e Raquel durante o tempo que permaneci sob a água quente de meu chuveiro elétrico.

Antes de descer de volta ao andar térreo, pude ouvir Margarida e Elisa conversando ativamente, entre risadas. Procurei demorar-me um pouco mais no segundo piso, para não atrapalhar a desenvolta conversa das duas. Fui até o quarto de Mefisto e conferi sua máquina: Não mostrava nenhuma grande variação de entropia em toda a tela, portanto respirei aliviado. O pior já tinha passado.

Desci, então, as escadas, e diferentemente do que havia esperado, minha presença não interrompeu, em absoluto, a conversa das duas. Logo, inclusive, fui convidado a participar dela.

– Eu duvidava que você fosse conseguir expurgar alguém, Fausto, eu realmente duvidava. Mas parece que você fez isso duas vezes, meus parabéns – disse Margarida.
– Vejo que já está a par do que aconteceu comigo. Agora conte-me sobre o que foi feito em minha ausência – eu disse, fazendo meu máximo para tentar ser agradável, ao mesmo tempo em que supria minha ansiedade.
– Calma, Fausto. Por que tanta pressa?
– Sabes com o que estamos lidando, não sabes, Margarida?
– Sim, já me falaram isso. Mas relaxa, o que importa é que você não pode fazer nada por agora.
– Como assim?
– Bem, nada tem acontecido por hora. Oscar fugiu de novo do hospital, o Plínio e a Glória foram atrás dele, acharam ele machucado, e levaram de volta pro hospital depois de umas horas.
– E agora, o que foi feito de Oscar? – eu perguntava, cada vez mais ansioso.
– Eu já disse pra você se acalmar, Fausto. Ele já está de volta ao hospital, o Plínio fez questão de ficar por lá de corpo presente, não só em projeção.
– E o que será que aconteceu enquanto eles estiveram fora? – perguntei.
– Calma, Fausto, pela quarta vez! Provavelmente nada demais. Mas se você quiser, podemos ir até onde eles estão amanhã pela manhã, acho que o Plínio gostaria de falar com você.

Eu considerei a proposta por alguns segundos.

– Tudo bem, iremos amanhã até onde estão Plínio, Oscar e Glória. E quanto a Lúcio, o que aconteceu com ele?
– O Lúcio aparece de vez em quando no hospital, mas ele já voltou para suas atividades normais. Como eu disse, nada de muito grave aconteceu.
– Eu suponho que não – eu disse, mais tentando tranquilizar a mim mesmo do que Margarida – e quanto a Basílio?
– Ah, o menino engraçado. De onde ele veio, Fausto? – o tom de voz de Margarida mudara completamente, ela passara a falar mais baixo, como se confidenciasse algo.
– Não respondeste minha pergunta, Margarida. Mas responderei a tua: Basílio é um antigo guarda real, que colocou-se à minha disposição desde que ajudei a ele e a Bernardo.
– Bernardo? – Margarida interrompeu-me – Quer dizer que tem mais um como ele?

Elisa, até então quieta, deixou escapar uma risada. Eu percebi que não saberia o que fora feito de Basílio até me encontrar com o próprio, então ignorei a pergunta e contei-lhe sobre Basílio e Bernardo. A conversa voltou a fluir normalmente, depois que decidimos ir até onde estavam Oscar, Plínio e Glória no dia seguinte. Eu não esperava, mas dormira uma noite extremamente tranquila.

LXI – Do retorno à cidade.

Capítulos I-LX

Acordei novamente quando o sol já nascia. Elisa, a meu lado, também acordara, e ao perceber que me movi, ela virou-se para mim. Não tivesse eu presenciado a luta da noite anterior, não poderia dizer que aquela Elisa anteriormente estivera a ponto de perder todas as suas energias. Ela agora cumprimentava-me com um simpático sorriso.

– Olá, Fausto – disse ela, levantando da cama que ficava ao lado da minha – quer comer algo? Posso buscar alguma coisa, já que estamos desde ontem à noite sem.
– Não mesmo – disse Emília, que entrava pela porta – vocês dois mal conseguiam permanecer em pé quando chegaram aqui ontem. Deitem-se que eu logo vou trazer algo para vocês.
– Muito obrigado – respondi, fazendo uma pequena reverência com minha cabeça.

Só então comecei a perceber o quanto estava com fome. Afinal, eu não havia comido nada por pelo menos doze horas, e havia gasto uma grande parte de minha energia graças a Caim, Abel e à Reverenda. Logo voltei a pensar sobre como estariam Plínio, Margarida e Basílio, dos quais eu não havia tido mais notícia alguma.

– Eu já volto – Elisa interrompeu meus pensamentos com sua voz enquanto levantava e andava na direção da porta – Se precisar de algo, chame Emília.

Não posso dizer que não aprovava algum tempo para ficar sozinho. Sentia como se ainda não tivesse digerido os acontecimentos da noite anterior, ou a magnitude do que eles representavam. O Errante voltara novamente ao lugar onde pertencia: o limbo multiplanar. Tanto Abel quanto Caim estavam expurgados, e seria muito difícil trazê-los de volta, quando quer que fosse, e havia Raquel, de quem eu pouco ouvira falar desde algum tempo atrás, que agora fazia-se uma inimiga de peso.

Por último, e que não menos incomodava minha mente, havia a situação de Oscar. O motivo dele ter me atacado tão enfurecidamente ainda era um grande mistério, ainda mais contando com sua fuga do hospital. E no fim das contas, eu não sabia o motivo da volta de Glória, ou por que ela seria necessária de volta à cidade, quando também o era lutando a meu lado.

Quando Emília finalmente entrara em meu quarto, e junto com ela um aroma que eu não sabia distinguir do que era, mas que enchia o ambiente de forma deliciosa, imaginei que talvez fosse melhor deixar esses pensamentos de lado, pelo menos por hora. Ela trazia em suas mãos uma rasa e larga panela fumegante, e sobre ela, dois pratos empilhados, junto com talheres e ainda um pequeno recipiente com um creme de cor suave.

– Desculpe, Fausto, foi tudo que conseguimos fazer em pouco tempo. Espero que te agrade. Aliás, onde está Elisa?
– Disse que logo voltaria. E não se preocupe quanto à comida, tenho certeza de que ela está muito bem preparada.
– Sinta-se à vontade – disse Emília, com um discreto sorriso – e deixou o ambiente.

Decidi esperar Elisa para começar a comer, enquanto observava a panela fumegante e os dois pratos colocados na pequena penteadeira à minha frente. Nunca deixei de me impressionar com a organização minimalista dos Catarianos, bem como de sua capacidade de adaptar-se fácil a um ambiente novo, e nele agir tal qual sua própria casa.

Elisa não demorou a voltar, e assim que viu a panela, sua expressão tornou-se ainda mais feliz do que antes era.

– Olha, trouxeram alguma coisa! Por que não começou a comer, Fausto?
– Estava esperando por ti. Seria rude se eu terminasse minha refeição antes que viesse.
– Não precisava se preocupar com isso – ela tinha um largo sorriso no rosto quando abriu a panela e serviu aquilo que parecia uma sopa de legumes e vegetais. Alcançou o primeiro prato para mim.
– Muito obrigado – eu falei.
– De nada. A propósito, se depois você quiser se lavar, tem uma fonte aqui nas redondezas, perto do rochedo.
– Talvez eu vá até lá depois – exclamei, entre uma colherada e outra.

Aquela sopa com certeza estava entre as melhores que eu já havia provado. Elisa e eu não demoramos muito tempo para esvaziar a panela, e eu sentia-me satisfeitíssimo após a refeição. Depois dela, pedi licença para Elisa e andei até a fonte que ficava próxima ao rochedo. Um córrego saía dentre as rochas, e em um ponto de sua travessia, desaguava em uma espécie de fosso, que era grande o suficiente para que um homem adulto banhasse-se nele tranquilamente. O sol batia nas rochas lisas de uma maneira que mantinha a água – assim como todo o ambiente ao redor delas – aquecida, e o transbordo do fosso constantemente sendo cheio formava novamente o riacho, que continuava seu curso.

Bebi um pouco da cristalina água, antes que chegasse ao fosso, e lavei meu rosto e minhas mãos com sua água morna. A paz do lugar era tanta que provavelmente eu teria gasto horas banhando-me nele, não fosse a maior urgência do que acontecia a meu redor. A água e meu rosto limpo haviam dado-me novas energias para continuar o que havia começado: deveria agora voltar à cidade, ver o quanto poderia ser útil sobre Raquel e mais possíveis subordinados.

Quando voltei ao vilarejo onde acampavam os Catarianos, Elisa já me esperava fora das cabanas. Ao perceber minha chegada, o Pastoreio, Pânfilo e Emília vieram até onde estávamos.

– Vocês já estão indo? – perguntou Emília.
– Sim – Elisa respondeu em tom sério, como se soubesse o que eu pensara – ainda não terminamos com Raquel.
– Tomem cuidado – Pânfilo falou, não parecendo muito preocupado.
– Tenho certeza que vocês farão um bom trabalho – disse, finalmente, o Pastoreio – E se encontrarem Glória, digam a ela para que não se esforce demais.
– Com certeza direi – eu respondi, tentando ignorar minha ansiedade e insegurança.

E desse jeito, sem uma cerimônia muito grande, como quem sabe que logo haverá de rever-se, voltamos a andar, eu e Elisa, em direção ao centro da cidade, onde provavelmente estariam agora Margarida, Plínio e Glória. Eu lembrava-me do caminho até o hospital, então isso não seria um grande problema.

Apesar de Elisa agora estar mais alegre do que estava enquanto voltávamos para o assentamento dos Catarianos, pouco conversamos na caminhada até a cidade, e admito que muito se devia às minhas preocupações. Afinal, por mais que eu mesmo tivesse treinado Margarida, já tivesse visto do que Plínio e Glória eram capazes e o modo como os Catarianos lidaram com nossa saída, confiantes, não podia deixar de preocupar-me com os mesmos fatores que descrevi. Raquel, se fosse uma entidade tão poderosa quanto era dito, não cairia tão facilmente.

Logo antes de começar a anoitecer, estávamos na entrada da cidade. Como dificilmente o hospital permitiria visitas tarde da noite, e eu acima de tudo ainda me encontrava sujo e exausto fisicamente da caminhada e da batalha, sugeri a Elisa que passássemos a noite em minha casa, já que provavelmente teríamos um longo dia. Elisa concordou, e rumamos ao conhecido caminho até minha casa.